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Eleições
26/10/2026 18:00
A virada de Lula no segundo turno de 2026 não pode ser atribuída a um único fator, nem explicada apenas pelas realizações do governo ou pela mobilização de seus apoiadores. Resultou da combinação de circunstâncias políticas, decisões de campanha, políticas anunciadas, comunicação nas redes sociais e mudanças no comportamento dos eleitores. Destaca-se a inversão da abstenção: eleitores de Lula ausentes no primeiro turno foram mobilizados para o segundo, enquanto parte dos eleitores de Flávio que haviam votado podem ter deixado de comparecer à decisão final.
A tese central é que Lula conseguiu transformar uma disputa inicialmente marcada pelo desejo de mudança e pela força da oposição em uma escolha entre dois projetos políticos, expondo os limites e riscos representados pelo adversário e renovando as expectativas em relação ao próprio governo. Se Flávio Bolsonaro se beneficiara, antes do primeiro turno, de uma onda favorável à extrema-direita, Lula reorganizou a campanha entre as duas votações, ampliou o diálogo com segmentos menos identificados com o governo e mobilizou eleitores que não haviam participado da primeira votação.
Flávio avançou na reta final do primeiro turno, impulsionado pela onda azul favorável a candidatos ao Senado identificados com o bolsonarismo e pela insatisfação de setores da sociedade com decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF), vistas como favoráveis a Lula. O presidente recuperou terreno no segundo turno, quando a disputa passou a exigir avaliação mais concreta do adversário e das consequências de sua eventual eleição.
A onda azul e a vantagem inicial de Flávio
O primeiro turno precisa ser compreendido à luz da dinâmica política que o antecedeu. Flávio Bolsonaro foi favorecido pela polarização, pelo antipetismo e pela mobilização bolsonarista, especialmente em favor do voto útil. Na reta final, a onda azul ampliou a presença da direita e da extrema-direita na disputa pelo Senado, convertendo a eleição em manifestação contra o governo e instituições consideradas, por parte do eleitorado, alinhadas ao campo adversário.
Decisões do TSE e do STF foram incorporadas à narrativa oposicionista como exemplos de suposto favorecimento a Lula. Independentemente da fundamentação jurídica dessas decisões, a percepção construída por parte do eleitorado produziu efeitos políticos: a insatisfação com o Judiciário tornou-se elemento de mobilização, reforçando a identificação de determinados segmentos com o bolsonarismo e ampliando o alcance de Flávio.
A vantagem oposicionista decorria da convergência circunstancial de diferentes motivações: adesão ideológica dos bolsonaristas, rejeição ao PT e ao governo, voto útil ou antecipação de votos que seriam dados a outros candidatos de direita, e desejo de mudança de eleitores que, sem compartilhar a visão de mundo da extrema-direita, estavam cansados da permanência do mesmo grupo político no poder.
Os três grupos de eleitores de Flávio
O primeiro era formado pelos antipetistas, cuja rejeição ao PT antecede a eleição e não depende necessariamente de uma avaliação específica do governo. Para eles, impedir a continuidade do petismo, seja por terem incorporado o discurso anticorrupção (que via em Lula o "ladrão") ou conservadorista (vendo a "ideologia de gênero" e a defesa de direitos humanos como "leniência" com o crime), constitui elemento central da escolha, mais importante, muitas vezes, do que a comparação entre propostas e resultados administrativos.
O segundo grupo era constituído pelos bolsonaristas propriamente ditos, identificados com Jair Bolsonaro, sua trajetória e os valores associados ao movimento. Para esse segmento, Flávio representava a continuidade de um campo político e de uma identidade coletiva, contrária ao "comunismo" e orientado por um grau de fanatismo religioso fundamentalista, ou adepta de combater o crime por meio do armamento da população, pena de morte e outras medidas radicais. A fidelidade tende a ser maior e a possibilidade de transferência de votos para Lula, muito reduzida.
O terceiro grupo reunia eleitores que não necessariamente se identificavam com Bolsonaro ou com a extrema-direita, mas desejavam mudança. Insatisfeitos com o governo do PT, podiam considerar desejável a alternância de poder sem aderir integralmente ao programa, ao estilo ou às posições do adversário. Seu voto expressava sobretudo uma avaliação negativa do governo ou uma expectativa de renovação, e não necessariamente uma identificação ideológica duradoura com o bolsonarismo. Em muitos casos, essa opção pode ter sido feita sem uma avaliação mais aprofundada das contradições entre o discurso antissistema de Flávio Bolsonaro e sua vinculação a grupos políticos e estruturas de poder já estabelecidos.
Essa distinção foi decisiva para a estratégia do segundo turno. Convencer antipetistas e bolsonaristas convictos a mudar de lado seria uma operação de baixa probabilidade de sucesso. Já persuadir o terceiro grupo a reconsiderar o voto, optar pela abstenção ou deixar de comparecer às urnas era relativamente mais viável.
O objetivo não era apenas conquistar votos do adversário, mas alterar a relação entre rejeição ao governo e disposição para votar na oposição. Quando o eleitor insatisfeito passa a considerar que a alternativa disponível pode ser mais problemática do que a situação que deseja modificar, o descontentamento deixa de produzir automaticamente um voto oposicionista. Foi nesse espaço que a campanha de Lula atuou no varejo, no boca-a-boca.
A exposição do adversário e a mudança de percepção
O segundo turno tem dinâmica própria. No primeiro, o eleitor pode distribuir seu voto entre várias candidaturas, expressar preferências ideológicas, protestar contra o governo ou escolher uma alternativa próxima de suas convicções. No segundo, a disputa se concentra em duas opções e a comparação entre elas ganha nitidez.
Nesse ambiente, Lula conseguiu apresentar Flávio Bolsonaro de maneira mais direta ao eleitorado. A campanha deixou de depender apenas da defesa do legado dos mandatos anteriores, das realizações da administração e da experiência política do presidente. Passou também a enfatizar quem era o adversário, quais interesses representava, que orientação teria seu governo e quais riscos sua eleição poderia trazer ao país.
Isso não significa que todos os eleitores tenham mudado de opinião sobre Lula ou passado a aprovar integralmente sua administração. Em eleições polarizadas, o voto pode decorrer tanto da preferência por um candidato quanto da rejeição ao outro. O eleitor pode continuar insatisfeito com o governo e concluir, ainda assim, que a candidatura adversária não corresponde às suas expectativas. Muitas manifestações em redes sociais demonstraram esse posicionamento.
Políticas públicas para além da base tradicional
Não bastava mobilizar a base tradicional, recuperar a memória dos governos anteriores ou defender as realizações da administração. Era necessário responder a demandas concretas de grupos que, embora reconhecessem avanços em determinadas áreas, permaneciam insatisfeitos com a política econômica, as dificuldades cotidianas ou a falta de perspectivas de melhoria de vida.
Nesse sentido, os anúncios de políticas públicas dirigidas aos microempreendedores tiveram importância estratégica. Esse segmento reúne pessoas com experiências e expectativas variadas, que valorizam a autonomia econômica, a ampliação da renda e a redução dos obstáculos para manter pequenos negócios. Não é um grupo necessariamente identificado com a direita ou a esquerda; sua decisão pode ser influenciada pela percepção de oportunidades e pela capacidade do governo de compreender seus problemas.
A eleição também foi influenciada pela aprovação do fim da escala de trabalho 6 por 1 e pelo anúncio da ampliação do Pé-de-Meia para estudantes universitários. As iniciativas respondiam a preocupações distintas, mas convergiam na possibilidade de melhorar as condições de vida, ampliar oportunidades e reduzir obstáculos enfrentados por trabalhadores e estudantes.
A redução da jornada, ao relacionar emprego, qualidade de vida, descanso e convivência familiar, colocou em evidência uma questão que ultrapassa as fronteiras partidárias. Já a ampliação do apoio à permanência estudantil reforçou a ideia de que a educação deve ser acompanhada de condições materiais para que os estudantes ingressem, permaneçam e concluam seus cursos.
O legado, as realizações e a renovação das expectativas
O desgaste natural de um governo, a persistência de problemas cotidianos e a expectativa de renovação podem reduzir o peso do legado, sobretudo entre eleitores que não viveram diretamente os períodos anteriores ou avaliam a situação a partir das dificuldades atuais. A campanha precisava demonstrar, portanto, que continuidade não significava imobilismo.
A resposta foi combinar a defesa das realizações com compromissos voltados à ampliação de políticas públicas, à melhoria dos serviços e à criação de oportunidades. Assim, a continuidade foi apresentada como possibilidade de aperfeiçoamento, e não como simples reprodução do que já havia sido feito. A mensagem era que o governo reconhecia demandas ainda não atendidas e pretendia enfrentá-las, o que poderia reduzir a resistência de eleitores dispostos a avaliar propostas concretas.
É necessário, contudo, distinguir conquista eleitoral de comprovação de resultados. Uma promessa pode criar expectativa favorável, mas somente sua execução poderá transformá-la em confiança duradoura. A vitória não elimina as dificuldades econômicas, sociais e políticas que alimentaram o descontentamento, nem assegura a satisfação dos eleitores que apoiaram Lula no segundo turno.
As redes sociais e a mobilização das forças democráticas
Outro elemento relevante foi a recuperação da capacidade de mobilização nas redes sociais. Em uma disputa marcada pela circulação acelerada de informações, pela força das narrativas e pela segmentação das mensagens, a comunicação digital deixou de ser instrumento complementar e passou a ocupar posição central na estratégia eleitoral.
A mobilização das forças democráticas também conferiu à disputa um significado que ultrapassava a competição entre candidatos. Organizações sociais, movimentos populares, entidades representativas e lideranças políticas puderam atuar em defesa de valores e instituições, sem que isso dispensasse a discussão das dificuldades reais enfrentadas pela população. A criação do "Exército do Lula", com mais de 11 milhões de filiados em um canal no Whatsapp, sob a liderança de André Janones, evidenciou a força desse instrumento.
A abstenção como fator decisivo
Entre os elementos que contribuíram para a virada, a inversão da abstenção merece atenção especial. Em eleições polarizadas, o resultado não depende apenas de convencer eleitores a trocar de candidato, mas também da disposição de cada grupo para comparecer às urnas.
No primeiro turno, Flávio teve 56,1 milhões de votos, e Lula, 53,9, totalizando 109,9 milhões de votos, e 33,5 milhões de abstenções. Nulos e brancos totalizaram 6 milhões. No segundo turno, foram 59,8 milhões de votos para Flávio, e 64,3 milhões para Lula, com 30,5 milhões de abstenções e 4,2 milhões de nulos e brancos. Assim, a abstenção reduziu-se em 3 milhões de votos, e os nulos e brancos e 1,8 milhões, mas Lula cresceu 10,4 milhões, ou seja, um aumento líquido de mais de 7 milhões de votos, excluindo as abstenções. E Flávio obteve apenas 3,7 milhões de votos a mais, ou seja, apenas 58% dos 6,4 milhões de votos de Caiado, Cury e Zema, que declaram apoio a ele no segundo turno. Assim, a soma da rejeição a Flávio entre os eleitores dos demais candidatos que o apoiaram, mais a redução da abstenção e de votos nulos e brancos, foram fatores decisivos para a vitória de Lula.
No segundo turno, mobilizar eleitores de Lula ausentes na primeira votação tornou-se objetivo fundamental. Paralelamente, a campanha procurou reduzir a disposição de comparecimento de parte dos eleitores de Flávio, sobretudo daqueles que não eram bolsonaristas convictos e viam na candidatura uma oportunidade de mudança.
É preciso reconhecer que a abstenção, isoladamente, não comprova a orientação política de quem deixou de votar. Sua influência depende de como as ausências se distribuem entre os grupos eleitorais. Ainda assim, a hipótese de que a mobilização de eleitores favoráveis a Lula e a redução do comparecimento de parte do eleitorado de Flávio tenham contribuído para a virada oferece uma chave importante para compreender o resultado.
O desafio depois da vitória
Flávio foi beneficiado no primeiro turno pelo bolsonarismo, pelo antipetismo, pela onda favorável à extrema-direita no Senado e pela insatisfação com decisões do TSE e do STF. Lula reagiu combinando a defesa de seu legado e das realizações do governo com novas políticas públicas, mobilização democrática, disputa nas redes e exposição dos riscos representados pelo adversário.
A chave da virada esteve na compreensão de que os eleitores de Flávio não formavam um bloco homogêneo. Antipetistas e bolsonaristas convictos eram menos suscetíveis à persuasão. Já os eleitores que desejavam mudança sem compartilhar necessariamente a identidade do bolsonarismo constituíam um segmento mais aberto à reavaliação. Ao mesmo tempo, a mobilização dos eleitores de Lula ausentes no primeiro turno ampliou a participação de sua base potencial. Ademais, deve ter pesado contra Flávio uma certa arrogância nos debates: foi desrespeitoso com Lula, fez uso recorrente de informações falsas, comportou-se de forma acintosa e até mesmo debochou da deficiência física de Lula, o que acentuou a opinião sobre seu despreparo para ser presidente.
Esse diagnóstico tem implicações para o novo mandato. A eleição não deve ser interpretada como autorização para ignorar críticas ao governo, nem como prova de que todos os eleitores de Lula compartilham suas posições. Parte votou por preferência, parte por rejeição ao adversário e outra parte por considerar que a continuidade oferecia menos riscos do que a mudança proposta.
O governo precisará reconhecer essa diversidade e manter o diálogo com os segmentos que contribuíram para a vitória, inclusive os que não integram sua base tradicional. Isso significa transformar anúncios de campanha em entregas, responder aos problemas dos pequenos empreendedores, avançar na valorização do trabalho, ampliar oportunidades educacionais e melhorar os serviços públicos.
A virada resolveu a disputa presidencial, mas não encerrou a disputa política. Diante de um Congresso eleito em 2026 majoritariamente conservador ou orientado para a direita no espectro político, o desafio agora é transformar a confiança obtida nas urnas em resultados concretos. Se o governo corresponder às expectativas que ajudou a renovar, poderá consolidar o apoio de segmentos sem identificação partidária ou ideológica permanente. Caso contrário, o desejo de mudança que favoreceu Flávio no primeiro turno poderá reaparecer com ainda mais força.
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