Rudolfo Lago
Se política fosse matemática, Dilma Rousseff estaria prestes a decolar em voo de brigadeiro na sua relação com o Congresso Nacional. Dona de uma maioria parlamentar que é ainda maior que a conquistada pelo presidente Lula, a presidenta eleita viveria anos de total tranquilidade na sua relação com os parlamentares.
Nos últimos dias, a presidenta certamente convenceu-se definitivamente de que política não é matemática. Ninguém pode prever quais serão as dificuldades que ela terá ao colocar em votação no Congresso os projetos de interesse do seu governo. Mas o fato é que essa pré-temporada de formação ministerial não tem sido tão fácil como ela poderia imaginar num primeiro momento.
O primeiro problema é o perfil quase medíocre de seu ministério. Fernando Henrique Cardoso tomou posse tendo Pelé como seu ministro dos Esportes. Adib Jatene foi ministro da Saúde com Fernando Collor (e também com Fernando Henrique). Gilberto Gil esteve à frente da Cultura quando Lula assumiu o governo. Não há um notável sequer na lista de ministros escolhidos até agora por Dilma. Em seu lugar, há um monte de políticos improvisados no difícil quebra-cabeças que a presidenta precisa montar para agradar aos vários partidos de sua base. O senador Garibaldi Alves Filho confessa que não entende nada de Previdência Social. O deputado Pedro Novais consulta-se com uma antiga funcionária do ministério para aprender alguma coisa sobre as políticas públicas para o setor de turismo.
Ainda que sem brilho, tudo estaria certo para Dilma se essa equipe de políticos improvisados agradasse os partidos. Parte do PSB não gosta de ver Ciro Gomes - que tantos problemas criou ao forçar sua candidatura à Presidência - na equipe. Muito menos o PMDB, que Ciro chamou de "quadrilha" quando estava irritado por ter sido preterido na sua ambição presidencial. Peemedebistas engalfinham-se, fazem cartas e moções, exigindo cargos para a bancada do Senado, para a bancada da Câmara, para o grupo "x", para o cacique "y".
E o PT, o próprio partido de Dilma, promove o maior dos atos de rebeldia. Defenestra sem piedade Cândido Vaccarezza, o líder do governo, nome preferido do Planalto da disputa pela presidência da Câmara. Impõe o gaúcho Marco Maia no lugar. Um protesto pelo excesso de paulistas na equipe de Dilma. Maia tem sido um aliado discreto e fiel do governo. Mesmo assim, o governo ainda trabalha para reverter a situação. Como arrogância é produto que sempre está no estoque de quem se acha poderoso, o governo trama criar alternativas para evitar Marco Maia.
Caminho semelhante levou Lula a produzir um dos capítulos mais vexatórios da história recente do Congresso. Entre os vastos bigodes de Luiz Eduardo Greenhalgh e as calças jeans de Virgílio Guimarães, formou-se um vácuo na Câmara que a oposição tratou de preencher com a proeminente barriga de Severino Cavalcanti. Foi o que se viu.
De novo, a soma das pequenas insatisfações que vão ficando no caminho da formação do novo Ministério produz a sombra "Severina" na Câmara. Abre espaço para o imponderável. Enfim, Dilma tem agora um mês até a eleição para presidente da Câmara para evitar que sua relação com o Congresso Nacional se inicia com uma crise. Boa sorte à presidenta.