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MUDANÇA NO CONGRESSO
Congresso em Foco
21/1/2026 | Atualizado às 10:41
Os discursos no Plenário do Senado estão mais curtos, menos interativos e cada vez mais voltados a um público externo, especialmente nas redes sociais. Essa é a principal conclusão do estudo "Plenário, palanque, estúdio", elaborado pelo consultor legislativo Pedro Duarte Blanco, que analisou pronunciamentos feitos entre 2007 e 2024 com o auxílio de técnicas computacionais e inteligência artificial.
Ao longo de quase duas décadas, o Plenário passou por uma transformação profunda. Se antes funcionava prioritariamente como espaço de debate entre parlamentares, hoje se aproxima cada vez mais de uma vitrine de declarações individuais, muitas delas pensadas para circulação digital.
"O trabalho sugere que o Plenário perdeu caráter dialógico, convertendo-se em espaço de monólogos destinados ao público virtual, embora haja sinais de possível reversibilidade das mudanças", afirma Blanco no estudo.
Segundo a pesquisa, as alterações no padrão dos discursos decorrem da combinação de fatores estruturais e conjunturais. A expansão das redes sociais e dos formatos audiovisuais incentivou falas mais curtas, diretas e adaptadas a cortes em vídeo, reduzindo o espaço para debates longos e interativos.
Ao mesmo tempo, crises políticas e econômicas sucessivas, o aumento da polarização e a pandemia de covid-19 — que impôs sessões remotas — enfraqueceram a interlocução direta entre os parlamentares em Plenário. Mudanças institucionais na agenda e na dinâmica das sessões também contribuíram, ao priorizar produtividade e deliberação formal, deslocando parte do debate para arenas menos visíveis, como comissões e negociações de bastidores.
Três fases do Plenário
O estudo identifica três períodos distintos no comportamento discursivo dos senadores. Entre 2007 e 2014, o Plenário viveu seu momento mais intenso. O auge ocorreu em 2013, ano das Jornadas de Junho, quando foram registrados quase 6.500 discursos, o maior número da série histórica.
Já entre 2014 e 2021, houve uma queda acentuada no volume de pronunciamentos, com o ponto mais baixo em 2020, auge da pandemia, quando o Senado registrou pouco mais de mil discursos. A partir de 2021, observa-se uma recuperação parcial, ainda distante do padrão do início da série — período em que as sessões continuaram a ocorrer de forma remota.
Para Blanco, a ideia de que a quantidade de discursos reflete automaticamente a intensidade da atividade política é enganosa. Ele observa que a queda ocorreu "em meio a uma das transições de poder mais tumultuadas da história democrática nacional".
"A analogia que define o Congresso como 'a caixa de ressonância da sociedade não me parece correta, ao menos do ponto de vista dos pronunciamentos — a não ser que vejamos o silêncio dos oradores como um ato político em si, uma pausa tática para a elaboração de estratégias e recomposição de alianças", analisa.
Discursos mais curtos e homogêneos
Mesmo com a retomada parcial do número de falas após a pandemia, outro movimento se mostrou persistente: o encurtamento dos discursos. Em 2024, a mediana de palavras por pronunciamento foi menos da metade da registrada em 2007.
Além de mais curtos, os discursos tornaram-se mais homogêneos. O estudo aponta redução da variedade e maior concentração em falas breves, o que sugere adaptação a formatos mais compatíveis com vídeos curtos e redes sociais.
Blanco relata que essa descoberta surgiu de forma inesperada, durante a aplicação de algoritmos de análise estatística do vocabulário. "Quando fui conferir os dados, vi que o tamanho dos discursos tinha caído muito. Isso me chocou", afirma.
O desaparecimento dos apartes
Talvez a mudança mais simbólica identificada pelo estudo seja a queda abrupta dos apartes — intervenções feitas por outros parlamentares durante um discurso. Em 2024, o número de apartes correspondeu a pouco mais de 10% do registrado em 2007.
Atualmente, cerca de 90% dos pronunciamentos ocorrem sem qualquer interrupção. Durante a pandemia, essa proporção chegou a se aproximar de 100%, efeito das sessões remotas, mas, mesmo após o retorno presencial, o padrão não se reverteu.
"A redução dos apartes foi muito expressiva. Cheguei a duvidar dos dados e fui confirmar com pessoas que acompanham o plenário diariamente. Todas confirmaram essa percepção", relata o consultor.
Segundo ele, o Plenário deixou de ser um espaço de interlocução constante entre pares. A fala passou a ser mais declaratória, voltada à exposição de posições, e menos ao embate direto.
Retórica em alta na pandemia
O estudo também identificou mudanças na linguagem. Entre 2020 e 2022, cresceu significativamente o uso de figuras de linguagem — como metáforas, hipérboles e perguntas retóricas — sobretudo em discursos gravados em vídeo.
Para Blanco, o contexto da pandemia favoreceu uma comunicação mais emocional e performática. Embora parte desse padrão tenha recuado após o fim das restrições sanitárias, algumas marcas permaneceram, indicando uma possível mudança duradoura na comunicação política.
Gênero e estratégia
A pesquisa lança ainda luz sobre diferenças de comportamento entre homens e mulheres no Plenário. Apesar da queda geral dos apartes, as senadoras passaram a interagir mais entre si a partir de 2018, movimento que coincide com o fortalecimento institucional da bancada feminina.
O estudo também identifica indícios do chamado mansplaining — explicações excessivas de homens dirigidas a mulheres —, mas ressalta que o fenômeno exige análises mais específicas.
Debate em risco?
Na conclusão, o autor evita diagnósticos definitivos, mas faz um alerta. A subordinação do Plenário à lógica das plataformas digitais pode esvaziar uma de suas funções centrais: o debate público regulado, transparente e institucional.
"Considerando as virtudes do Poder Legislativo como esfera pública — ainda que imperfeita —, subordinar o Plenário às redes sociais significa delegar suas funções a uma instância privada, à margem de um regime político-jurídico republicano", afirma.
Blanco pondera que não há resposta simples para o problema. "As redes sociais cumprem inúmeros outros objetivos sociais, o que torna a regulação uma tarefa complexa. Talvez seja melhor regular a política", diz.
Apesar disso, ele vê sinais de que a transformação não é irreversível. A recuperação parcial de algumas métricas após a pandemia sugere que o Plenário pode voltar a ser mais dialogado, desde que haja condições políticas, institucionais e culturais para isso.
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