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CRISE EM FAMÍLIA
Congresso em Foco
25/6/2026 14:36
O vídeo em que Michelle Bolsonaro acusa Flávio Bolsonaro de tê-la maltratado, desrespeitado e humilhado atingiu o senador em dois públicos nos quais ele vem perdendo espaço: mulheres e evangélicos. A crise, inicialmente familiar e partidária, ganhou peso eleitoral porque a ex-primeira-dama fala justamente a segmentos que o pré-candidato do PL à Presidência precisa reconquistar para se viabilizar em 2026.
Pesquisa Quaest realizada de 5 a 8 de junho mostrou queda de Flávio entre mulheres e evangélicos. No recorte feminino, Lula aparece com 47% das intenções de voto contra 33% do senador; em maio, o placar era de 45% a 36%. Entre evangélicos, Flávio ainda lidera, mas sua vantagem caiu: passou de 61% a 24% em maio para 52% a 31% em junho.
A queda ocorreu em meio à revelação de que o senador negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, recursos para financiar o filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro. O desgaste também foi causado pelas várias versões dadas pelo pré-candidato a respeito do assunto: Flávio primeiro negou relação com o banqueiro e depois admitiu a negociação. O senador nega irregularidades.
O Ceará e o PL Mulher
Outro foco da crítica de Michelle foi a articulação do PL no Ceará. A ex-primeira-dama reclamou do movimento para preterir a vereadora de Fortaleza Priscila Costa na disputa ao Senado e associou a decisão à tentativa de aproximação com Ciro Gomes. Michelle é presidente nacional do PL Mulher, e tem Priscila como vice. A vereadora é uma das principais lideranças evangélicas na política cearense.
A crítica não foi diretamente sobre falta de recursos para candidaturas femininas, mas sobre o espaço dado a mulheres conservadoras nas chapas e sobre o peso real do PL Mulher nas decisões eleitorais. Ao tratar o caso de Priscila como exemplo de desconsideração política, Michelle conectou a crise local no Ceará ao debate nacional sobre sua autoridade dentro do partido.
Nesse contexto, a fala de Michelle ganha maior dimensão política. Ela não é apenas a mulher de Jair Bolsonaro. Preside o PL Mulher, tem trânsito em eventos conservadores, usa linguagem religiosa e construiu presença nacional junto a eleitoras e igrejas evangélicas. Ao se apresentar como uma mulher diminuída pelo enteado, desloca a crise do campo privado para uma área sensível da pré-campanha.
Pai e marido
Flávio percebeu o risco. Em sua resposta nas redes, abriu o texto destacando que é casado há 16 anos, pai de duas filhas e que nunca desrespeitou, maltratou ou humilhou uma mulher. Também disse ter respeito pelo trabalho de Michelle no PL Mulher, pelo cuidado dela com Jair Bolsonaro e pelo que ela representa para o Brasil.
A reação do senador mirou o mesmo público atingido pelo vídeo. Além de negar a acusação de humilhação, Flávio anunciou uma reunião com lideranças femininas conservadoras, organizada com a senadora Damares Alves, para discutir propostas para mulheres. Segundo ele, Michelle foi convidada, mas não retornou o contato.
Michelle, por sua vez, usou o vídeo para reivindicar autoridade política. Rebateu a ideia de que teria "chegado agora" à política — declaração que, segundo ela, lhe foi dirigida por Flávio em conversa por telefone. Lembrou sua atuação no PL Mulher e disse que seu futuro está "nas mãos de Deus". A fala reforça sua conexão com mulheres conservadoras e evangélicos, dois grupos centrais para o bolsonarismo.
A crise cria um dilema para Flávio. Michelle pode ser uma aliada importante na tentativa de aproximar a campanha de eleitoras e fiéis. Mas, se permanecer contrariada ou afastada, pode se tornar um foco permanente de desgaste entre públicos que ele não pode perder. O senador tem sinalizado que escolherá uma mulher como candidata a vice, em uma tentativa de melhor sua interlocução com a fatia mais numerosa do eleitorado brasileiro, a feminina.
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