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DO SÍTIO À MARGEM EQUATORIAL
Congresso em Foco
18/8/2026 13:52
Quase 90 anos separam o poço imaginado por Monteiro Lobato daquele que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), foi conhecer na costa do Amapá. Em 1937, em O Poço do Visconde, personagens do Sítio do Picapau Amarelo aprendiam geologia, perfuravam o solo e encontravam petróleo, riqueza que, para o escritor, poderia ajudar a transformar o Brasil. Na segunda-feira (17), a cena era outra: Alcolumbre e o presidente Lula, vestidos com macacões laranja da Petrobras, embarcaram no navio-sonda que perfura o poço Morpho, na Margem Equatorial.
Três dias antes, a Petrobras havia anunciado a identificação de petróleo no bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas. Ainda não se sabe quanto existe nem se a descoberta será comercialmente viável. Politicamente, porém, o resultado bastou para recuperar uma velha ideia brasileira: a de que uma riqueza escondida pode abrir caminho para desenvolvimento e soberania.
"Estávamos certos. Foram anos de luta para chegar até aqui", declarou Alcolumbre.
O presidente do Senado fez da pesquisa na Margem Equatorial uma de suas principais bandeiras. Defende que o Amapá tem o direito de conhecer os recursos existentes diante de sua costa e associa uma eventual exploração a emprego, renda e investimentos.
A aproximação com Lobato vai além do petróleo. Está também no discurso. Nos anos 1930, o escritor defendia a prospecção como parte de um projeto de modernização e independência econômica. Alcolumbre, quase nove décadas depois, também coloca a questão no campo da soberania: o Brasil, sustenta, deve conhecer suas riquezas e decidir o que fazer com elas.
O petróleo de Lobato
Monteiro Lobato não escolheu o petróleo por acaso para uma aventura infantil. Quando publicou O Poço do Visconde, já participava da campanha pela prospecção no Brasil. Um ano antes, havia lançado O Escândalo do Petróleo, em que denunciava o que considerava obstáculos à exploração das reservas nacionais.
Em O Poço do Visconde, o Visconde de Sabugosa estuda geologia e convence os moradores do Sítio do Picapau Amarelo a procurar petróleo nas terras de Dona Benta. A aposta dá certo: o óleo jorra, novos poços são abertos e a descoberta é apresentada como capaz de transformar economicamente o país.
A ficção reproduzia uma convicção de Lobato: explorar as riquezas nacionais permitiria ao Brasil se industrializar, enriquecer e reduzir sua dependência externa.
Dois anos depois da publicação, em 1939, petróleo seria encontrado no país justamente em um lugar chamado Lobato, bairro de Salvador. A Petrobras seria criada em 1953.
O Brasil de hoje é outro: grande produtor, com domínio da exploração em águas profundas e grandes reservas no pré-sal. Ainda assim, uma pergunta semelhante à que mobilizava Lobato reapareceu no Amapá: o que existe onde ainda não se perfurou?
Petróleo e soberania
Para Alcolumbre, a descoberta no poço Morpho forneceu uma primeira resposta. A Petrobras ainda precisa determinar o volume, a qualidade e a viabilidade econômica do petróleo encontrado.
O licenciamento foi marcado por uma disputa mbiental. O Ibama negou a licença em 2023 e autorizou a perfuração em 2025, após novos estudos. O projeto continua alvo de questionamentos, enquanto a Petrobras sustenta que cumpre as exigências do licenciamento. Mas o discurso de Alcolumbre se concentra em outra questão: soberania.
Durante a visita de Lula ao Amapá, em 17 de agosto, o senador deixou isso explícito. "Deixem que nós, brasileiros, que lutamos pela defesa do nosso Brasil, que nós decidamos o que nós queremos do Brasil", afirmou. Alcolumbre também criticou aqueles que, segundo ele, pretendem "tutelar o futuro do Brasil".
A formulação encontra eco direto em O Poço do Visconde. Depois que o petróleo jorra no sítio, um repórter compara a descoberta à emancipação nacional: "No dia 7 de setembro o Brasil proclamou a sua independência política, mas só agora acaba de proclamar a sua independência econômica".
No desfecho, Lobato reforça a associação. Sobre o poço Caraminguá nº 1, é instalada uma placa anunciando que dali havia saído, "num jato de petróleo, a independência econômica do Brasil".
A frase sintetiza o nacionalismo petrolífero de Lobato. Para ele, conhecer e explorar as riquezas do subsolo significava construir um país economicamente mais independente. As épocas mudaram; parte do vocabulário permanece.
Lula também falou em desenvolvimento durante a visita ao Amapá. Chamou a descoberta de possível "passaporte para o futuro" e disse que o petróleo pode abrir oportunidades para o Estado. A presença dos dois no navio-sonda deu dimensão política ao momento. Para Alcolumbre, associou sua imagem ao primeiro resultado concreto de uma bandeira defendida durante anos. Para Lula, marcou a reaproximação com o presidente do Congresso em torno de uma agenda de interesse do Amapá.
Do Visconde ao Morpho
Monteiro Lobato escreveu sobre petróleo quando o Brasil ainda precisava provar que possuía petróleo. O poço Morpho foi perfurado por um país que domina a tecnologia de exploração em águas profundas. Em 1937, a pergunta era se a riqueza existia.
No Amapá de 2026, a Petrobras já deu uma primeira resposta: há petróleo. Ainda falta saber quanto e se poderá ser produzido comercialmente. O poço de Lobato era ficção a serviço de um projeto de país. O Morpho já faz parte da política real, e de uma das principais bandeiras de Davi Alcolumbre.
Quase nove décadas depois, o petróleo volta a ser apresentado como promessa de desenvolvimento e argumento de soberania. Em O Poço do Visconde, encontrar petróleo era o desfecho. Na Margem Equatorial, é apenas o começo.
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