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Renovação de 2/3 do Senado torna perigosa a exposição política do STF

Ano eleitoral amplia o custo institucional de o Supremo se envolver em polêmicas.

29/1/2026
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O Supremo Tribunal Federal atravessa um terreno especialmente sensível ao assumir protagonismo em uma investigação de forte repercussão política e econômica justamente em um ano eleitoral que renovará dois terços do Senado. A condução do caso envolvendo o Banco Master expõe a Corte a um desgaste institucional previsível e, sobretudo, evitável.

Não se trata de questionar a competência constitucional do STF para supervisionar investigações que envolvam autoridades com foro privilegiado. O problema está no contexto. Em 2026, os eleitores escolherão a maior parte dos senadores da República, parlamentares que, por desenho constitucional, detêm o poder de processar e julgar ministros do Supremo em pedidos de impeachment. Ignorar essa variável política é, no mínimo, ingenuidade institucional.

O caso Banco Master reúne todos os elementos que amplificam tensão: cifras bilionárias, banco estatal, suspeitas de fraude, um empresário preso e solto, decisões judiciais atípicas, divergências públicas entre investigadores, desconforto dentro do próprio STF e, mais recentemente, questionamentos sobre vínculos pessoais envolvendo o relator do inquérito. Mesmo que nenhuma irregularidade venha a ser comprovada, o custo político já está em curso.

Ao centralizar decisões sensíveis - como a imposição de sigilo amplo, a tentativa inicial de acareação antes de depoimentos formais, a retenção de provas no Supremo e a escolha direta de peritos da Polícia Federal -, o tribunal deixa o campo estritamente jurídico e passa a alimentar uma narrativa de protagonismo excessivo. Em ano eleitoral, narrativas ganham vida própria.

Com Senado em renovação, STF enfrenta cenário institucional sensível.Rovena Rosa/Agência Brasil | Arte Congresso em Foco

O desgaste não fica restrito aos autos. O STF voltou a ocupar o centro do debate político de rua. Na recente manifestação "Acorda Brasil", liderada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), cartazes e palavras de ordem direcionadas à Corte mostraram que o tribunal se tornou, mais uma vez, personagem central da polarização.

A defesa pública do ministro relator por colegas e pelo presidente do STF reforça outro problema: a percepção de fechamento institucional. Embora a Corte tenha razão ao rejeitar pressões políticas ou midiáticas, o excesso de respostas corporativas tende a aprofundar a desconfiança, especialmente quando o debate já migrou do jurídico para o político.

O risco maior não está apenas no presente, mas no pós-eleição. Um Senado profundamente renovado pode reinterpretar sua relação com o Judiciário à luz do humor das urnas. A história recente mostra que o discurso de contenção do Supremo ganha força quando encontra ambiente político favorável. Quanto maior o desgaste acumulado agora, menor a margem de proteção institucional depois.

Em democracias maduras, Cortes constitucionais sobrevivem menos pelo uso frequente de sua autoridade formal e mais pela preservação de seu capital simbólico. Em um ano de eleição e de redefinição do Senado, colocar esse capital em jogo por meio de envolvimento direto em controvérsias políticas complexas parece uma aposta de alto risco - e de retorno institucional duvidoso.

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