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Veja a repercussão da mídia estrangeira à ação dos EUA contra facções

Cobertura internacional relaciona decisão de Washington sobre PCC e CV à disputa eleitoral brasileira, à tensão entre Lula e Trump e à ofensiva americana contra o narcotráfico na América Latina.

29/5/2026
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A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas repercutiu na imprensa internacional como um tema que vai além da segurança pública. Anunciada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a medida fará as facções serem tratadas como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir de 5 de junho.

Até lá, PCC e CV já constam como Terroristas Globais Especialmente Designados, categoria que permite sanções e restrições financeiras. A cobertura estrangeira destacou quatro pontos principais: a pressão da família Bolsonaro em Washington, a resistência do governo Lula, o risco de interferência dos EUA em assuntos internos do Brasil e os possíveis efeitos da medida sobre bancos e empresas.

Veja como alguns dos principais veículos do mundo abordaram o assunto:

The New York Times: "lobby agressivo" dos Bolsonaro em Washington

Estados Unidos — O The New York Times deu centralidade à atuação da família Bolsonaro. A manchete do jornal foi: "Após nova pressão dos Bolsonaros, EUA classificam gangues brasileiras como grupos terroristas".

Segundo o NYT, a decisão ocorreu após "meses de lobby agressivo" dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro junto ao governo Trump. A reportagem destacou que a medida saiu poucos dias depois de dois filhos de Bolsonaro visitarem Trump na Casa Branca, entre eles Flávio Bolsonaro, que pretende disputar a Presidência contra Lula.

O jornal avaliou que a decisão pode reacender tensões entre Brasil e Estados Unidos e alimentar suspeitas de interferência na eleição brasileira. O NYT também apontou risco para o setor bancário, já que instituições brasileiras poderiam ficar expostas a sanções caso tenham feito negócios, ainda que indiretamente, com pessoas ou empresas ligadas às facções.

O New York Times destacou a pressão da família Bolsonaro.Reprodução

Financial Times: sanções, bancos e tensão diplomática

Reino Unido — O Financial Times deu à decisão uma leitura política e econômica. Para o jornal britânico, a medida pode elevar o risco jurídico de multinacionais e bancos com negócios no Brasil, já que a legislação americana pune o apoio material a organizações classificadas como terroristas.

O FT também destacou o impacto eleitoral do anúncio. Segundo a reportagem, embora Washington já estudasse a mudança havia pelo menos um ano, o momento escolhido dá impulso a Flávio Bolsonaro, descrito pelo jornal como um político de discurso duro na área de segurança pública.

Associated Press: eleição, soberania e interferência

Estados Unidos — A Associated Press (AP) destacou o potencial de interferência da decisão na política brasileira. A agência lembrou que o anúncio ocorreu 24 horas depois da visita de Flávio Bolsonaro a Washington e registrou a reação de Celso Amorim, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais.

Para Amorim, a cooperação internacional contra lavagem de dinheiro e tráfico de armas é bem-vinda, mas qualquer pretexto para intervenção é inaceitável. O enfoque da AP aproxima a medida americana da disputa eleitoral brasileira e da reação do governo Lula em defesa da soberania nacional.

Guardian: revés para Lula e impulso a Flávio

Reino Unido — O Guardian descreveu o anúncio como revés para Lula e ganho político para Flávio Bolsonaro. O jornal afirmou que a decisão é vista no Brasil como derrota para o presidente, que se opôs à medida, e como reforço ao adversário bolsonarista.

A reportagem também diferenciou as duas facções. O Comando Vermelho foi apresentado como mais descentralizado e violento, enquanto o PCC foi descrito como organização mais empresarial e hierarquizada.

O britânico The Guardian.Reprodução

El País: impacto eleitoral e risco de intervenção

Espanha — O El País fez uma das leituras mais políticas da decisão. O jornal afirmou que a medida sacode a disputa presidencial brasileira ao ser anunciada quatro meses antes da eleição e depois de Flávio Bolsonaro pedir a Trump a inclusão das facções na lista de organizações terroristas.

O veículo destacou o temor de Brasília de que a classificação abra espaço para uma intervenção militar dos Estados Unidos ou para sanções a bancos que tenham feito negócios, ainda que sem saber, com integrantes das facções.

Al Jazeera: ofensiva de Trump na América Latina

Catar — A Al Jazeera situou a decisão na política de Donald Trump para a América Latina. A emissora destacou críticas de que classificar redes criminosas como terroristas pode servir de pretexto para ampliar a influência militar dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, em uma releitura da antiga Doutrina Monroe.

O veículo também lembrou que Trump já havia tomado decisões favoráveis à família Bolsonaro, como o aumento de tarifas contra produtos brasileiros no ano anterior.

Al Jazeera também destacou a decisão do governo Trump em relação ao Brasil.Reprodução

France24: divisão política regional

França — A France24 tratou o caso como parte de uma divisão regional. Segundo a emissora, governos de centro-esquerda, como Brasil e México, resistem à classificação de facções criminosas como terroristas, enquanto governos de direita tendem a apoiar medidas mais duras.

A rede avaliou que a decisão afronta Lula e pode dificultar a reaproximação com Washington, em um momento em que Brasil e Estados Unidos tentavam recompor relações.

Diário do Povo (People's Daily): soberania e não interferência

China — A repercussão chinesa passou pela defesa da soberania. O jornal do Partido Comunista destacou a declaração da porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning. Ela afirmou que Pequim "tomou conhecimento dos relatos" sobre a decisão dos EUA e defendeu a não interferência em assuntos internos de outros países.

A fala se aproxima da posição brasileira e ocorre às vésperas da visita oficial do chanceler Mauro Vieira à China.

Deutsche Welle: crime organizado internacionalizado

Alemanha — A Deutsche Welle adotou abordagem explicativa. O veículo contextualizou a origem prisional do PCC e do CV, sua expansão territorial, a atuação em mercados ilícitos e as conexões internacionais das facções.

Nesse recorte, o caso aparece menos como disputa eleitoral e mais como expressão da internacionalização do crime organizado brasileiro.

La Nación e Ámbito: lobby de Flávio e leitura eleitoral

Argentina — A cobertura argentina concentrou-se no papel de Flávio Bolsonaro e nos efeitos eleitorais da aproximação com Trump. O La Nación destacou que o senador pediu aos EUA a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas.

O Ámbito seguiu linha semelhante e interpretou a viagem de Flávio e Eduardo Bolsonaro como tentativa de obter apoio internacional para a direita brasileira.

Agências como AFP, Ansa e Reuters registraram a decisão de forma factual, destacando a justificativa dos EUA — violência, expansão internacional e redes ilícitas de PCC e CV — e a oposição de Brasília ao enquadramento das facções como organizações terroristas.

Decisão entrou na disputa política

A leitura comum entre os veículos é que a decisão americana não se limita ao combate ao crime organizado. A classificação fortalece o discurso de Flávio Bolsonaro, pressiona Lula em um tema sensível para o eleitorado e dá ao governo brasileiro o argumento da defesa da soberania nacional. Com a decisão do governo Trump, as duas maiores facções criminosas do país, PCC e CV, passaram ao centro de uma disputa diplomática, jurídica e eleitoral entre Brasília e Washington.

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