A ex-ministra Dorothea Werneck visitou a redação do Congresso em Foco nesta quarta-feira (17), dia em que lança em Brasília o livro Aprendendo e vivendo: uma biografia contada por histórias e versos. Organizada pelo professor Ricardo Sastre e publicada pela editora Marcavisual, a obra reúne memórias, episódios de bastidores e reflexões de uma das personagens mais relevantes da administração pública brasileira nas últimas décadas.
Economista e servidora pública, Dorothea foi a primeira mulher a ocupar os cargos de ministra do Trabalho (1989-1990) e de ministra da Indústria, Comércio e Turismo (1995-1996). Também foi secretária de Estado em Minas Gerais e presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), entre 1999 e 2002.
O lançamento será realizado a partir das 18h, na sede da ApexBrasil, na Asa Sul, em Brasília. A escolha do local tem valor simbólico: Dorothea participou da estruturação do modelo da agência no fim dos anos 1990 e esteve à frente da instituição em um período decisivo para a consolidação de políticas de promoção comercial, internacionalização de empresas brasileiras e atração de investimentos.
Na visita à redação, Dorothea concedeu uma entrevista exclusiva ao Congresso em Foco, que será publicada em breve, na qual conta bastidores de sua experiência política e administrativa e sua visão sobre a transformação do país nas últimas décadas.
Em um período em que a presença feminina era rara nos círculos de poder, Dorothea não apenas ocupou cargos estratégicos, mas exerceu liderança em áreas sensíveis do Estado. Sua atuação envolveu decisões orçamentárias, diálogo com diferentes setores da sociedade e enfrentamento de resistências institucionais. Ela foi a segunda mulher a comandar um ministério no país. Antes dela, apenas Esther de Figueiredo Ferraz havia chefiado uma pasta, ao assumir o Ministério da Educação e Cultura no governo João Figueiredo, entre 1982 e 1985.
Bastidores do poder
Em Aprendendo e vivendo, a trajetória pública se mistura à dimensão pessoal da autora. O livro combina relatos de bastidores do poder, episódios pouco conhecidos da política brasileira, versos, decisões de governo, negociações complexas e lembranças do lado humano de quem ocupou cargos públicos em momentos de grande pressão.
Entre os episódios destacados está o encontro entre Dorothea e o então presidente Fernando Henrique Cardoso, quando ele foi à casa da ministra da Indústria, Comércio e Turismo para se desculpar por retirá-la do cargo em meio a uma reacomodação política. Dorothea havia tomado conhecimento da demissão horas antes, pela imprensa. O episódio também é descrito por FHC em seu livro de memórias. Anos depois, o ex-presidente reconheceria que a demissão da ministra foi um erro de sua gestão.
Memória e legado
Mais do que uma obra de memórias, o livro propõe uma conversa sobre administração pública, desenvolvimento econômico e participação das mulheres nas decisões do Estado. Ao reconstituir mais de cinco décadas de carreira, Dorothea recupera experiências que ajudam a compreender os bastidores de políticas públicas que marcaram diferentes governos, os desafios da gestão pública e os limites impostos às mulheres em espaços de poder.
Quando assumiu o Ministério do Trabalho, em 1989, Dorothea foi alvo de um comentário machista do então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Mário Amato. Ele disse que a nova ministra "era muito inteligente, apesar de ser mulher". A frase inspirou o título do primeiro livro escrito por ela, Apesar de ser mulher, publicado em 1990, no qual narrou experiências no cenário político da época.
Mineira de Ponte Nova, Dorothea é economista e mestre pelo Boston College, nos Estados Unidos, onde também cursou doutorado. Foi servidora do Ipea de 1975 a 2003. Além de ministra nos governos José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, foi secretária-executiva de Marcílio Marques Moreira, no Ministério da Economia, durante o governo Collor, e secretária de Economia do Ministério da Fazenda na gestão Itamar Franco.