Em discurso de quase uma hora, o presidente Lula prometeu um "Lulinha porreta" para um eventual novo governo e afirmou que pretende promover um "salto de qualidade" no país, com foco na defesa da soberania nacional, no fortalecimento da educação e da indústria de Defesa, na ampliação de programas sociais e no enfrentamento à extrema direita.
Ao apresentar as prioridades da campanha, Lula afirmou que considera encerrada a etapa de reconstrução do país após seu retorno à Presidência e defendeu que um eventual quarto mandato seja voltado à realização de projetos estruturantes. As declarações foram dadas neste domingo (2), em São Paulo, durante a convenção nacional do PT que oficializou sua candidatura à reeleição para um quarto mandato no Palácio do Planalto.
"Agora que nós estamos com o barco garantido, agora é a hora de dar um salto de qualidade", afirmou. "Nesse quarto mandato vocês vão ver: eu não quero o Lulinha 'paz e amor', eu quero o Lulinha 'porreta'. Quero um Lulinha que vai fazer o que a gente ainda não fez."
Segundo o presidente, as prioridades incluem educação, ciência, inovação, defesa nacional e a quitação do que classificou como uma "dívida com os idosos". Lula afirmou ainda que pretende visar mais do que programas sociais. "Não quero ser o presidente do Bolsa Família", declarou. O petista prometeu "brigar" com o Legislativo contra perda de prerrogativas do Executivo, sobretudo na definição orçamentária, por meio das emendas parlamentares.
A "sétima Copa"
Em tom descontraído, Lula recorreu ao futebol para falar de sua trajetória eleitoral. O presidente lembrou que disputa sua sétima eleição presidencial e comparou o feito ao número de Copas do Mundo disputadas por Lionel Messi e Cristiano Ronaldo.
"Se eu ganhar essa são quatro Copas. Eu não vou ter chance de tentar o penta", brincou.
Lula também comparou a preparação da campanha à montagem da seleção brasileira e afirmou que pretende entrar na disputa com um time forte para convencer o eleitorado.
Durante a convenção, o petista reclamou ainda das restrições impostas pela legislação eleitoral. Segundo ele, gostaria de pedir votos desde já, mas a propaganda eleitoral só será permitida a partir de 16 de agosto.
Defesa da soberania
A soberania nacional foi um dos temas mais recorrentes do discurso. Em meio ao debate internacional sobre minerais estratégicos e ao aumento das tensões comerciais envolvendo os Estados Unidos, Lula voltou a defender que o Brasil preserve o controle sobre suas riquezas naturais e não aceite interferências externas.
O principal exemplo citado pelo presidente foram as terras raras, conjunto de minerais essenciais para diversas cadeias industriais e tecnológicas.
"Tem muita gente metendo o dedo no nosso nariz. Essas terras raras, nem chinês, nem americano, nem francês vão meter o dedo nas nossas terras raras", declarou.
Segundo Lula, cabe ao Estado brasileiro decidir como explorar esses recursos e garantir que eles contribuam para o desenvolvimento nacional.
Defesa e tecnologia
O presidente associou a proteção das riquezas brasileiras ao fortalecimento da capacidade de Defesa do país. Para ele, o tamanho do território, das fronteiras e do patrimônio ambiental e mineral exige investimentos em tecnologia e na indústria nacional de defesa.
"Eu quero estar preparado para ninguém invadir esse país para levar esse presidente, como eles invadiram a Venezuela. Eu quero estar preparado para a paz, não para a guerra. Eu quero estar preparado para ninguém ousar se fazer de besta com a gente", afirmou.
Lula defendeu o uso de drones para monitorar os mais de 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres do Brasil e voltou a afirmar que pretende investir na indústria nacional de Defesa.
"Como vamos controlar 16 mil quilômetros de fronteira a pé? Se não tiver drone, você não controla a fronteira. Vou levar a sério essa questão da defesa no meu quarto mandato para garantir que ninguém meta o dedo em nossas terras raras", disse.
Educação como prioridade
Outro eixo da campanha será a educação. Lula afirmou que pretende elaborar um plano de dez anos para resolver problemas estruturais do ensino brasileiro, com foco na pesquisa científica, matemática, inteligência artificial e formação de profissionais para áreas estratégicas.
O presidente destacou o programa Pé-de-Meia, criado durante seu governo, e afirmou que a iniciativa já beneficia mais de 7 milhões de estudantes.
"Educação não é gasto, educação é investimento", afirmou ao comparar o custo de um estudante de instituto federal ao de um preso no sistema penitenciário.
Segundo Lula, investir na permanência dos jovens na escola representa uma política de segurança pública e de desenvolvimento econômico para o país.
Legado e direitos trabalhistas
Ao defender a continuidade de seu projeto político, Lula fez um resgate histórico das políticas de inclusão social no Brasil. Segundo ele, houve dois grandes momentos de transformação: o primeiro durante o governo de Getúlio Vargas, com a criação do salário mínimo e da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), e o segundo durante os governos petistas.
O presidente rebateu críticas à legislação trabalhista e defendeu o fortalecimento dos sindicatos.
"Não podemos permitir que a essência da mentira e o enfraquecimento do trabalhador vençam a nossa capacidade de organização", afirmou.
Democracia e eleições
Lula também voltou a defender a democracia como instrumento de transformação política. Ao recordar a criação do Foro de São Paulo, em 1990, afirmou que o objetivo era convencer partidos e movimentos de esquerda da América Latina de que as mudanças deveriam ocorrer pelas urnas.
"Quando eu criei o Foro de São Paulo em 1990, eu achei que a gente podia educar a esquerda da América Latina. Para tentar dizer para toda a esquerda que a melhor via não era da luta armada, era da organização do povo, da eleição direta. E assim ganhamos vários países da América Latina, pela democracia, sem matar e sem morrer ninguém", afirmou.
Segundo o presidente, o PT conseguiu reunir diferentes correntes da esquerda em torno de um projeto comum, preservando divergências ideológicas, mas respeitando as decisões coletivas da legenda.
Enfrentamento à extrema direita
Na reta final do discurso, Lula adotou o tom mais combativo da convenção e convocou a militância para a campanha eleitoral. O presidente afirmou que a disputa de 2026 será marcada pelo confronto entre o legado de seus governos e o que classificou como a "essência da mentira" utilizada pela extrema direita.
"O dado concreto é que nós não temos o direito de permitir que a extrema direita volte a governar esse país. Nós não podemos permitir que a essência da mentira utilizada pela inteligência artificial venha ganhar uma eleição neste país", afirmou.
Para Lula, a principal credencial de sua candidatura é o histórico de realizações de seus governos.
"Somos a única candidatura que não tem que contar uma mentira, não temos que inventar nada para dizer ao povo. O que motiva um governo ganhar as eleições é se o seu legado for merecedor de confiança e de respeito; quem fez pode prometer mais", concluiu.