O ex-presidente do PT Ricardo Berzoini vê a reta final da eleição brasileira cercada por um ambiente internacional que, na avaliação dele, merece atenção. Ex-ministro de Lula e Dilma, ele aponta o trumpismo e o uso das plataformas digitais como fatores capazes de influenciar a disputa e admite até a possibilidade de contestação do resultado das urnas. Ressalva, porém, que não identifica um movimento desse tipo em curso e trata esse cenário como uma hipótese, não como tendência.
A preocupação começa pela própria disputa nas redes. Na avaliação de Berzoini, a direita aprendeu mais rapidamente que a esquerda a explorar politicamente plataformas digitais e aplicativos de mensagens. "Eu diria que a oposição demonstrou maior competência para isso", afirmou. Como exemplo, citou grupos criados originalmente em torno de outros assuntos e que, perto das eleições, passam a ser usados para a circulação de conteúdo político.
Trumpismo e soberania
Ao ampliar o raciocínio para o cenário internacional, Berzoini mencionou Donald Trump, o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, e outros nomes ligados ao movimento político americano. Segundo ele, esse campo representa uma visão que relativiza a soberania de outros países.
É nesse contexto que o ex-ministro diz ser possível imaginar reflexos também sobre a eleição brasileira. "Você pode imaginar que eles vão, talvez via big techs, fazer um movimento de distorção na reta final", afirmou.
Berzoini também admitiu a possibilidade de movimentos para não reconhecer o resultado das eleições. Logo depois, fez questão de dimensionar o alerta. "Isso pode acontecer e certamente vai gerar um impasse político da maior relevância se ocorrer. Agora, eu prefiro acreditar que isso é uma possibilidade, não uma tendência", disse.
Defesa do sistema eleitoral
O ex-presidente do PT contrapôs esse risco à consolidação do sistema eleitoral brasileiro. Citou as urnas eletrônicas, o processo de apuração e as regras eleitorais e lembrou que o país chega à décima eleição presidencial consecutiva desde a redemocratização.
"É o mais longo período democrático da história do Brasil", afirmou. Para Berzoini, conceitos como democracia e soberania precisam ganhar significado concreto para a população, em vez de permanecer apenas como slogans.
A questão da soberania também aparece quando ele fala da relação entre Lula e Trump. Berzoini reconhece a dificuldade da interlocução com o presidente americano, mas avalia que Lula procura combinar abertura ao diálogo com resistência a interferências externas.
"É difícil conduzir a relação com o Trump, mas eu creio que o presidente mostra, de um lado, que ele está aberto ao diálogo; de outro lado, que ele não aceita interferência", afirmou.