O PL pretende oficializar nesta quarta-feira (4) a candidatura do senador Rogério Marinho (RN), apoiado pela família Bolsonaro, à presidência do Senado. A iniciativa amplia a disputa com o atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), que busca a recondução com apoio de Lula (PT). A senadora Tereza Cristina (PP-MS) também articula uma candidatura, apesar do apoio anunciado pela direção de seu partido a Alcolumbre. A eleição será em 1º de fevereiro de 2027.
A disputa expõe divisões na oposição e no Centrão, em um Senado no qual o PL terá a maior bancada, com 29 dos 81 parlamentares. Além do comando da Casa e das comissões, está em jogo a relação com o STF, especialmente a tramitação dos pedidos de impeachment de ministros da Corte, uma das principais bandeiras da oposição.
Marinho deve oficializar candidatura nesta quarta
Líder da oposição e coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Marinho recebeu apoio público do senador e de seu irmão Carlos Bolsonaro (PL-SC), eleito em outubro.
Na sexta-feira (30), durante uma transmissão dos Estados Unidos, Flávio anunciou que indicaria Marinho para presidir o Senado. "Nossa trincheira será o Congresso, especialmente o Senado", afirmou. No dia seguinte, após visitar Jair Bolsonaro, Carlos reforçou a indicação: "Nosso candidato é o Rogério Marinho".
A reunião do PL nesta quarta terá participação prevista de representantes do Novo, que contará com três senadores. Marinho também busca apoios no PP, União Brasil, Republicanos e PSDB. Parte do PL, porém, considera negociar cargos na Mesa Diretora e nas comissões com Alcolumbre, em vez de disputar a presidência.
Marinho defende mudanças nas regras para o impeachment de ministros do STF. Em setembro, apresentou um projeto para obrigar o presidente do Senado a decidir sobre os pedidos em até 30 dias úteis, com mecanismos para permitir o avanço das denúncias sem depender exclusivamente da presidência da Casa.
O senador também quer que parlamentares da direita anunciem publicamente seus votos, apesar do caráter secreto da eleição, para reduzir o risco de dissidências.
Alcolumbre tem apoio de Lula e acena à oposição
Alcolumbre recebeu em 27 de outubro o apoio formal da federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, além de manifestações favoráveis de PT, MDB e PSD. O presidente Lula assegurou apoio à sua recondução em reunião no Palácio da Alvorada, no dia 26, após a vitória no segundo turno presidencial.
A reaproximação ocorreu depois de meses de atritos. Alcolumbre se opôs à indicação de Jorge Messias ao STF, defendendo Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Messias acabou rejeitado pelo Senado em abril, por 42 votos a 34. O presidente da Casa também foi criticado por retardar a tramitação das PECs do fim da escala 6x1 e da Segurança Pública, encaminhadas às comissões após a retomada do diálogo com Lula, em agosto.
Apesar do apoio governista, Alcolumbre tenta conquistar votos bolsonaristas. Segundo a Folha de S.Paulo, aliados do senador discutem negociar um indulto a Jair Bolsonaro com Lula ou articular uma anistia no Congresso. A iniciativa buscaria reduzir as tensões políticas e a pressão pelo impeachment de ministros do STF, mas não há acordo fechado nem compromisso público do governo.
O principal obstáculo é a resistência de Alcolumbre à abertura de processos contra ministros do Supremo, especialmente Alexandre de Moraes. Parte da oposição rejeita trocar apoio à sua recondução por uma negociação sobre Bolsonaro e defende eleger um presidente disposto a dar andamento às denúncias.
Tereza Cristina aposta nas mulheres e no diálogo
Ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro e líder do PP no Senado, Tereza Cristina busca apoio de parlamentares que resistem tanto à recondução de Alcolumbre quanto à candidatura de Marinho. Ela aposta na possibilidade de se tornar a primeira mulher a presidir a Casa.
"Eu sempre disse que gostaria de ser a primeira mulher presidente do Senado", afirmou em entrevista à GloboNews, em outubro. A bancada feminina deverá chegar a 19 integrantes em fevereiro, segundo a Agência Senado.
Após a direção da União Progressista anunciar apoio a Alcolumbre, Tereza divulgou nota, em 27 de outubro, defendendo o "voto livre, soberano e secreto" dos 81 senadores. Afirmou também que pretende ouvir especialmente as 12 mulheres eleitas em outubro.
A ex-ministra procura atrair setores da oposição e do Centrão que consideram seu perfil mais conciliador que o de Marinho, identificado com a ala mais combativa do bolsonarismo. Seus aliados avaliam que ela teria maior facilidade para dialogar com diferentes correntes políticas, inclusive governistas.
Tereza mantém uma relação próxima com a família Bolsonaro. Em julho, aceitou o convite de Flávio para ser sua candidata a vice-presidente, mas a composição foi inviabilizada pela decisão do PP de permanecer neutro na eleição.
Agora, ela e Marinho disputam parte dos mesmos apoios. Os dois conversaram na semana passada sobre uma candidatura única contra Alcolumbre, mas não chegaram a um acordo. Tereza também admite discutir o impeachment de ministros do STF, mas defende uma agenda mais ampla para o Senado, incluindo reformas econômicas.
PL pode reunir 37 senadores; Alcolumbre reivindica até 48
Segundo projeção da Agência Senado, o PL terá 29 senadores a partir de fevereiro, seguido por PT (10), MDB (8), PP (6), União Brasil e Republicanos (5 cada), PSD e PSB (4 cada), Novo (3), PSDB e Podemos (2 cada), PDT e Rede (1 cada), além de um senador sem partido.
Se PL, Republicanos e Novo votarem integralmente em Marinho, o grupo reunirá 37 senadores, quatro a menos que os 41 necessários à vitória no primeiro turno. O Novo já participa das articulações, mas o Republicanos ainda não anunciou apoio formal.
Do outro lado, PT, MDB, PP, União Brasil e PSD somarão 33 cadeiras. A conta inclui partidos que anunciaram apoio a Alcolumbre ou participam de sua articulação, mas não representa compromisso individual de todos os integrantes.
Conta não fecha
Aliados de Alcolumbre e Marinho reivindicam cerca de 48 votos cada. Como as duas contagens superam, somadas, o total de senadores, há apoios sobrepostos ou ainda não consolidados. A votação secreta acrescenta incerteza às projeções.
A disputa também envolve o comando da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), responsável por analisar propostas de emenda à Constituição e indicações para tribunais superiores. O ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), eleito senador, aparece nas articulações para presidir o colegiado. A eleição definirá a presidência do Senado para o biênio 2027-2028.
A disputa pelo Senado contrasta com a da Câmara, onde Hugo Motta (Republicanos-PB) já reúne apoio de 15 partidos, que somarão 354 deputados em 2027. O grupo inclui legendas do Centrão e da esquerda, como PT, MDB, União Brasil e PP. Para se reeleger, Motta precisará de 257 votos, mas o apoio partidário não garante adesão individual na votação secreta. O PL, que terá 121 deputados, ainda não anunciou se terá candidatura própria ou se apoiará a recondução do atual presidente.