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Segurança digital

A batalha contra o crime digital vai começar

Lei Felca amplia deveres das plataformas e impõe resposta mais rigorosa à violência sexual infantil na internet.

Renata Abreu

Renata Abreu

25/2/2026 12:00

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A internet se tornou um dos lugares mais perigosos para crianças, e isso não é exagero. No próximo mês, entra em vigor a Lei nº 15.211/2025, conhecida como Lei Felca. Ela surge como nossa principal arma jurídica no enfrentamento da violência virtual infantil. Porque a rede que deveria ser espaço de conhecimento e liberdade transformou-se, em muitos casos, em ambiente de exposição, abuso e destruição de reputações.

A aprovação da lei representa um avanço histórico. Em 2025, o Brasil registrou quase 90 mil denúncias de crimes cibernéticos, um aumento de quase 30%. Mais de 63 mil dessas denúncias envolveram exploração e abuso sexual infantil, e 64% das notificações recebidas dizem respeito justamente a esse tipo de crime. São números que revelam uma realidade inaceitável.

Por trás dessas estatísticas há histórias concretas: adolescentes que têm suas imagens manipuladas por inteligência artificial, meninas expostas em montagens falsas, famílias que descobrem, da noite para o dia, que um algoritmo foi usado para fabricar uma mentira digital capaz de marcar uma vida inteira.

O dado é devastador porque revela algo maior: o crime não apenas cresce, ele se sofistica. Recentemente, o presidente da SaferNet, Thiago Tavares, afirmou que é possível gerar indicadores, mapear fenômenos e auxiliar as autoridades na coleta de provas e no resgate de vítimas. Mas também alertou que, mesmo com leis de proteção de dados em vigor, os criminosos se reinventam constantemente.

Essa é a engrenagem que enfrentamos. A cada nova ferramenta tecnológica surge uma nova modalidade de abuso. A cada avanço da inteligência artificial, surge uma nova forma de violação da dignidade humana. A legislação avança por etapas; o crime avança por adaptação.

A Lei Felca amplia o Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente digital e impõe obrigações claras às plataformas: verificação real de idade, controles parentais obrigatórios, restrições à publicidade direcionada, remoção de conteúdos nocivos mesmo sem ordem judicial e mecanismos para impedir que menores sejam expostos a ambientes impróprios.

Ela rompe com a lógica da omissão. Estabelece que plataformas não podem lucrar com crianças e, ao mesmo tempo, alegar neutralidade diante da violência. Mas não será suficiente para vencer essa guerra sozinha.

Lei Felca inaugura nova etapa no combate ao crime digital.

Lei Felca inaugura nova etapa no combate ao crime digital.Freepik

O crime cibernético tem tentáculos. Utiliza inteligência artificial para criar deepfakes pornográficos com rostos de adolescentes. Opera redes internacionais de exploração infantil. Esconde-se atrás de perfis falsos, criptografia e, muitas vezes, atrás da própria estrutura das big techs.

Precisamos de múltiplas frentes de combate. É fundamental que a violência sexual praticada no ambiente digital receba o mesmo rigor jurídico daquela cometida presencialmente. Precisamos classificar como hediondas as condutas violentas praticadas contra menores, sem brandura.

Também é indispensável responsabilizar as plataformas digitais. Transparência algorítmica não é luxo regulatório; é mecanismo de proteção. Se algoritmos amplificam conteúdo nocivo e falhas de moderação permitem exploração, deve haver consequência jurídica.

Precisamos construir um verdadeiro "antivírus legal": um conjunto articulado de leis que enfrente o estupro virtual, a adultização infantil, a exploração sexual digital e o uso criminoso da inteligência artificial.

A IA trouxe benefícios extraordinários, mas, nas mãos erradas, tornou-se ferramenta de escala da violência. Hoje, um criminoso pode fabricar uma imagem falsa em minutos e espalhá-la em segundos. Pode destruir uma vida antes mesmo que a vítima saiba o que aconteceu.

Não podemos permitir que a tecnologia avance mais rápido do que a proteção. A entrada em vigor da Lei Felca cria uma expectativa legítima de mudança. Mas sua eficácia dependerá de fiscalização firme, regulamentação clara e coragem política para enfrentar interesses econômicos poderosos quando necessário.

A internet não pode ser território onde o mais vulnerável paga o preço da inovação. Se o crime se moderniza todos os dias, a proteção também precisa se modernizar, ou continuaremos perdendo nossas crianças para algoritmos sem responsabilidade.

A internet nasceu para ser espaço de liberdade. Não pode se consolidar como território de caça.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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Segurança digital direitos da infância proteção de crianças e adolescentes

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