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Educação e inclusão
8/4/2026 11:40
Acompanho e estudo o tema do autismo há cerca de 25 anos. Uma das perguntas que me acompanha é se é realmente possível explicar o que é o autismo a alguém que nunca conviveu, de fato, com uma pessoa autista. Outra reflexão constante diz respeito às mudanças no próprio diagnóstico ao longo do tempo. Há vinte anos, muitas das crianças e adultos hoje diagnosticados como autistas provavelmente não estariam incluídos nessa categoria.
Se antes o diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade aparecia como o mais frequente nas escolas, atualmente o autismo tem ocupado esse lugar nos contextos educacionais com os quais tenho contato.
Lembro da primeira criança autista com quem trabalhei, uma menina que permaneceu conosco por anos, em uma das escolas nas quais atuei por mais tempo. Foi a partir dessa convivência que comecei a compreender, de forma mais concreta, o que significava aquela condição. Justamente pela referência do trabalho realizado com ela, outras crianças chegaram com diagnóstico de autismo e com padrões de comportamento semelhantes.
Essas crianças apresentavam grande dificuldade de responder ao diálogo e aos estímulos sociais. A comunicação exigia formas muito específicas, mais diretas, com contato visual e intencionalidade bastante evidentes. Demonstravam menor compreensão dos códigos sociais, o que as expunha, por vezes, a situações de risco. Nem sempre permaneciam nos espaços propostos para atividades, tinham dificuldade em seguir orientações convencionais e podiam reagir de forma muito reativa a orientações mais rígidas.
Ao mesmo tempo, é justamente aí que reside uma das maiores complexidades: descrever o autismo a partir das dificuldades pode produzir distorções. Pessoas autistas podem, sim, se comunicar, aprender, se alfabetizar e estabelecer relações, ainda que em outros tempos, com outras formas e limites. Além disso, hoje o diagnóstico abrange também sujeitos que realizam plenamente diversas atividades, muitas vezes sem diferenças evidentes em relação a pessoas não autistas. O que torna este debate ainda mais complexo.
Essa amplitude coloca um desafio importante: como diferenciar, de fato, o que é o autismo e o que são variações legítimas do desenvolvimento humano? Até que ponto crianças que fogem de um padrão normativo, especialmente aquelas com mais dificuldades nas relações sociais e na construção de vínculos, estão sendo compreendidas em sua singularidade ou simplesmente enquadradas em categorias diagnósticas?
Nesse sentido, precisamos respeitar as necessidades específicas das pessoas autistas e refletir também sobre nossa própria dificuldade em lidar com as diferenças. Em muitos casos, o diagnóstico parece funcionar menos como ferramenta de compreensão e mais como tentativa de controle e padronização do outro.
Nesse cenário, a escola ocupa um lugar decisivo. Mais do que classificar, cabe a ela construir condições reais de escuta, acolhimento e desenvolvimento para todas as crianças, com ou sem diagnóstico. Isso implica reconhecer limites, sim, mas também potencialidades, sem reduzir sujeitos a categorias.
Falar de autismo, portanto, é também falar sobre o modo como nossa sociedade enxerga a infância, a diversidade e a própria ideia de normalidade. Uta Frith, psicóloga do desenvolvimento de origem germano-britânica e pesquisadora do tema, afirma que não acredita mais que o autismo possa ser compreendido como um espectro nos termos atuais. Segundo ela, o conceito se ampliou tanto que se tornou excessivamente abrangente, a ponto de se tornar pouco preciso. Incluir origens e necessidades muito diferentes sob o mesmo diagnóstico pode, nesse sentido, ser um desserviço. Ela mesma reconhece ter sido levada a essa compreensão ao longo dos anos e destaca que o autismo ainda não possui um biomarcador, genético ou cerebral.
Atualmente, a Organização Mundial da Saúde define o autismo como um transtorno do espectro autista (TEA), um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por déficits na comunicação social e pela presença de interesses restritos e comportamentos repetitivos. O DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), publicado pela American Psychiatric Association, também define o autismo nesses termos, como um transtorno do espectro autista, destacando déficits persistentes na comunicação e interação social, associados a padrões restritos e repetitivos de comportamento, presentes desde o início do desenvolvimento e que causam prejuízo significativo no funcionamento cotidiano. O diagnóstico considera diferentes níveis de suporte necessários e afirma ampla variabilidade dentro do espectro.
Falar e escrever a respeito do diagnóstico e de pessoas autistas é profundamente complexo. Em primeiro lugar, é preciso respeitar quem de fato é autista e tem direito ao diagnóstico e ao tratamento necessário para seu desenvolvimento e inclusão social, dentro e fora das escolas. Entretanto, diagnosticar como autistas crianças e pessoas que não são autistas prejudica tanto aquelas que realmente necessitam de acompanhamento adequado, como aquelas que passam a ser estigmatizadas e a compreender o tema de forma distorcida.
A médica e professora aposentada da UNICAMP, Maria Aparecida Moysés, pioneira nas pesquisas sobre o tema, aponta a existência de uma cultura do diagnóstico, na qual há uma tendência, por parte de profissionais e da sociedade, de recorrer a categorias diagnósticas como forma de lidar com o outro, com a diferença, como se fosse necessário catalogar todas as formas de existência para então saber como se relacionar com elas.
Ela também explica que, ao longo do tempo, diversos ajustes foram feitos no diagnóstico de autismo, ampliando progressivamente quem passa a ser considerado como autista. Ao transformar o autismo em um espectro cada vez mais abrangente, cria-se um campo diagnóstico mais aberto, no qual os limites se tornam mais amplos e menos claros. Com isso, aumenta significativamente o número de pessoas enquadradas nessa categoria, o que contribui para a percepção de uma "epidemia" de diagnósticos. Nesse contexto, muitas famílias acabam sendo capturadas por uma lógica que se apresenta como científica, mas que frequentemente opera como um mercado de diagnósticos e tratamentos, fomentando mais uma cultura de consumo do que, de fato, uma cultura inclusiva.
Diante desse cenário, o desafio que se coloca não é negar o autismo, mas recolocar o foco na compreensão do sujeito e na singularidade de cada criança. Mais do que multiplicar rótulos, talvez seja preciso qualificar a escuta, para no lugar de ampliar diagnósticos, ampliar as condições reais de inclusão. Isso implica investir em escolas e profissionais mais preparados, dentro de uma cultura que reconheça a diferença não como desvio a ser corrigido, mas como dimensão constitutiva do ser.
Se não fizermos esse deslocamento, corremos o risco de substituir o desafio ético da convivência com o outro por soluções rápidas, enlatadas, classificatórias e, muitas vezes, orientadas por interesses que pouco têm a ver com o cuidado. Nesse processo, tanto as pessoas autistas quanto aquelas que não são acabam sendo prejudicadas.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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