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Trabalho
16/4/2026 11:00
Em meio à rotina intensa do comércio e do setor de serviços, muitas trabalhadoras brasileiras enfrentam um dilema silencioso: cumprir suas jornadas ou cuidar dos filhos com transtorno do espectro autista (TEA). O que deveria ser um direito básico — garantir o cuidado — tem se transformado em motivo de tensão, constrangimento e até risco de perda do emprego.
Relatos cada vez mais frequentes mostram mulheres sendo impedidas de sair do trabalho para levar os filhos a terapias, consultas ou lidar com crises. Em alguns casos, a "solução" encontrada por empregadores tem sido forçar férias ou criar situações que empurram essas trabalhadoras para o limite, evitando uma demissão direta, mas também negando condições dignas de permanência no emprego.
Essa realidade escancara um problema estrutural. O Brasil já reconhece, por lei, que pessoas com autismo são consideradas pessoas com deficiência, o que garante uma série de direitos e proteção contra discriminação. Ainda assim, no dia a dia das relações de trabalho, especialmente no setor privado, há uma lacuna clara: falta regulamentação efetiva que assegure às mães trabalhadoras condições reais de conciliar emprego e cuidado.
Os números mostram que essa não é uma situação isolada. O Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo no Brasil. Ao mesmo tempo, dados do Ipea indicam que as mulheres dedicam, em média, quase o dobro do tempo que os homens ao trabalho doméstico e de cuidados. Ou seja, quando o sistema falha, são elas que absorvem o impacto — física, emocional e financeiramente.
A Justiça do Trabalho já começa a reconhecer essa desigualdade. Decisões recentes do Tribunal Superior do Trabalho têm garantido redução de jornada, sem redução salarial, em casos de mães com filhos autistas, com base na proteção à infância, à maternidade e à pessoa com deficiência. Mas essas decisões ainda são pontuais e não alcançam a maioria das trabalhadoras, especialmente aquelas em empregos mais precarizados.
É nesse cenário que o papel dos sindicatos se torna essencial.
A negociação coletiva é hoje uma das ferramentas mais concretas para garantir proteção imediata a essas trabalhadoras. É por meio dela que podem ser estabelecidas regras claras para flexibilização de jornada, possibilidade de ajuste de horário, abono de faltas justificadas, criação de protocolos para situações emergenciais e combate à discriminação no ambiente de trabalho.
Mais do que isso, os sindicatos têm um papel político fundamental: dar visibilidade a uma realidade que ainda é tratada como problema individual, quando, na verdade, é uma questão social. O cuidado não pode continuar sendo responsabilidade exclusiva das famílias — e, dentro delas, das mulheres.
Quando uma trabalhadora precisa escolher entre o emprego e o filho, não estamos diante de um conflito pessoal, mas de uma falha coletiva. Falha das empresas em não adotarem práticas inclusivas. Falha do Estado em não garantir proteção suficiente. E falha de uma cultura que ainda não reconhece o cuidado como parte da vida produtiva.
Defender essas trabalhadoras é defender o direito ao trabalho digno, mas também o direito de cuidar. É reconhecer que nenhuma mãe deveria ser punida por acompanhar o tratamento do próprio filho.
Por isso, fortalecer a atuação sindical, ampliar a negociação coletiva e avançar na legislação não são apenas caminhos possíveis — são urgentes.
Porque, no fim, o que está em jogo não é apenas o emprego dessas mulheres, mas a dignidade de milhares de famílias brasileiras.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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