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Saúde

Novo rastreamento do câncer colorretal testa a capacidade do SUS

Novo rastreamento acerta ao apostar na detecção precoce, mas só terá impacto real se o SUS conseguir transformar exame em linha de cuidado.

Pedro Julien Salvarani

Pedro Julien Salvarani

25/5/2026 14:00

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O anúncio do Ministério da Saúde sobre o novo protocolo de rastreamento do câncer colorretal no SUS deve ser lido como uma decisão importante, mas também como um teste de maturidade para a gestão pública brasileira.

A escolha do teste imunoquímico fecal, conhecido como FIT, está alinhada ao que há de mais consolidado em programas populacionais de rastreamento. O exame é simples, não invasivo, tem boa aceitação, pode ser feito em larga escala e permite selecionar quem realmente precisa seguir para uma colonoscopia. Em um sistema público com recursos limitados e filas históricas para exames especializados, essa racionalidade importa.

Mas a principal pergunta não é se o teste é bom. Ele é.

A pergunta é se o SUS conseguirá organizar tudo o que vem depois.

O câncer que ainda chega tarde

O câncer colorretal já está entre os principais tumores do país. Segundo estimativas recentes do INCA, o Brasil deve registrar mais de 50 mil novos casos por ano. Em 2023, foram quase 24 mil mortes por câncer de cólon e reto.

O dado mais incômodo, porém, não está apenas na incidência ou na mortalidade. Está no tempo.

Muitos pacientes ainda chegam ao diagnóstico em fases avançadas da doença, quando o tratamento é mais complexo, mais caro e menos efetivo. Isso significa mais cirurgias extensas, mais quimioterapia, mais internações, mais sofrimento familiar e menor chance de cura.

Esse é o ponto central. O câncer colorretal tem uma característica que o torna especialmente relevante para políticas de rastreamento: muitas vezes, ele pode ser prevenido antes mesmo de surgir como câncer invasivo. Lesões precursoras, como pólipos e adenomas avançados, podem ser identificadas e removidas durante a colonoscopia.

Ou seja, rastrear bem não significa apenas encontrar câncer mais cedo. Significa evitar que parte desses cânceres exista.

A mudança não é só tecnológica

O novo protocolo anunciado prevê o uso do FIT em pessoas assintomáticas de 50 a 75 anos. O exame identifica sangue oculto nas fezes. Quando o resultado é positivo, o paciente deve ser encaminhado para colonoscopia.

À primeira vista, parece apenas a incorporação de um exame. Não é.

A mudança relevante está na tentativa de passar de uma lógica oportunística para uma lógica organizada.

No rastreamento oportunístico, o exame depende da iniciativa individual. O paciente precisa procurar atendimento, o profissional precisa lembrar de solicitar, a rede precisa conseguir absorver a demanda e o resultado precisa gerar seguimento. Esse modelo tende a beneficiar quem já acessa melhor o sistema e deixar para trás quem mais depende de busca ativa.

No rastreamento organizado, a responsabilidade muda de lugar. O sistema define quem deve ser rastreado, convoca, registra, acompanha, reconvoca, regula o exame confirmatório e monitora resultados.

Essa é a diferença entre oferecer um teste e construir uma política pública.

O FIT é uma boa escolha

A adoção do FIT faz sentido para o Brasil.

A colonoscopia é o exame confirmatório e permite diagnóstico e tratamento de lesões precursoras, mas não é realista imaginar um programa populacional baseado em colonoscopia primária para dezenas de milhões de pessoas. Faltariam salas, profissionais, sedação, preparo, logística, anatomopatológico e agenda.

O FIT funciona como filtro inteligente.

Ele permite testar uma população grande e encaminhar para colonoscopia aqueles com maior probabilidade de apresentar lesões relevantes. Isso protege a capacidade instalada, reduz exames desnecessários e aumenta a eficiência do sistema.

Também é um exame mais aceitável para a população. Em saúde pública, adesão não é detalhe. Um exame teoricamente perfeito, mas pouco aceito, pode produzir menos impacto do que uma estratégia mais simples, segura e amplamente executável.

Nesse sentido, o Ministério da Saúde acerta na direção.

O gargalo será a colonoscopia

O problema começa depois do resultado positivo.

O SUS realizou cerca de 640 mil colonoscopias em 2025. A população-alvo anunciada para o rastreamento ultrapassa 40 milhões de pessoas. Mesmo com implementação gradual e cobertura parcial, a demanda adicional por colonoscopia pode ser expressiva.

Esse é o ponto mais sensível da política.

Um FIT positivo sem colonoscopia oportuna não é rastreamento efetivo. É ansiedade organizada.

O paciente passa a saber que pode ter uma lesão relevante, mas continua preso à fila. O sistema identifica risco, mas não confirma diagnóstico. A política gera promessa, mas não entrega cuidado.

Por isso, o novo protocolo só será bem-sucedido se vier acompanhado de expansão e proteção da capacidade endoscópica. É preciso reservar vagas para FIT positivo, definir prazos máximos, organizar fluxos regionais, qualificar a regulação e medir publicamente o tempo entre teste positivo e colonoscopia.

Sem isso, o Brasil pode criar uma nova porta de entrada para um corredor já congestionado.

Adoção do FIT pelo Ministério da Saúde é avanço técnico, mas sucesso dependerá da capacidade do sistema de garantir diagnóstico e seguimento.

Adoção do FIT pelo Ministério da Saúde é avanço técnico, mas sucesso dependerá da capacidade do sistema de garantir diagnóstico e seguimento.Magnific

A Atenção Primária será decisiva

Embora a colonoscopia seja o gargalo mais visível, o sucesso do programa começa antes dela.

A Atenção Primária terá papel central. É na UBS que a população-alvo pode ser identificada, orientada e acompanhada. É pelos agentes comunitários, enfermeiros, médicos de família e equipes locais que o rastreamento pode deixar de ser uma campanha pontual e virar rotina de cuidado.

Mas isso exige método.

Será preciso definir quem será chamado, como será chamado, onde o kit será entregue, como a amostra será coletada, para onde será enviada, como o resultado será comunicado e quem será responsável por não deixar o paciente desaparecer do sistema.

Rastreamento populacional não se faz com cartaz na parede. Faz-se com lista nominal, busca ativa, sistema de informação e responsabilização por território.

Esse é um aprendizado que o Brasil já teve em outras políticas, mas ainda aplica de forma desigual.

A política pode reduzir desigualdades ou ampliá-las

Há um ponto político importante: programas organizados de rastreamento podem reduzir desigualdades, mas também podem ampliá-las quando mal implementados.

Estados e municípios com melhor estrutura tendem a absorver mais rápido as novas políticas. Têm mais serviços, mais especialistas, mais capacidade laboratorial e melhor regulação. Regiões vulneráveis, onde o diagnóstico tardio é mais frequente, correm o risco de continuar atrasadas.

Isso seria uma contradição grave.

Uma política nacional de rastreamento deve ser também uma política de equidade. O Brasil não pode apenas abrir a possibilidade de fazer o teste. Precisa garantir que os territórios com maior dificuldade de acesso tenham apoio técnico, financiamento, logística e metas específicas.

Se o programa avançar apenas onde a rede já é forte, ele melhorará indicadores médios e manterá desigualdades estruturais.

O desafio é fazer o oposto: usar o rastreamento como instrumento de correção de assimetrias regionais.

Prevenção também é gestão econômica

Há ainda um argumento de sustentabilidade.

Câncer avançado custa caro. Muito caro.

Custa em cirurgia, internação, quimioterapia, complicações, afastamento do trabalho, judicialização e sofrimento. Custa para o sistema, para as famílias e para a sociedade.

Detectar lesões precursoras ou tumores iniciais pode reduzir esse custo no longo prazo. Não apenas custo financeiro, mas custo humano.

Essa é uma discussão que o Brasil ainda faz pouco. Muitas vezes, o debate público em saúde se concentra na incorporação de medicamentos caros, novas tecnologias hospitalares e ampliação de procedimentos de alta complexidade. Tudo isso é importante, mas sistemas de saúde sustentáveis não se constroem apenas tratando doença avançada.

Constroem-se prevenindo, rastreando, diagnosticando cedo e organizando linhas de cuidado.

O rastreamento do câncer colorretal é uma oportunidade para demonstrar que prevenção não é discurso genérico. É decisão de gestão.

O anúncio é bom, mas a execução dirá tudo

O Ministério da Saúde acerta ao colocar o câncer colorretal na agenda nacional com uma estratégia de rastreamento mais racional. A decisão é tecnicamente defensável, internacionalmente alinhada e epidemiologicamente necessária.

Mas o verdadeiro teste começa agora.

O Brasil precisará transformar protocolo em operação. Isso significa financiamento, pactuação federativa, indicadores, integração de dados, expansão de colonoscopia, apoio à Atenção Primária e garantia de seguimento.

O erro seria comemorar o anúncio como se a política já estivesse entregue.

Não está.

O exame é apenas o primeiro passo de uma cadeia assistencial. Se a cadeia funcionar, o país poderá reduzir mortes, evitar cânceres, qualificar a rede e inaugurar uma nova etapa na prevenção oncológica. Se não funcionar, o FIT positivo se tornará mais um marcador de uma velha incapacidade: a de identificar o problema sem conseguir resolver em tempo.

O novo rastreamento do câncer colorretal pode ser uma virada histórica para o SUS.

Mas essa virada não dependerá apenas da tecnologia escolhida. Dependerá daquilo que costuma ser mais difícil no Brasil: transformar uma boa decisão técnica em política pública organizada, mensurável e efetiva na ponta.

O teste é simples. O desafio é fazer o sistema inteiro funcionar depois dele.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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