Entrar

    Cadastro

    Notícias

    Colunas

    Artigos

    Informativo

    Estados

    Apoiadores

    Radar

    Eleições 2026

    Quem Somos

    Fale Conosco

Entrar

Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosRadarEleições 2026
  1. Home >
  2. Artigos >
  3. Porquê chamar PCC e CV de terroristas ataca o problema errado | Congresso em Foco

Publicidade

Publicidade

Receba notícias do Congresso em Foco:

E-mail Whatsapp Telegram Google News

Crime organizado

O erro estratégico de Trump: porquê chamar PCC e CV de terroristas ataca o problema errado

A classificação de PCC e CV pelos EUA amplia tensões diplomáticas, mas não altera os fatores que sustentam o poder das organizações criminosas.

Carol Cassiano

Carol Cassiano

4/6/2026 10:00

A-A+
COMPARTILHE ESTE ARTIGO

Quando o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, anunciou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) passariam a ser classificados como organizações terroristas, o governo Donald Trump abriu mais um capítulo de sua política de projeção de poder sobre a América Latina. A medida foi celebrada por setores da oposição brasileira e recebeu críticas imediatas do governo Lula, mas, para além do embate político, existe uma questão mais importante: a decisão americana combate o crime organizado no Brasil?

A resposta, segundo décadas de pesquisas sobre violência e segurança pública, é desconfortável para os defensores da medida. O PCC e o CV são organizações criminosas extremamente violentas, mas isso não significa que sejam organizações terroristas. Pela legislação brasileira, terrorismo pressupõe motivação política, ideológica ou religiosa e facções como PCC e CV operam por outra lógica: a do lucro. Controlam rotas do tráfico, disputam mercados ilegais, dominam territórios e exploram atividades econômicas clandestinas. Seu objetivo não é transformar regimes políticos ou impor uma ideologia, mas sim ganhar dinheiro.

O problema é que o crime organizado brasileiro não surgiu de uma radicalização política, ele floresceu onde o Estado infelizmente fracassou. A pesquisadora Joana Monteiro, da FGV, dedica décadas ao estudo das chamadas "organizações criminais violentas" no Rio de Janeiro. Seu trabalho documenta como grupos como milícias e facções de drogas exercem controle territorial e diversificação econômica crescentes. Em sua pesquisa "Criminal Enterprises: Evidence from Rio de Janeiro", conduzida com Eduardo Fagundes, Mariana Carvalho e Ramon Chaves, ela demonstra que essas organizações funcionam como estruturas empresariais que regulam mercados, cobram proteção e fornecem os serviços que o Estado não entrega. O Rio de Janeiro é só o espelho ampliado de uma dinâmica que se reproduz por todo o Brasil e pela América Latina.

Um estudo do Fundo Monetário Internacional publicado em 2024 ajuda a entender o contexto. Embora concentre apenas cerca de 8% da população mundial, a América Latina responde por aproximadamente um terço dos homicídios do planeta. O relatório também mostra que violência, desigualdade, instabilidade econômica e fragilidade institucional caminham juntas. Em outras palavras, o crime organizado não é um corpo estranho inserido na sociedade, ele prospera justamente nas falhas do sistema econômico e institucional. E é por isso que a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas parece atacar os sintomas sem enfrentar as causas.

Se o objetivo é enfraquecer essas facções, a pergunta relevante não é qual rótulo jurídico elas devem receber, mas como interromper seus fluxos financeiros, reduzir seu poder de recrutamento e recuperar territórios. Uma das pesquisas mais conhecidas sobre redução da violência conduzida pelos economistas Christopher Blattman, Julian Jamison e Margaret Sheridan, na Libéria, acompanhou homens com histórico criminal e testou diferentes intervenções. Os resultados mostraram que programas de terapia cognitivo-comportamental (TCC) combinados com apoio financeiro produziram reduções duradouras em comportamentos violentos e antissociais. Uma década depois, ao monitorarem os pesquisados, os efeitos positivos continuavam visíveis. A conclusão foi que as pessoas não abandonam trajetórias criminosas porque alguém mudou sua classificação jurídica, elas mudam quando encontram alternativas reais, perspectivas econômicas e condições para reconstruir suas vidas. Nada nas evidências disponíveis sugere que chamar uma organização criminosa de terrorista reduza sua capacidade de recrutamento ou enfraqueça suas estruturas operacionais. Mas a decisão americana produz outros efeitos.

Chamar facção de terrorista não enfraquece o crime.

Chamar facção de terrorista não enfraquece o crime.Magnific

A decisão de Trump tem raízes mais políticas do que estratégicas. O encontro entre Flávio Bolsonaro e o presidente americano, realizado dias antes do anúncio, colocou a classificação explicitamente no campo da disputa eleitoral brasileira - e o próprio governo Lula respondeu em nota classificando a medida como "deplorável" e alertando para riscos à soberania nacional. Mas além do ruído diplomático, com a classificação como FTO e SDGT, qualquer instituição que tenha operado com recursos ligados ao PCC ou ao CV fica sujeita a sanções americanas, e isso inclui potencialmente bancos brasileiros que, sem conhecimento, processaram transações de empresas ligadas a essas organizações - o que, dada a escala de infiltração do crime organizado na economia formal brasileira, pode atingir praticamente todo o sistema financeiro nacional.

A classificação de um país como ambiente com forte presença de organizações terroristas produz consequências econômicas, diplomáticas e estratégicas que vão muito além do combate ao crime. Há, ainda, o risco da medida abrir precedente para intervenções externas sob o guarda-chuva do combate ao terrorismo - incluindo, em tese, ações militares no território brasileiro. A legislação americana aplicada ao caso abre ao governo dos EUA um leque de instrumentos que vai de sanções financeiras e ações de inteligência até operações militares.

O debate, portanto, não é sobre defender facções criminosas, é sobre compreender a natureza do desafio. O PCC deixará de existir porque foi chamado de organização terrorista? Não. O Comando Vermelho perderá capacidade de recrutamento porque passou a integrar uma lista americana? Tampouco. As facções continuarão prosperando enquanto houver territórios com economias paralelas funcionando livremente, lavagem de dinheiro eficiente e milhares de jovens sem perspectivas concretas de ascensão social. O anúncio de Trump produz manchetes fortes e impacto diplomático imediato, mas não altera os fatores que sustentam o crime organizado.

Donald Trump não combateu o crime organizado, ele só o renomeou. E isso, do ponto de vista estratégico, não muda absolutamente nada - exceto o tamanho do problema diplomático que os Estados Unidos acabam de criar para si mesmos e para o Brasil. Quando a névoa do anúncio se dissipar, o PCC ainda controlará territórios, o CV ainda recrutará jovens e os fuzis de fabricação americana ainda cruzarão a fronteira para abastecer o tráfico. O decreto existirá. O crime, também.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

Siga-nos noGoogle News
Compartilhar

Tags

Relações Internacionais Donald Trump facções criminosas estados unidos crime organizado

Temas

Segurança Pública
ARTIGOS MAIS LIDOS
Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosFale Conosco

CONGRESSO EM FOCO NAS REDES