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Inclusão

Autismo e desafios sensoriais: quando compreender o corpo e o mundo ao redor é a primeira barreira

Compreender o funcionamento sensorial atípico no autismo é condição essencial para o respeito, para a inclusão real e para o pertencimento.

Fernanda Guinter Herter

Fernanda Guinter Herter

18/6/2026 9:00

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Imagine viver em um mundo hostil, onde as sensações lhe invadem de forma dolorosa a todo instante. Imagine agora viver em um corpo que você não reconhece e num mundo que lhe oferece muitas sensações que você não compreende. Seria como viver sem conseguir acessar informações fundamentais para o aprendizado e desenvolvimento. Essa é a realidade das crianças com autismo. O choro ao entrar na escola, a recusa de alimentos, a pouca tolerância a barulhos, a reação intensa ao ser tocado e o apego exagerado a rotina nada mais são do que a expressão, através do comportamento, de fragilidades sensoriais importantes. Para quem observa de fora, pode parecer birra, teimosia ou algo a ser corrigido com disciplina. Para a neurociência, trata-se de algo bem diferente: um sistema nervoso que não consegue processar e organizar adequadamente as informações que chegam do próprio corpo e do ambiente ao redor.

Esse é o cotidiano de grande parte das pessoas com autismo — e compreendê-lo muda absolutamente tudo. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é oficialmente reconhecido pelos manuais diagnósticos internacionais como uma condição que inclui, entre seus critérios, o funcionamento sensorial atípico. Não se trata de um detalhe secundário, mas sim de uma característica essencial: pesquisas científicas indicam que a prevalência de desafios sensoriais significativos entre pessoas autistas chega a 90-95% (RANDELL et al., 2019; LANE et al., 2019). Ou seja, para a grande maioria dessas pessoas com esse diagnóstico, o mundo sensorial é vivido de forma radicalmente diferente — e frequentemente, de forma avassaladora.

Esses desafios sensoriais podem se apresentar em diferentes padrões, os quais são detectados a partir de um processo de avaliação abrangente realizado por terapeutas ocupacionais especialistas no Método de Integração Sensorial de Ayres. Os desafios relacionados a hiperreatividade, quando o sistema nervoso reage de forma exagerada a estímulos que para outros passariam despercebidos; ou a hiporreatividade, quando há falha no registro sensorial e a criança parece indiferente ao ambiente (POSAR; VISCONTI, 2018) pertencem a padrões relacionados com a qualidade da resposta do SNC ao registrar uma informação sensorial. Os desafios relacionados a dificuldades motoras e de aprendizagem de habilidades pertencem a padrões relacionados com a qualidade da percepção das sensações e do planejamento motor e formulação de ideias.

Esses padrões coexistem, se alternam e afetam alimentação, sono, vestuário, interações sociais e participação escolar (POSAR; VISCONTI, 2018). O que muitas vezes se lê como comportamento problemático é, na verdade, a única resposta possível de um sistema nervoso sobrecarregado. A criança que grita no refeitório não está sendo difícil: ela está sendo refém do próprio sistema nervoso desregulado por não conseguir registrar, processar e integrar as informações sensoriais. Quando as bases sensoriais estão fragilizadas, a criança fica presa em funções mais primitivas de proteção. As dificuldades passam a acontecer não por falta de motivação, capacidade, nem de esforço, mas sim porque o sistema nervoso, sobrecarregado com o esforço de simplesmente existir num ambiente sensorialmente caótico, não tem recursos disponíveis para avançar. Cada interação com o mundo se torna uma sobrevivência — e não uma aprendizagem (MOLLERI et al., 2010).

Entretanto, é importante que seja dito que essas barreiras sensoriais de desenvolvimento podem ser superadas através da intervenção baseada no Método de Integração Sensorial de Ayres (ISA), conduzida por terapeutas ocupacionais com certificação no método. Esse método oferta estratégias de intervenção traçadas para criar condições ideais para que o sistema nervoso se organize e construa, de baixo para cima, as bases sensoriais que apoiam o desenvolvimento. Em um ambiente lúdico, equipado com redes, balanços, rampas e materiais de diferentes texturas, propõe atividades sensório motoras individualizadas, desafiadoras na medida certa — o chamado "desafio justo" —, que estimulam os sistemas sensoriais para promover respostas adaptativas e provocar a neuroplasticidade (LANE et al., 2019).

A evidência científica que sustenta essa abordagem é robusta e crescente. Ensaios clínicos randomizados demonstram que crianças autistas submetidas à intervenção de Terapia Ocupacional no método ISA apresentam melhoras significativas em habilidades funcionais, autocuidado e socialização em comparação a grupos controle (LANE et al., 2019; RANDELL et al., 2019). A intervenção foi reconhecida como prática baseada em evidências para crianças com TEA brasileiras através de um estudo científico reconhecido por instituições científicas de grande renome (OMAIRI et al., 2022). Esse ensaio clínico randomizado conduzido no Brasil, com crianças com TEA entre 5 e 8 anos atendidas em Curitiba, demonstrou que a terapia ocupacional baseada na ISA produziu ganhos significativamente maiores em autocuidado (p = 0,046), função social (p = 0,036) e atingimento de metas estabelecidas pelos próprios pais (p < 0,001), em comparação ao grupo controle (OMAIRI et al., 2022). Já a partir da terceira ou quarta semana de intervenção, pais relataram espontaneamente mudanças concretas no cotidiano: crianças que passaram a tolerar roupas antes insuportáveis, ou que conseguiram pela primeira vez entrar em ambientes que antes as sobrecarregavam. Esses resultados reforçam que a ISA não é apenas eficaz em contextos internacionais — ela funciona aqui, com nossas crianças, em clínicas brasileiras.

Desafios sensoriais afetam até 95% das pessoas com TEA e influenciam aprendizagem, comportamento e qualidade de vida.

Desafios sensoriais afetam até 95% das pessoas com TEA e influenciam aprendizagem, comportamento e qualidade de vida.Magnific

Ademais, por trás de cada criança com autismo há uma família que também é impactada pelo funcionamento sensorial atípico e que pode ser imensamente beneficiada com essa intervenção. Os desafios sensoriais da criança autista acrescentam um peso e uma complexidade imensa ao cotidiano familiar, cada simples momento da rotina torna-se uma batalha. Em geral, essa mãe precisa administrar rotinas muito específicas resultantes do funcionamento sensorial caótico, negociando cada refeição com a seletividade alimentar de sua criança, interpretando crises que ninguém mais compreende, e ainda batalhando pela garantia de tratamento. Quando o funcionamento sensorial atípico não é reconhecido, esse peso se multiplica: a mãe não entende por que a criança não suporta determinadas roupas, por que chora antes de entrar no mercado, por que não consegue dormir. Sem compreensão, essa mãe não sabe quais seriam as melhores estratégias sensoriais e se vê incapaz e onipotente, vem a culpa — e com ela, o esgotamento.

Estudos que avaliam o impacto da terapia de integração sensorial reconhecem o estresse do cuidador como um desfecho relevante — e não secundário — da intervenção (RANDELL et al., 2019). Isso é significativo: significa que tratar o funcionamento sensorial da criança tem efeito direto sobre o bem-estar de quem cuida dela.

Soma-se a isso um problema estrutural: muitas crianças são submetidas a grades terapêuticas intensas e densas, com múltiplas intervenções ao longo do dia, focadas no cumprimento de demandas e no treino de habilidades, sem que se dedique atenção suficiente à regulação sensorial como pré-requisito para qualquer aprendizagem. Uma criança que chega à sessão de fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia em estado de sobrecarga sensorial não terá condições neurológicas de processar e reter o que lhe é ensinado. O bem-estar não é um luxo — é um fundamento.

Os desafios sensoriais da criança com autismo também determinam o bem-estar e a participação da rotina escolar. A Lei Brasileira de Inclusão garante às pessoas com autismo o direito à educação em escola regular. Mas incluir sem compreender é apenas mudar o endereço da exclusão. Uma sala de aula barulhenta, com luzes fluorescentes, cheiros intensos do refeitório, o toque inesperado de colegas no corredor — para uma criança com processamento sensorial atípico, esse ambiente pode ser literalmente insuportável. O que o professor interpreta como agitação, recusa ou falta de atenção pode ser, na verdade, a única resposta disponível de um sistema nervoso em colapso.

As alterações sensoriais afetam diretamente o desempenho escolar, as habilidades adaptativas e a participação social das crianças com TEA (POSAR; VISCONTI, 2018; SANTOS et al., 2025). Pesquisas mostram que a maior disfunção sensorial está associada a maior gravidade do autismo, especialmente em comportamentos restritos e repetitivos, e a maiores problemas comportamentais e emocionais no ambiente escolar. A avaliação formal do funcionamento sensorial deveria ser parte obrigatória do planejamento educacional individualizado de cada criança com TEA.

A formação de educadores para compreender o funcionamento sensorial atípico não é um detalhe pedagógico — é condição para que a inclusão aconteça de verdade. Adaptar ambientes, reconhecer gatilhos, permitir pausas regulatórias: são estratégias simples que dependem, antes de tudo, de conhecimento.

A terapia ocupacional baseada na Integração Sensorial de Ayres é uma intervenção com respaldo científico robusto — validada em ensaios clínicos randomizados, inclusive no Brasil (OMAIRI et al., 2022). Ela é, porém, ainda cara, pouco acessível, escassa e concentrada nos grandes centros urbanos. Famílias de menor renda, que já enfrentam as barreiras estruturais do diagnóstico tardio e da desinformação, ficam à margem de um tratamento que poderia transformar a trajetória de desenvolvimento de seus filhos. Há a necessidade urgente de políticas públicas de saúde que ofertem a intervenção de Terapia Ocupacional no Método de Integração Sensorial de Ayres para a população carente e de menor renda.

Reconhecer o funcionamento sensorial das pessoas com autismo como uma dimensão central — e não secundária — do transtorno é o primeiro passo. O segundo é garantir que esse reconhecimento se traduza em políticas públicas, formação profissional e acesso real ao tratamento. Enquanto isso não acontece, milhares de crianças continuam reféns de um sistema nervoso que ninguém se dispôs a compreender.


Referências

LANE, S. J. et al. Neural foundations of Ayres Sensory Integration®. Brain Sciences, v. 9, n. 153, p. 1-14, 2019. DOI: 10.3390/brainsci9070153.

MOLLERI, N. et al. Aspectos relevantes da integração sensorial: organização cerebral, distúrbios e tratamento. Neurociências, v. 6, n. 3, p. 173-179, jul./set. 2010.

OMAIRI, C. et al. Occupational therapy using Ayres Sensory Integration®: a randomized controlled trial in Brazil. American Journal of Occupational Therapy, v. 76, n. 4, p. 7604205160, jul./ago. 2022. DOI: 10.5014/ajot.2022.048249.

POSAR, A.; VISCONTI, P. Sensory abnormalities in children with autism spectrum disorder. Jornal de Pediatria, v. 94, n. 4, p. 342-350, 2018. DOI: 10.1016/j.jped.2017.08.008.

RANDELL, E. et al. Sensory integration therapy versus usual care for sensory processing difficulties in autism spectrum disorder in children: study protocol for a pragmatic randomised controlled trial. Trials, v. 20, n. 113, 2019. DOI: 10.1186/s13063-019-3205-y.

SANTOS, C. M. et al. Neurociência e autismo: o funcionamento do cérebro autista na perspectiva infantil. Aurum Revista Multidisciplinar, Curitiba, v. 1, n. 3, p. 59-75, maio 2025. DOI: 10.63330/armv1n3-006.

SUSAN, P. Assessing the impact of sensory-based occupational therapy interventions on behavioral and learning outcomes in children diagnosed with autism spectrum disorder. QIT Press - International Journal of Occupational Therapy, v. 5, n. 1, p. 1-6, jan./jun. 2025.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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