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Gênero

Copa, cerveja gelada e tapas: o fenômeno invisível que cresce a cada apito inicial

Pesquisas nacionais e internacionais confirmam o que muitas mulheres já sabiam: o maior perigo de um dia de jogo não está no gramado.

Carol Cassiano

Carol Cassiano

26/6/2026 16:00

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Artigo escrito em parceria com Gabi Sabino.

Enquanto o país para para assistir ao futebol, algumas mulheres fazem outro tipo de torcida: que o jogo acabe logo, que o marido durma cedo e que a noite termine sem gritos, ameaças ou agressões. É uma forma de torcer que não aparece nos noticiários esportivos, mas que aparece, com regularidade, nos boletins de ocorrência.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em parceria com o Instituto Natura, mostram que, em dias de partida, os registros de ameaça contra mulheres aumentam 23,7%, enquanto as agressões físicas crescem 20,8%. O agressor, na maioria dos casos, é o companheiro ou o ex-companheiro.

O futebol, convém deixar claro, não agride ninguém, mas funciona como um amplificador de comportamentos já existentes. Dias de jogo costumam reunir os ingredientes perfeitos para isso: consumo excessivo de álcool, emoções à flor da pele, grupos de amigos que reforçam padrões machistas e uma cultura que ainda associa masculinidade ao domínio e ao controle.

Se em um dia de jogo comum o risco já aumenta, imagine em um mês inteiro de jogos. Grandes competições, como a Copa do Mundo, transformam semanas inteiras em sucessivos dias de excesso de bebida e emoção permanentemente no limite, e isso, para muitas mulheres, significa também um período de maior vulnerabilidade.

Esse mesmo padrão foi documentado em diferentes países. Pesquisadores da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, analisaram os efeitos das Copas de 2002, 2006 e 2010 e constataram que os casos de violência doméstica aumentavam 26% quando a seleção inglesa vencia e 38% quando perdia. A lógica constatada, se é que se pode chamá-la assim, foi que a vitória é comemorada com violência e a derrota vingada com violência. No dia seguinte, independente do resultado da partida, os casos seguiam 11% acima do normal, como se o dia de jogo deixasse um rastro.

Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, o maior número desde que o crime foi tipificado em lei, em 2015, segundo levantamento do FBSP divulgado em março deste ano. 8 em cada 10 vítimas foram assassinadas pelo companheiro ou pelo ex-companheiro e a maioria morreu dentro da própria casa. Isso mostra que para muitas brasileiras o lugar mais perigoso não é a rua, é a própria casa - e nesse mês, com televisão ligada, geladeira cheia de cerveja e um homem que ela provavelmente ama, ou já amou, sentado no sofá.

Os impactos disso também são econômicos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a violência doméstica possa custar até 14% do PIB em países de baixa renda. No Brasil, estudos apontam perdas que chegam a cerca de 10% do PIB, entre gastos com hospitalizações, afastamentos, processos judiciais e redução de produtividade. Há ainda um custo impossível de mensurar: o das vidas interrompidas.

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Aindam pesquisas internacionais, como da American Economic Review, mostra que a violência está ligada a quedas salariais de até 5,1% e a uma redução de 6,6% na participação das mulheres no mercado de trabalho. A violência doméstica reduz em até 10% as horas anuais de trabalho feminino. O ciclo é interminável e se retroalimenta: a agressão compromete a autonomia econômica, e a dependência financeira dificulta o rompimento de relações abusivas. Não é coincidência que em países onde as mulheres são vistas como economicamente iguais, os índices de violência doméstica sejam menores — conforme demonstrou o estudo Violence Against Women: A Cross-Culture Analysis for Africa. Por isso, tratar a violência doméstica apenas como um problema privado é um erro, ela é uma questão desenvolvimento econômico, de segurança pública e de saúde coletiva.

A rede de proteção existe e precisa ser acionada. O Ligue 180 funciona 24 horas por dia e é o principal canal de orientação e denúncia. As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), as Casas da Mulher Brasileira, as Salas Lilás e os Centros de Referência da Mulher compõem um conjunto de políticas públicas que, quando acessadas, podem salvar vidas. O desafio é que muitas mulheres não chegam até eles — por medo, por dependência econômica, por isolamento ou por acreditar que o problema é dela.

Mas há outro ator que raramente aparece nessa equação: o futebol organizado. Clubes, federações, atletas e torcidas têm uma influência social que seria ingênuo subestimar. Em países como Reino Unido e Austrália, campanhas conduzidas em parceria com clubes de futebol durante grandes torneios obtiveram resultados mensuráveis na conscientização e no aumento de denúncias. Isso não significa que queiramos que o futebol resolva um problema que ele não criou. Pede-se, no entanto, que ele pare de fingir que o problema não existe. Que os atletas com milhões de seguidores usem esse alcance para algo além de publicidade de apostas esportivas e que federações incluam protocolos de prevenção à violência doméstica em seus planos para grandes torneios.

Dias de jogo são ocasiões de alegria, de identidade nacional, de tradição familiar, mas para uma parcela de mulheres são dias de tensão, de estratégias de sobrevivência improvisadas e de torcer — com um significado completamente diferente da palavra.

O país que para para ver futebol pode, enquanto está parado, olhar também para isso.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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