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Apostas esportivas

A Copa acabou, a luta continua

O futebol saiu de cena, mas o impacto das apostas permanece. O desafio agora é proteger consumidores e trabalhadores sem abrir espaço para a ilegalidade.

Lourival Figueiredo Melo

Lourival Figueiredo Melo

7/7/2026 18:00

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A Copa do Mundo acabou. O campeonato da vida, não.

Enquanto os estádios se esvaziam e as atenções deixam o futebol, milhões de brasileiros continuam entrando em campo todos os dias. São trabalhadores que acordam antes do amanhecer, enfrentam ônibus lotados, cumprem longas jornadas e fazem do próprio esforço o sustento de suas famílias.

Talvez nunca levantem uma taça nem sejam entrevistados após uma grande vitória. Ainda assim, são eles que movimentam o comércio, os serviços e a economia do país.

É justamente por essas famílias que o debate sobre as apostas esportivas não pode terminar com o apito final.

Durante o torneio, as bets ocuparam um espaço sem precedentes. Estiveram nas transmissões esportivas, nas redes sociais, nos aplicativos, nos intervalos comerciais e nas campanhas de influenciadores. Apostar passou a fazer parte da experiência de acompanhar o futebol para milhões de brasileiros.

A Copa terminou, mas esse mercado continua crescendo. E com ele permanecem os desafios de um setor que movimenta bilhões de reais, alcança milhões de consumidores e exige uma regulação capaz de equilibrar liberdade econômica, segurança jurídica e proteção social.

Os sinais de mudança já são evidentes. A investigação conduzida pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), a decisão liminar do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) sobre campanhas consideradas potencialmente abusivas e a intenção do governo federal de endurecer as regras para a publicidade das bets mostram que o Brasil entrou em uma nova etapa desse debate.

A questão deixou de ser simplesmente autorizar ou proibir as apostas. O verdadeiro desafio agora é garantir que uma atividade legal opere com responsabilidade, transparência e respeito aos direitos do consumidor.

Toda atividade econômica relevante deve conviver com regras claras e fiscalização eficiente. O crescimento desse mercado não pode significar o enfraquecimento da proteção às famílias brasileiras.

Existe, aliás, um patrimônio que precisa estar no centro dessa discussão: a renda das famílias.

É ela que garante alimentação, moradia, transporte, educação dos filhos e o consumo que movimenta o comércio e os serviços. Quando parte dessa renda passa a ser comprometida por apostas impulsionadas por campanhas cada vez mais agressivas, o problema deixa de atingir apenas quem aposta e passa a produzir efeitos sobre toda a economia.

Por isso, a discussão sobre a publicidade ganhou tanta importância.

Quando narradores, comentaristas, influenciadores e plataformas incorporam ofertas em tempo real, promoções relâmpago e estímulos permanentes para novas apostas, a fronteira entre entretenimento e incentivo ao consumo torna-se cada vez mais tênue.

É natural, portanto, que os órgãos de fiscalização acompanhem essa transformação.

O debate sobre as bets deve avançar com equilíbrio, fiscalização e responsabilidade para proteger a renda de quem move a economia brasileira.

O debate sobre as bets deve avançar com equilíbrio, fiscalização e responsabilidade para proteger a renda de quem move a economia brasileira.Magnific

Ao mesmo tempo, qualquer aperfeiçoamento regulatório precisa respeitar um princípio básico: a isonomia.

Se determinada prática for considerada inadequada, a regra deve valer para todos. Emissoras de televisão, plataformas digitais, serviços de streaming, influenciadores, empresas de mídia e operadores de apostas precisam estar submetidos aos mesmos critérios. A proteção do consumidor não pode variar conforme o tamanho da audiência ou o modelo de negócio de quem divulga uma campanha.

Para quem representa trabalhadores, essa discussão possui um significado ainda mais profundo.

No comércio e no setor de serviços tornam-se cada vez mais frequentes os relatos de comprometimento do orçamento doméstico, endividamento, dificuldades financeiras e conflitos familiares associados ao uso descontrolado das plataformas de apostas. Esses efeitos não decorrem da existência da atividade em si, mas podem ser potencializados quando a publicidade explora mecanismos de urgência, promessas de ganhos fáceis e estímulo constante à repetição das apostas.

Os números ajudam a dimensionar essa realidade. Pesquisa do Procon-SP mostrou que 56,6% dos apostadores afirmam que a publicidade com influenciadores e celebridades influencia sua decisão de apostar. O mesmo levantamento apontou que 52,4% dos entrevistados já comprometeram parte da renda, utilizaram reservas financeiras ou recorreram a empréstimos para continuar apostando.

Quando recursos destinados às despesas essenciais passam a alimentar apostas sucessivas, diminui o consumo das famílias, cresce a pressão sobre o orçamento doméstico e aumentam os riscos de superendividamento, conflitos familiares e adoecimento relacionado ao jogo compulsivo. Os reflexos ultrapassam o ambiente digital. Eles chegam ao comércio, aos serviços, à produtividade do trabalho e à economia real.

Ao mesmo tempo, trata-se de um mercado que também gera arrecadação pública. Segundo o Ministério da Fazenda, as apostas renderam aproximadamente R$ 9 bilhões para a União em 2025 e quase R$ 6 bilhões apenas nos cinco primeiros meses de 2026.

Quanto maior a relevância econômica desse setor, maior deve ser a responsabilidade do Estado em reduzir seus impactos sociais. Não se trata de demonizar uma atividade legalizada nem de inviabilizar um mercado que gera investimentos e tributos. Trata-se de assegurar que sua expansão seja acompanhada por mecanismos efetivos de proteção ao consumidor.

Também seria um equívoco imaginar que restringir indiscriminadamente toda forma de publicidade resolverá o problema. A experiência internacional demonstra que proibições desproporcionais podem fortalecer operadores clandestinos, que atuam sem autorização, sem fiscalização e sem qualquer compromisso com a proteção do consumidor.

O equilíbrio continua sendo o único caminho possível.

Isso significa fortalecer a fiscalização, ampliar a transparência das campanhas publicitárias, impedir a exposição de crianças e adolescentes, investir em educação financeira, ampliar o acesso ao tratamento da ludopatia e aplicar as mesmas regras para todos os participantes do mercado.

A Copa terminou.

Mas o campeonato da vida continua todos os dias.

Continua quando um pai sai de casa antes do amanhecer para garantir o sustento da família. Continua quando uma mãe faz malabarismos para que o salário dure até o fim do mês. Continua quando jovens conciliam estudo e trabalho em busca de oportunidades. Continua nos milhões de brasileiros que fazem da própria dedicação a força que mantém o comércio aberto, os serviços funcionando e a economia em movimento.

São esses brasileiros que precisam estar no centro desse debate.

Porque o maior patrimônio do país não é o faturamento das plataformas nem a arrecadação gerada pelas apostas.

É a renda das famílias brasileiras.

A Copa acabou.

Mas a luta diária de quem trabalha continua. E essa é a partida que o Brasil não pode perder.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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