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Cris Monteiro
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Crise climática
28/1/2026 18:00
Nos últimos meses, uma cena tem se repetido nas cidades brasileiras. Nossos celulares apitam todos ao mesmo tempo, e não se trata de telemarketing ou algo do tipo. É uma notificação de alerta da Defesa Civil, informando que uma chuva extrema se aproxima, com risco imediato, e que é preciso procurar abrigo. Em poucos segundos, qualquer discussão abstrata desaparece e sobra apenas a realidade concreta. Pessoas ilhadas, famílias desalojadas, comerciantes perdendo tudo porque ficaram dias sem energia, bairros inteiros paralisados, serviços essenciais operando no limite.
Nas últimas chuvas em São Paulo, um homem de 75 anos morreu na Vila Guilherme, na zona norte, arrastado pela enxurrada ao tentar retirar o próprio carro, e um casal de idosos perdeu a vida após ter o veículo levado pela correnteza na zona sul da capital. Quando o celular apita, a água sobe pra muita gente.
Tratar esse cenário como exagero ou narrativa de aquecimento global é ignorar fatos objetivos. Eventos climáticos extremos estão mais frequentes, mais intensos e mais caros. São Paulo, maior centro econômico do país, deixou de lidar com episódios pontuais e passou a conviver com chuvas concentradas em poucas horas, alagamentos recorrentes, apagões prolongados e colapso da mobilidade urbana. Pequenos comerciantes veem estoques perdidos, equipamentos danificados e portas fechadas por dias. Aqueles que trabalham e dependem do transporte público ficam impossibilitados de voltar para casa. Escolas e postos de saúde interrompem o atendimento. Sem contar os deslizamentos que destroem bairros inteiros.
Quem mais sofre não é quem discute o tema em fóruns ou redes sociais, mas quem depende do funcionamento básico da cidade. O comerciante que não tem seguro para cobrir dias sem luz. A família que mora em área de risco porque nunca teve alternativa habitacional viável. O trabalhador informal que não pode simplesmente ficar em casa quando a cidade para. Ignorar isso é fechar os olhos para um problema humano real.
Do ponto de vista econômico, o custo da omissão é maior do que o custo da prevenção. Investir em drenagem urbana, manutenção e modernização das redes elétricas, planejamento do uso do solo, sistemas de alerta eficientes e coordenação entre Defesa Civil, concessionárias e municípios exige recursos e boa gestão. Mas não agir gera perdas privadas não seguradas, gastos públicos emergenciais, queda de arrecadação local, judicialização e, sobretudo, perda de confiança da população nos serviços e nas instituições. Isso não é pauta ideológica. É gestão de risco.
Planejar, fiscalizar, exigir resiliência das concessionárias, atualizar normas urbanísticas e usar tecnologia para antecipar riscos é o básico. Proteger vidas, proteger propriedade e garantir condições mínimas de liberdade para que as pessoas possam trabalhar e empreender.
A discussão relevante já não é se eventos extremos vão acontecer, mas como enfrentá-los sem paralisar o crescimento econômico, sem demonizar a iniciativa privada e sem empurrar a conta para os mais vulneráveis. Negar a realidade não protege o mercado. Ignorar dados não protege famílias. Adiar decisões não protege as cidades. Responsabilidade fiscal, planejamento urbano e infraestrutura são condições mínimas de civilização. E isso fica evidente, ainda que por alguns minutos, toda vez que o celular apita.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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