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Lydia Medeiros
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Eleições 2026
2/2/2026 12:00
Nos quarenta dias em que aproveitaram as férias, os parlamentares puderam ver a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, acompanhar o noticiário sobre a invasão militar americana à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro, e seguir a intrigante novela do Banco Master. Eles voltam ao trabalho nesta segunda-feira com outro enredo em tempo real, a escolha do candidato presidencial do PSD.
Os governadores Ratinho Junior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, ganharam a companhia partidária de Ronaldo Caiado, de Goiás, e, segundo anunciou Gilberto Kassab, presidente do PSD, um deles vai representar o partido na disputa pelo Planalto em outubro. A escolha será difícil, e a fórmula de uma "decisão política" para sair do impasse, aliada a pesquisas, é opaca e sem imunidade a dissidências e reviravoltas.
A primeira reação de dois dos partidos do Centrão foi de crítica e desconfiança quanto à consistência do plano anunciado. Caiado entrou no PSD porque seu projeto presidencial foi abortado pela direção do União Brasil, expoente do Centrão que optou por investir energia e (fartos) recursos na eleição de uma bancada parlamentar forte. O PP do senador Ciro Nogueira e do deputado Arthur Lira, que forma uma federação com o União Brasil, também não apostou numa aliança em torno de Caiado. Ciro prefere ver a federação ao lado de Flávio Bolsonaro, do PL.
Kassab lança o PSD na eleição com o partido ocupando três cadeiras no Ministério de Lula. Hábil, justificou a permanência dos ministros afirmando que eles, em 2022, integraram a campanha lulista e ajudaram a elegê-lo. O problema é que naquele ano Kassab também anunciou que o partido teria candidato próprio. Tentou convencer Rodrigo Pacheco a aceitar a tarefa, mas o mineiro preferiu ficar no Senado. Eduardo Leite ensaiou o papel, mas, sem viabilidade, voltou para o Rio Grande do Sul para ser reeleito. Kassab, então, liberou o partido, que se dividiu entre Lula e Bolsonaro.
Outro fator que atrapalha a credibilidade do roteiro exibido por Kassab é Tarcísio de Freitas. O governador declarou que ficará em São Paulo para disputar a reeleição. Kassab ainda integra seu secretariado. E afirmou que ficaria "honrado" em ser vice do atual chefe numa campanha presidencial, caso ele mude de ideia, admitindo implicitamente que tudo o que disse nos últimos dias pode ser revisto.
O experiente Kassab nunca deixou de reconhecer o favoritismo de Lula. Ele usou esse argumento, inclusive, para aconselhar publicamente Tarcísio a deixar a aventura eleitoral em Brasília para 2030 — ainda que, na opinião de muitos, desejasse intimamente vê-lo na disputa e assumir, ele mesmo, a candidatura ao governo paulista.
Kassab já classificou Tarcísio como um refém eleitoral de Jair Bolsonaro. "Ele precisa decidir se é de centro ou de direita", disse a pessoas próximas, diante dos gestos do governador de apoio ao ex-presidente — e às investidas de Eduardo Bolsonaro nos EUA, que resultaram em aumento de tarifas de exportação para o Brasil. Essas manifestações de Tarcísio o desgastaram muito junto a setores econômicos que o viam como candidato ideal para ser o antiLula. Kassab passou a trabalhar com mais força a ideia de levar Ratinho Júnior à disputa presidencial. Na última sexta-feira, anda aconselhou o governador paulista a não confundir gratidão e lealdade com submissão a Jair Bolsonaro.
Agora, com três governadores bem avaliados em seus estados, o PSD tenta mostrar que entra no jogo com algum propósito. Nas múltiplas entrevistas que concederam, Kassab e os três pré-candidatos anteciparam a defesa de medidas para reduzir o tamanho do Estado, combater a corrupção e enfrentar o problema da segurança pública e do crime organizado. Kassab pregou idade mínima de 60 anos para ministros do STF, para limitar a 15 anos a permanência dos ministros na Corte (a aposentadoria compulsória é aos 75 anos).
O grande desafio do PSD será convencer o eleitor de direita e aquele que não quer a permanência de Lula de que seu candidato é o melhor. Afinal, no primeiro turno, a disputa não será com Lula, mas entre candidatos da direita. O escolhido do PSD terá de mostrar diferenças em relação ao filho de Jair Bolsonaro. Nesse ponto, a campanha do PSD mal começou e já deixou o eleitor-alvo na mão. À exceção de Leite, os dois outros possíveis candidatos defendem anistia geral e indulto para Bolsonaro (o último indulto presidencial a um condenado por crimes contra a democracia foi concedido por Bolsonaro ao ex-deputado Daniel Silveira, mas o STF cassou a decisão por considerá-la inconstitucional). Kassab admite que o eleitor do PSD está mais próximo de Flávio do que de Lula.
Faltam alguns meses para o desfecho dessa trama — as convenções partidárias acontecem em junho. É inegável, no entanto, que Kassab fez um movimento ousado. Se não conseguir alterar a balança da polarização — tarefa complicada, mas não impossível, mostram as pesquisas — terá fincado bases mais sólidas para 2030, quando o jogo será outro. Por enquanto, Lula assiste a direita continuar a brigar entre si. Só há uma certeza — seja qual for o vencedor, haverá vagas para o PSD e o Centrão em Brasília.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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