Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Pedro Rodrigues
Pedro Rodrigues
Pedro Rodrigues
Pedro Rodrigues
Pedro Rodrigues
Geopolítica
26/3/2026 10:17
O fechamento do Estreito de Ormuz não é apenas uma crise de petróleo. É algo muito mais sério e o mundo ainda não entendeu bem a diferença.
Cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia transitavam pelo Estreito aproximadamente 20% do consumo global de petróleo. Mas o que raramente se conta é que o mesmo gargalo é uma das principais artérias do mercado global de fertilizantes. Os países expostos a uma disrupção na região respondem por cerca de 49% das exportações globais de ureia e aproximadamente 30% das exportações de amônia. Irã, Arábia Saudita e Qatar figuram entre os maiores exportadores de nitrogênio do mundo, respondendo juntos por cerca de 25% das exportações globais de fertilizantes nitrogenados.
O segredo desse domínio é simples: gás natural barato. No Irã e nos países do Golfo, o gás é o insumo essencial para produzir amônia e ureia a custos imbatíveis. Portanto, a guerra não interrompeu apenas o fluxo de energia. Interrompeu o fluxo da comida. E aí começa a tempestade perfeita.
A estimativa é que cerca de um terço do comércio global de fertilizantes foi interrompido. Ao mesmo tempo, Rússia e China estão retendo estoque. O resultado é devastador: a ureia já ultrapassou US$ 600 por tonelada métrica, e agricultores em todo o mundo não conseguem fechar contratos de fornecimento. Fertilizante mais caro significa custo maior no setor agrícola — e custo maior significa inflação no prato de comida de todos.
Aqui está a diferença fundamental em relação ao passado. Nos choques do petróleo de 1973 e 1979, o barril disparou, as economias sofreram, o crescimento global desacelerou. Mas a segurança alimentar não estava em xeque de forma estrutural. Não havia esse nexo direto entre o preço do petróleo e do gás natural e o custo de produzir arroz, soja ou trigo. Hoje, o conflito atingiu simultaneamente energia, fertilizantes, logística e política comercial. Estamos vivendo uma ruptura sistêmica e o mundo não tem precedente para lidar com ela nessa escala.
E o Brasil? O Brasil alimenta o mundo, mas importa mais de 85% dos fertilizantes que consome. Os fertilizantes chegam a representar 40% do custo de produção de determinadas lavouras. Soja, milho, cana-de-açúcar e café estão diretamente expostos ao choque de preços. Somos protagonistas da segurança alimentar global e, ao mesmo tempo, reféns da volatilidade do mercado de insumos.
A resposta do governo segue o caminho do subsídio ao diesel para conter o custo do frete rural, e o retorno recorrente da ideia de um programa nacional de fertilizantes bancado pela Petrobras. São remédios que tratam o sintoma e ignoram a doença. Subsídio ao diesel distorce a competitividade dos biocombustíveis, que são a verdadeira vantagem comparativa do Brasil. E programa de fertilizantes subsidiado é a política do atraso do olhar para o retrovisor.
As soluções estruturais e de marcado existem: no diesel o PPI, revisar a tributação e ampliar a concorrência no refino. Nos fertilizantes, a chave está no gás natural e aumentar a oferta de gás no Brasil passa, necessariamente, pela abertura da exploração do gás não convencional, transparência na formação de preços e redução do poder dominante da Petrobras.
Há um famoso aforismo atribuído a Einstein que "a insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente esperando resultados diferentes". O atual governo brasileiro parece não conhecer essa máxima.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
Temas