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A queda do cartel

"Pessoas do mesmo ofício raramente se reúnem, ainda que para se divertir, sem que a conversa termine numa conspiração contra o público."

Pedro Rodrigues

Pedro Rodrigues

30/4/2026 10:45

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Os Emirados Árabes Unidos anunciaram nesta terça-feira a saída da OPEP, encerrando uma associação que já beirava os sessenta anos. A notícia caiu sobre um mercado tensionado pela guerra do Irã e pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, com o Brent em torno dos US$ 111 — e abalou a estrutura mais antiga do mercado mundial de petróleo. Para entender o tamanho do recado, é preciso olhar para trás.

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo nasceu em Bagdá, em 1960, fundada por Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela. O cenário era de hegemonia das Sete Irmãs — Exxon, Mobil, Chevron, Texaco, Gulf, Shell e BP —, petroleiras anglo-americanas que dominavam o mercado. Em 1959 e 1960, ao expandirem a oferta, reduziram o preço global do barril e comprimiram a receita dos produtores.

A reação veio em forma de cartel. Mas por um tempo a OPEP foi pouco mais que um clube de produtores reclamões. Tudo mudou em 1973. O embargo árabe contra os países que apoiaram Israel na Guerra do Yom Kippur quadruplicou o preço do barril, de US$ 3 para US$ 12, e trouxe o primeiro choque do petróleo. Seis anos depois, a Revolução Iraniana provocaria o segundo, levando o barril a US$ 40. Naqueles episódios, a OPEP demonstrou ao mundo que petróleo era também arma geopolítica — e que um pequeno grupo de países podia ditar o ritmo da economia global.

Decisão enfraquece o cartel em meio à guerra e reposiciona o mercado global de petróleo.

Decisão enfraquece o cartel em meio à guerra e reposiciona o mercado global de petróleo.Freepik

De lá para cá, o cartel envelheceu. Catar saiu em 2019, Equador em 2020, Angola em 2024. Agora vão os Emirados, terceiro maior produtor do bloco, com cerca de 3 milhões de barris por dia e capacidade ociosa para chegar a 5 milhões já em 2026, segundo seu próprio ministro de Energia. Não é decisão impulsiva. Há anos os emiradenses pressionam por aumento de produção enquanto os sauditas insistem em cortes. De um lado, quem tem reservas gigantes e quer monetizá-las. Do outro, quem tenta sustentar preço com disciplina de oferta. A convivência sempre foi tensa. A guerra apenas tornou o divórcio inevitável.

O cálculo é frio e correto. Com Ormuz parcialmente fechado e o barril em patamar elevado, há uma mudança estrutural na curva de preços que deve persistir mesmo após a reabertura do canal. Nesse cenário, um aumento de oferta dos Emirados não derrubaria o preço — apenas multiplicaria sua receita. É o momento perfeito para abandonar a obrigação de cortes. E o efeito colateral é demolidor para o cartel: a OPEP perde seu terceiro maior produtor justamente quando o tabuleiro energético se reorganiza. A Venezuela, com retorno de investimento estrangeiro e produção em recuperação, deve ser a próxima a sair. O destino do Irã segue em aberto.

Quem ganha? Os Estados Unidos, com 13,6 milhões de barris por dia, consolidam o posto de maior produtor do planeta num mercado que volta a respeitar mais oferta e demanda. O Brasil, com 4 milhões de barris diários de petróleo e a caminho dos 5 milhões até o final da década, sai fortalecido pelo mesmo motivo. Cartel sempre foi prejudicial em qualquer setor, e no petróleo nunca foi diferente. O paradoxo é doméstico: enquanto o mundo se livra do cartel, o governo brasileiro insiste em flertar com a OPEP+, num arranjo que nada acrescenta ao país e tudo concede. Como sempre, na contramão.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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