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Antônio Augusto de Queiroz
Antônio Augusto de Queiroz
A sinuca de bico entre narrativa eleitoral e governabilidade política
Antônio Augusto de Queiroz
Antônio Augusto de Queiroz
A fabricação da desordem: o caso Master e a estratégia para 2026
Antônio Augusto de Queiroz
Comunicação política
6/4/2026 10:19
No último dia 31 de março, o governo federal reuniu sua equipe ministerial para apresentar um balanço da gestão. Os números são expressivos: 26,5 milhões de pessoas retiradas da fome entre 2023 e 2024, recorde de investimentos no Minha Casa, Minha Vida com 2,1 milhões de unidades contratadas e a meta batida um ano antes do prazo, queda histórica do desmatamento na Amazônia em 50% e redução do coeficiente de Gini para 50,4, o menor patamar já registrado. Do ponto de vista técnico, o governo tem muito a mostrar. Do ponto de vista político, porém, a entrega dessas realizações esbarra em um ambiente comunicacional profundamente adverso.
Segundo Alek Maracajá, da ativaweb, vivemos um momento em que o algoritmo não julga — ele distribui — e o que ele distribui com mais velocidade não é necessariamente o que é verdadeiro, mas o que é emocional, polêmico e fácil de consumir. Estudos mostram que conteúdos emocionais e polêmicos têm até três vezes mais alcance do que informações neutras, enquanto narrativas simples se espalham seis vezes mais rápido que verdades complexas. A inteligência artificial acelerou a produção de conteúdo, os algoritmos escalam a distribuição, mas o comportamento humano continua o mesmo: reagir primeiro, verificar depois. A mentira virou quase um retrato permanente da internet, porque ela, hoje, não precisa ser convincente — ela só precisa ser compartilhável, precisa agradar a bolha. A narrativa distorcida não precisa ser verdade, só precisa fazer sentido para quem quer acreditar.
Nesse cenário, o governo enfrenta um duplo desafio: continuar entregando resultados concretos e, ao mesmo tempo, aprender a disputar narrativa no ambiente digital com a mesma intensidade com que executa políticas públicas. O balanço ministerial mostrou números que, em qualquer outra época, seriam manchete por semanas, mas que agora precisam disputar espaço com desinformação de alta capilaridade.
Foram apresentadas políticas públicas que tocam a vida das pessoas: a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, beneficiando 16 milhões de trabalhadores; a Farmácia Popular 100% gratuita a partir de 2025 e o recorde de cirurgias eletivas; a redução de 87% no déficit de vagas na educação infantil; as 16 milhões de famílias com energia elétrica gratuita; os R$ 27 bilhões aprovados no Fundo Clima, recorde histórico; os 22 leilões de concessões realizados desde 2023 e os 99% dos municípios brasileiros contemplados com obras do Novo PAC. São entregas robustas, mas que, para se transformarem em reconhecimento eleitoral, exigem mais do que fazer — exigem comunicar com capilaridade, linguagem simples e constância, disputando narrativa nos mesmos territórios onde a desinformação avança.
Apesar do balanço positivo, o governo ainda tem diante de si dois temas sensíveis que, se não tratados com agilidade, podem desgastar a percepção pública justamente no momento em que mais precisa consolidar seus avanços. O primeiro é a necessidade de reverter a decisão que onerou as compras internacionais de pequeno valor. A chamada "taxação das blusinhas" tornou-se um símbolo de aumento de custo para a classe média baixa e os jovens, alimentando uma narrativa de que o governo está do lado contrário do consumidor. Mais do que o impacto econômico real, pesa aqui o simbolismo, e retirar essa taxação é desarmar uma das principais armas narrativas da oposição.
O segundo tema é a necessidade de avançar na regulamentação do parcelamento do Pix, garantindo que essa ferramenta amplamente popular não seja desvirtuada por práticas abusivas, além de exigir do Banco Central mais celeridade na redução da taxa de juros. O endividamento das famílias continua sendo um dos principais gargalos para a recuperação da qualidade de vida da população, e juro alto é imposto sobre a pobreza — o governo precisa demonstrar que está atuando para aliviá-lo.
O governo fez um balanço robusto, mas, no ambiente polarizado, balanços técnicos não bastam. É preciso traduzir os números em narrativas que conversem com o cotidiano das pessoas. A retirada da fome, a queda da desigualdade, o acesso à moradia e à saúde gratuita são conquistas que dialogam com o eleitorado mais vulnerável — base histórica do lulismo. Já a isenção do IR até R$ 5 mil, o crédito acessível e as obras de infraestrutura falam com a classe média e o setor produtivo.
O desafio agora é fazer com que essas entregas não fiquem restritas aos gráficos das apresentações ministeriais. Elas precisam virar conversa de roda de bar, de grupo de família no WhatsApp, de vídeo de 30 segundos que viraliza. Os algoritmos nos ensinaram que, na disputa por atenção, a emoção vence a razão. A mentira não precisa ser verdadeira — só precisa fazer sentido para quem quer acreditar. E o campo conservador aprendeu a jogar esse jogo com eficiência brutal, enquanto o governo ainda opera muitas vezes como se a verdade falasse por si só. Mas a verdade complexa, com dados e nuances, não se impõe automaticamente no ambiente digital — é preciso embalá-la, repeti-la, simplificá-la sem perder a essência.
Além de consolidar o que já foi entregue, é preciso transmitir esperança e confiança, propondo mudanças com impacto positivo na vida das pessoas — como o transporte urbano gratuito e a redução da jornada sem redução de salário, entre outras medidas civilizatórias. Esperança de que o status quo mudará para melhor e confiança de que o governo e sua equipe são capazes de transformar promessas em realidade, como já fizeram com as entregas dos últimos anos.
O governo Lula tem um dos melhores balanços de entregas dos últimos anos. Mas, para que isso se traduza em força eleitoral em 2026, será necessário resolver os temas pendentes — a taxação das blusinhas, o parcelamento do Pix e a queda dos juros — que hoje alimentam desgastes evitáveis; comunicar com a linguagem das plataformas, com simplicidade, repetição e apelo emocional positivo; e disputar narrativa com a mesma intensidade com que executa políticas públicas. Porque, no ambiente polarizado, não basta fazer — é preciso que saibam que foi feito. A verdade não vence sozinha. Ela precisa de vozes, de repetição, de alcance. E, sobretudo, precisa fazer sentido para quem mais precisa dela.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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