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Antônio Augusto de Queiroz
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A fabricação da desordem: o caso Master e a estratégia para 2026
Antônio Augusto de Queiroz
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Antônio Augusto de Queiroz
A política monetária e seus reflexos sobre o cenário eleitoral
Governo Lula
23/3/2026 12:00
A recente oscilação para baixo na popularidade do presidente Lula pode ser compreendida como um fenômeno multifatorial, no qual se combinam fatores econômicos, políticos e comunicacionais. No entanto, parte relevante da atual turbulência decorre da convergência de temas sensíveis ligados a suspeitas de irregularidades e má gestão, amplamente repercutidos no debate público e institucional. Os efeitos da guerra no Irã, e o consequente aumento no preço do petróleo, ainda não foram captados pelas pesquisas.
Ainda que muitos desses episódios envolvam diferentes esferas de poder e estejam, em diversos casos, sob investigação ou apuração, seus efeitos tendem a recair de maneira mais intensa sobre o Executivo federal. Em contextos de elevada exposição midiática e baixa diferenciação institucional por parte de segmentos do eleitorado, é comum que crises envolvendo autoridades públicas sejam associadas, de forma mais direta, ao governo em exercício.
Por outro lado, há um elemento paradoxal nesse processo. Em diferentes situações recentes, o próprio governo federal tem desempenhado papel ativo na identificação e no enfrentamento de irregularidades, seja por meio de órgãos de controle, seja por iniciativas administrativas. Essa atuação, embora necessária do ponto de vista institucional, contribui para dar visibilidade a problemas estruturais que atravessam o Estado brasileiro.
Críticos do governo, contudo, apontam que parte dessas disfunções também pode estar relacionada a falhas de supervisão, desenho institucional ou decisões políticas tomadas ao longo do tempo, o que indica que a responsabilização não é necessariamente nem facilmente delimitável entre os Poderes nem entre os mandatos presidenciais.
O dilema: comunicar sem romper
Diante desse cenário, o desafio central do governo não é apenas de gestão, mas de comunicação política. Em tese, uma estratégia possível seria enfatizar a distinção entre as atribuições dos diferentes Poderes, buscando esclarecer os limites de responsabilidade do Executivo, assim como esclarecer em que governante o problema teve início. Na prática, entretanto, essa primeira parte da abordagem, especialmente em relação aos poderes, encontra restrições relevantes.
A adoção de um discurso que explicite responsabilidades de outros Poderes pode ser interpretada como tensionamento institucional, especialmente em um ambiente no qual a governabilidade depende de negociações constantes com o Congresso Nacional e da estabilidade das relações com o Judiciário. Assim, a comunicação política passa a exigir calibragem fina entre transparência, preservação institucional e viabilidade política.
Nesse contexto, governos frequentemente recorrem a estratégias intermediárias, como o uso de porta-vozes técnicos, a segmentação da comunicação e a ênfase em respostas institucionais, evitando a personalização de conflitos entre Poderes. Ainda assim, o risco de associação negativa no plano da opinião pública permanece.
Configura-se, portanto, uma situação de difícil equação: ao buscar se desvincular de crises (com vistas ao impacto eleitoral), o governo pode gerar atritos institucionais; ao adotar postura mais cautelosa, preservando pontes políticas, pode permitir a consolidação de percepções negativas junto a parcelas do eleitorado. Ou seja, se correr o picho pega; se ficar, o bicho come.
Perspectivas e variáveis em aberto
O cenário tende a permanecer volátil no curto prazo, sobretudo em função do andamento de investigações e da dinâmica do noticiário político. Novos desdobramentos podem tanto aprofundar desgastes quanto reconfigurar responsabilidades percebidas pela opinião pública.
Do ponto de vista eleitoral, embora seja recorrente a observação de que muitos eleitores definem seu voto nas fases finais da campanha, esse comportamento varia conforme o contexto político, o nível de polarização e o grau de engajamento do eleitorado. Ainda assim, governos costumam apostar na capacidade de suas realizações e agendas propositivas influenciarem a decisão do voto no momento mais próximo às eleições.
Nesse sentido, a estratégia tende a combinar a gestão de crises no presente com a construção de uma narrativa baseada em entregas, resultados e perspectivas futuras. O sucesso dessa abordagem dependerá não apenas da eficácia das políticas públicas, mas também da capacidade de comunicação e da evolução do ambiente político-institucional.
Até lá, o governo seguirá diante do desafio de conciliar dois imperativos frequentemente tensionados: a necessidade de transparência e enfrentamento de problemas estruturais e a preservação das condições políticas para governar. Em outras palavras, sobreviver ao paradoxo de ser, ao mesmo tempo, o denunciante (e responsável pela solução do problema) e o principal atingido pelas denúncias.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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