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Crises, investigações e comunicação difícil ampliam desgaste e desafiam estratégia política.

Antônio Augusto de Queiroz

Antônio Augusto de Queiroz

23/3/2026 12:00

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A recente oscilação para baixo na popularidade do presidente Lula pode ser compreendida como um fenômeno multifatorial, no qual se combinam fatores econômicos, políticos e comunicacionais. No entanto, parte relevante da atual turbulência decorre da convergência de temas sensíveis ligados a suspeitas de irregularidades e má gestão, amplamente repercutidos no debate público e institucional. Os efeitos da guerra no Irã, e o consequente aumento no preço do petróleo, ainda não foram captados pelas pesquisas.

Ainda que muitos desses episódios envolvam diferentes esferas de poder e estejam, em diversos casos, sob investigação ou apuração, seus efeitos tendem a recair de maneira mais intensa sobre o Executivo federal. Em contextos de elevada exposição midiática e baixa diferenciação institucional por parte de segmentos do eleitorado, é comum que crises envolvendo autoridades públicas sejam associadas, de forma mais direta, ao governo em exercício.

Por outro lado, há um elemento paradoxal nesse processo. Em diferentes situações recentes, o próprio governo federal tem desempenhado papel ativo na identificação e no enfrentamento de irregularidades, seja por meio de órgãos de controle, seja por iniciativas administrativas. Essa atuação, embora necessária do ponto de vista institucional, contribui para dar visibilidade a problemas estruturais que atravessam o Estado brasileiro.

Críticos do governo, contudo, apontam que parte dessas disfunções também pode estar relacionada a falhas de supervisão, desenho institucional ou decisões políticas tomadas ao longo do tempo, o que indica que a responsabilização não é necessariamente nem facilmente delimitável entre os Poderes nem entre os mandatos presidenciais.

Governo precisa enfrentar crises sem romper relações institucionais nem ampliar desgaste público.

Governo precisa enfrentar crises sem romper relações institucionais nem ampliar desgaste público.Ricardo Stuckert/PR

O dilema: comunicar sem romper

Diante desse cenário, o desafio central do governo não é apenas de gestão, mas de comunicação política. Em tese, uma estratégia possível seria enfatizar a distinção entre as atribuições dos diferentes Poderes, buscando esclarecer os limites de responsabilidade do Executivo, assim como esclarecer em que governante o problema teve início. Na prática, entretanto, essa primeira parte da abordagem, especialmente em relação aos poderes, encontra restrições relevantes.

A adoção de um discurso que explicite responsabilidades de outros Poderes pode ser interpretada como tensionamento institucional, especialmente em um ambiente no qual a governabilidade depende de negociações constantes com o Congresso Nacional e da estabilidade das relações com o Judiciário. Assim, a comunicação política passa a exigir calibragem fina entre transparência, preservação institucional e viabilidade política.

Nesse contexto, governos frequentemente recorrem a estratégias intermediárias, como o uso de porta-vozes técnicos, a segmentação da comunicação e a ênfase em respostas institucionais, evitando a personalização de conflitos entre Poderes. Ainda assim, o risco de associação negativa no plano da opinião pública permanece.

Configura-se, portanto, uma situação de difícil equação: ao buscar se desvincular de crises (com vistas ao impacto eleitoral), o governo pode gerar atritos institucionais; ao adotar postura mais cautelosa, preservando pontes políticas, pode permitir a consolidação de percepções negativas junto a parcelas do eleitorado. Ou seja, se correr o picho pega; se ficar, o bicho come.

Perspectivas e variáveis em aberto

O cenário tende a permanecer volátil no curto prazo, sobretudo em função do andamento de investigações e da dinâmica do noticiário político. Novos desdobramentos podem tanto aprofundar desgastes quanto reconfigurar responsabilidades percebidas pela opinião pública.

Do ponto de vista eleitoral, embora seja recorrente a observação de que muitos eleitores definem seu voto nas fases finais da campanha, esse comportamento varia conforme o contexto político, o nível de polarização e o grau de engajamento do eleitorado. Ainda assim, governos costumam apostar na capacidade de suas realizações e agendas propositivas influenciarem a decisão do voto no momento mais próximo às eleições.

Nesse sentido, a estratégia tende a combinar a gestão de crises no presente com a construção de uma narrativa baseada em entregas, resultados e perspectivas futuras. O sucesso dessa abordagem dependerá não apenas da eficácia das políticas públicas, mas também da capacidade de comunicação e da evolução do ambiente político-institucional.

Até lá, o governo seguirá diante do desafio de conciliar dois imperativos frequentemente tensionados: a necessidade de transparência e enfrentamento de problemas estruturais e a preservação das condições políticas para governar. Em outras palavras, sobreviver ao paradoxo de ser, ao mesmo tempo, o denunciante (e responsável pela solução do problema) e o principal atingido pelas denúncias.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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