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Antônio Augusto de Queiroz
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A sinuca de bico entre narrativa eleitoral e governabilidade política
Antônio Augusto de Queiroz
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A fabricação da desordem: o caso Master e a estratégia para 2026
Eleições 2026
14/4/2026 16:00
A eleição presidencial de 2026 pode ser influenciada de maneira significativa por um fator discreto, mas relevante: a rejeição a candidatos. Mais do que os programas de governo, os debates televisionados ou as alianças partidárias, o desfecho da disputa pode depender de aspectos mais subjetivos, relacionados a percepções e experiências recentes. O eleitor brasileiro poderá se ver diante de três referências: o receio de retrocessos, a lembrança de um passado controverso e os desdobramentos de gestões marcadas por tensões.
Em 2026, a polarização política deve continuar a definir o cenário, delimitando os dois principais contendores, que juntos podem concentrar entre 70% e 80% das preferências. De um lado, há eleitores que veem em Luiz Inácio Lula da Silva um líder voltado ao desenvolvimento, à inclusão social, à soberania nacional, à proteção ambiental e ao papel das estatais. Para esse grupo, Lula representa a defesa dos interesses brasileiros no plano internacional. De outro lado, há quem se identifique com Jair Bolsonaro e, mais recentemente, com seu herdeiro político, Flávio Bolsonaro, tendo como referências o conservadorismo nos costumes, a defesa da família, a oposição ao aborto, a centralidade da religião na vida pública e a restrição à união entre pessoas do mesmo sexo.
No entanto, o resultado da eleição pode não ser decidido apenas por esses grupos polarizados. Uma parcela menor, porém decisiva, formada por eleitores moderados, indecisos ou movidos pela rejeição a um dos lados, pode ter papel importante. Pequenas mudanças de opinião nesse grupo, de poucos pontos percentuais, seriam capazes de alterar o resultado final. A campanha que conseguir mostrar a esse eleitorado que a rejeição ao adversário é mais consistente ou urgente do que as reservas em relação ao próprio candidato poderá obter vantagem.
Para entender o dilema desse eleitor, é útil distinguir dois tipos de rejeição: uma de caráter existencial e outra de caráter cultural.
A rejeição existencial está ligada a aspectos concretos da vida das pessoas: o respeito à ciência, a defesa da democracia e das instituições, a garantia de justiça, a proteção de direitos humanos, trabalhistas e previdenciários, a preservação do meio ambiente e a luta contra a pobreza. Trata-se do receio de ver fragilizado o estado democrático de direito e de perder conquistas sociais construídas ao longo do tempo. Essa rejeição se apoia em fatos e em comportamentos observados.
Já a rejeição cultural se concentra mais em costumes, no uso da religião como instrumento político e em narrativas que circulam amplamente nas redes sociais. Exemplos disso são o temor de um "fechamento de igrejas" — que não ocorreu em governos Lula — ou a ideia de "banheiros unissex" — medida nunca adotada por nenhum governo federal — ou da "mudança de gênero" de adolescentes. Essas narrativas, por vezes, desviam o debate público de questões concretas para um campo mais abstrato de valores, onde a emoção e o pânico moral podem prevalecer sobre a análise objetiva.
Há ainda um aspecto que pode ganhar relevo em 2026: a proximidade da família Bolsonaro — e de Flávio em particular — com o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Flávio Bolsonaro, assim como o pai, tem demonstrado alinhamento às posições do político republicano. Isso levanta a questão de até que ponto uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro poderia ser influenciada por interesses externos. Críticos apontam que, em nome de uma aliança ideológica, o Brasil poderia, em tese, abrir mão de parte de sua autonomia em áreas estratégicas, como a Amazônia, a regulação digital, a política comercial, a exploração de recursos minerais e a condução das relações internacionais. A dúvida que se coloca é se o país seria governado prioritariamente para atender a interesses brasileiros ou de terceiros.
Esse é um ponto central da rejeição existencial em 2026 para alguns analistas: o receio de que um presidente brasileiro submeta os rumos do país a uma potência estrangeira. Em contraste, Lula, independentemente das avaliações sobre sua conduta ética, sempre se posicionou como defensor da soberania nacional e da autonomia nas relações externas. Essa diferença de postura pode pesar na decisão de eleitores moderados que valorizam a independência do país.
O que ocorreu em 2022 serve como referência. Na ocasião, o temor de ataques ao sistema eleitoral, de retrocesso institucional e de negacionismo científico mobilizou um arco amplo — da esquerda ao centro, incluindo setores da direita moderada, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso, a imprensa e parte do empresariado. O chamado "voto útil" anti-Bolsonaro prevaleceu no segundo turno. O receio de uma ruptura democrática e da gestão da pandemia falou mais alto, para muitos eleitores, do que a lembrança de episódios de corrupção associados ao passado. A percepção foi de que, para parte do eleitorado — especialmente populações mais vulneráveis, nordestinos e mulheres —, a ameaça à estabilidade, aos direitos sociais e à ordem democrática representou um fator de rejeição mais forte do que os riscos de desvios éticos.
Em contextos de alta polarização, o eleitor tende a decidir mais por percepções emocionais do que por análises exclusivamente racionais. A rejeição à pessoa do candidato muitas vezes vem primeiro; depois, busca-se uma justificativa racional em programas ou fatos políticos. Assim, em 2026, Flávio Bolsonaro deverá carregar parte da rejeição existencial associada ao governo anterior: o negacionismo em certas políticas públicas, posturas consideradas autoritárias por críticos e a suspeita — ainda em debate — de submissão a interesses estrangeiros. Lula, por sua vez, carregará a rejeição ética ligada a acusações de corrupção em gestões passadas, mas contará com a memória positiva de seu governo anterior, um amplo leque de realizações no atual mandato, a defesa da soberania e a ausência de comprovação de acusações de natureza cultural feitas por adversários.
Portanto, a eleição de 2026 pode não ser decidida por programas de governo lidos pelo eleitor, mas sim pela dinâmica da polarização e pelo peso da rejeição. A tendência é que vença o candidato menos rejeitado. E, repetindo o movimento de 2022, o receio de retrocesso institucional e social e de perda de soberania pode falar mais alto do que o medo da suposta prática de corrupção. A memória recente de uma quase ruptura democrática, somada ao instinto de preservação da autonomia nacional diante da possibilidade de subordinação externa, num momento em que conflitos internacionais de grande escala eclodem, tende a pesar mais do que as lembranças negativas de governos passados. Nessa relação entre medo, memória e herança, o que está por vir pode ter força de mobilização semelhante — ou maior — do que a insatisfação com o que já ficou para trás.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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