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Quem decidirá a eleição presidencial em 2026?

Em uma disputa marcada por rejeições, o voto decisivo estará nas mãos de quem não se identifica nem com o lulismo nem com o bolsonarismo.

Antônio Augusto de Queiroz

Antônio Augusto de Queiroz

17/6/2026 15:32

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A cada ciclo eleitoral, a pergunta que ecoa nas ruas, nos bares, nos centros de pesquisa e nas redações é sempre a mesma: quem decide, afinal, uma eleição presidencial polarizada no Brasil? A resposta, nestas eleições, aponta para uma figura específica: um eleitor típico de terceira via — aquele que rejeita tanto o bolsonarismo quanto o lulismo, que busca moderação, previsibilidade e segurança institucional, e que será o fiel da balança num eventual segundo turno. Mais do que rótulos ideológicos e programas de governo, o que define o voto nestas eleições será uma combinação de medo, rejeição e previsibilidade.

Neste jogo, caso não haja substituição de última hora, dois nomes dominam o tabuleiro: Flávio Bolsonaro, herdeiro político e natural sucessor da dinastia bolsonarista, e Luiz Inácio Lula da Silva, que busca consolidar seu legado histórico. Lula — que disputará sua sétima eleição em busca de seu quarto mandato — tem seu principal adversário nele mesmo: sua força eleitoral é superior à dos demais, mas o sentimento antipetista continua operando como um motor poderoso em favor da oposição.

Toda análise prospectiva, no entanto, esbarra em um limite intransponível: o Brasil de 2026 será feito também de variáveis que ainda não estão escritas. Economia, escândalos, redes sociais, alianças partidárias e decisões judiciais podem implodir qualquer cenário desenhado hoje. O quadro aqui traçado é o de forças estruturais; mas a eleição será ganha ou perdida também nas oscilações da conjuntura.

Para entendermos os desafios que se avizinham, é preciso classificar os atores políticos em jogo. A taxonomia tradicional – esquerda, centro-esquerda, direita, centro-direita e centro – já não dá conta da fragmentação real. Melhor seria adotar a chave utilizada pela pesquisa Genial Quest: lulista, esquerda não lulista, bolsonarista, direita não bolsonarista e independente. Sob essa lente, a eleição será decidida por dois grupos distintos.

Na primeira hipótese, a de uma polarização clássica entre Lula e Flávio Bolsonaro, o fiel da balança serão os eleitores da direita não bolsonarista e os independentes. São os que rejeitam o radicalismo bolsonarista — representado por Flávio, que carrega a pesada herança da gestão de seu pai, Jair Bolsonaro — mas também não se identificam com o lulismo. Para eles, votar em Flávio significa aceitar o negacionismo climático, os ataques ao sistema eleitoral e o antagonismo como método, ou até mesmo um alinhamento subserviente aos EUA, o que muitos rejeitam. Já votar em Lula significa aceitar um passado associado a supostas práticas de corrupção e irresponsabilidade fiscal. Na segunda hipótese, menos provável, caso uma terceira via se viabilize para disputa um eventual segundo turno com Lula, o fiel da balança serão os eleitores da direita não bolsonarista e da esquerda não lulista, já que o eleitorado majoritário dessa suposta terceira via seria de centro e centro-direita.

Voltando ao cenário central, o critério de desempate não será a simpatia programática, mas a rejeição comparada. O eleitor perguntará: "Qual dos dois me causa mais medo?"

O eleitor brasileiro se depara com dois tipos de rejeição, de naturezas distintas. O primeiro é a rejeição ético-moral em relação a Lula, enraizada no imaginário da Operação Lava-Jato e nas condenações que, embora posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, deixaram cicatrizes profundas — a prisão por 580 dias é um símbolo inevitável. Para uma parcela significativa do eleitorado — especialmente classes média e alta, Sul e Sudeste — Lula simboliza a promiscuidade entre Estado e grandes empreiteiras. Não se trata apenas de discordância ideológica; é uma rejeição que toca o caráter, a honestidade pessoal.

O segundo tipo é a rejeição existencial em relação a Flávio Bolsonaro. Diferente do caso Lula, a rejeição a Flávio é visceral, ligada ao medo do autoritarismo, da ruptura democrática e da violência institucionalizada. Flávio herda não apenas o capital político do pai, mas também os escândalos: rachadinhas, milícias digitais, declarações golpistas. Para milhões de brasileiros, votar em Flávio é temer pelo próprio futuro da democracia.

Esse cálculo de medos não ocorre no vácuo. Ele será realimentado por quatro variáveis conjunturais: a economia (crescimento com queda da inflação pode amortecer a rejeição a Lula; recessão pode empurrar o centro para Flávio); escândalos de última hora (uma delação pode transformar rejeições da noite para o dia); o ambiente digital (a eficácia da desinformação e sua regulação definirão se o centro vota com base em fatos ou fobias); e alianças e decisões judiciais (o nome do vice ou uma sentença de inelegibilidade podem deslocar blocos inteiros em uma semana).

Assim, o dilema do eleitor decisivo é cruel e volátil: votar em um candidato que supostamente representa risco à ética republicana (Lula) ou em um que representa risco à própria democracia (Flávio)? A resposta dependerá de qual medo for mais imediato no momento do voto, mas também de como a economia, os escândalos, as redes sociais e as alianças tiverem moldado esse medo.

Mais do que propostas, a disputa presidencial tende a ser definida pela capacidade dos candidatos de reduzir rejeições e transmitir previsibilidade.

Mais do que propostas, a disputa presidencial tende a ser definida pela capacidade dos candidatos de reduzir rejeições e transmitir previsibilidade.Magnific

Lula entra nessa disputa com um peso maior nas costas. Não basta ser ex-presidente com aprovação recorde. Ele, como incumbente, terá de enfrentar três desafios monumentais.

O primeiro é vencer a rejeição ético-moral alimentada pelo moralismo da classe média: como convencer o eleitor que ainda vê nele o réu da Lava-Jato de que seu governo será transparente e de que não teve envolvimento em escândalos como as fraudes do INSS e do Banco Master? Isso exigirá gestos públicos de humildade e uma equipe econômica de alto prestígio.

O segundo desafio é dialogar com setores evangélicos que associam o PT a pautas incompatíveis com suas convicções religiosas e familiares. Lula terá de encontrar uma linguagem que acene à liberdade religiosa sem abrir mão de pautas progressistas e da laicidade do Estado — um equilíbrio delicado em um país onde a bancada evangélica é cada vez mais poderosa.

O terceiro desafio é evitar a abstenção dos mais pobres. O eleitor lulista tradicional pode se desmobilizar por desencanto, cansaço ou sensação de que sua vida não melhorou na mesma proporção das promessas. A abstenção, mesmo em percentuais baixos como dois ou três pontos, pode decidir uma eleição apertada.

Do lado de Flávio Bolsonaro, a situação também é delicada. Ele será avaliado por seu próprio histórico — senador envolvido em suspeitas de desvio de recursos, quebra de decoro e ligações com milícias, além de ausência de resultados legislativos — e, mais ainda, pela herança da gestão de Jair Bolsonaro. Essa herança é ambivalente: por um lado, há o núcleo duro que aprova o "pai" como símbolo de combate ao politicamente correto e à esquerda; por outro, há a rejeição majoritária à gestão da pandemia — que resultou em mais de 700 mil mortes — ao desastre ambiental na Amazônia, à retirada de direitos e à retórica golpista. Flávio Bolsonaro terá de provar que é mais "governável" que o pai, mostrando capacidade de diálogo com o Congresso, o STF e a imprensa. Se for apenas uma cópia do pai, perde o centro; se se moderar demais, perde a base bolsonarista. Eis seu dilema existencial.

Já Lula será julgado também pelo legado de seus três mandatos. Seu trunfo é incontestável: inclusão social, valorização do salário-mínimo, redução da fome. Segundo os opositores, suas fragilidades são: alianças fisiológicas, aparelhamento do Estado e fama de gastador. Em um eventual quarto mandato, ele não pode repetir os erros do passado. O Brasil mudou; há um teto de gastos, um mercado mais maduro e uma sociedade menos tolerante a desvios de conduta.

Em síntese, o fiel da balança na eleição presidencial será o eleitor que ainda não definiu seu voto – aquele situado na direita antipetista, porém não alinhada a Bolsonaro, e também o independente ou de centro. Sua decisão dependerá de três pilares: o medo, a rejeição e a previsibilidade (ou a capacidade de antecipar cenários). Caso esses fatores, somados ao receio de um enfraquecimento institucional, prevaleçam – como ocorreu em 2022 –, o centro tenderá a apoiar Lula. Se o temor em relação a eventuais deslizes éticos, à expansão do Estado assistencialista e a um pretenso abalo aos valores tradicionais falar mais alto – à semelhança de 2018 –, o voto se voltará para Flávio. Uma candidatura alternativa que consiga personificar a moderação ainda pode surpreender, embora não haja indícios concretos disso no momento.

A tudo isso se somam os imponderáveis conjunturais. Economia, escândalos, redes sociais, alianças e decisões judiciais podem, sozinhos, explicar uma virada de mesa. Uma coisa é certa: não será uma eleição sobre propostas, mas sobre fobias. O candidato que conseguir convencer o centro de que seu governo será menos assustador do que o do adversário levará a melhor.

Lula precisa se vacinar contra a rejeição moral, contra a rejeição de setores evangélicos, contra a rejeição da classe média por questões fiscais e contra a abstenção dos mais pobres. Flávio Bolsonaro, contra a rejeição existencial. E o Brasil precisa evitar o "falso dilema entre dois abismos" e resgatar a esperança e a confiança em dias melhores.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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