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Fernando Haddad Moura
Fernando Haddad Moura
Política
27/10/2026 11:00
Quase dois terços dos deputados que tomarão posse em fevereiro de 2027 já conhecem o Plenário da Câmara. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dos 513 eleitos, 301 foram reeleitos e outros 29 são ex-deputados que voltam à Casa. Isto é, mais de 64% dos eleitos renovaram seus mandatos, número superior ao 61% registrado na última eleição.
As continuidades não param por aí. Em um país de maioria negra e feminina, ainda teremos uma Câmara dos Deputados majoritariamente branca e masculina, em um contraste que tem historicamente desafiado nossa democracia. Pela primeira vez, o número de deputados negros diminuiu, e, apesar do tímido recorde de 109 mulheres eleitas, quatro em cada cinco cadeiras seguirão ocupadas por homens.
Se a Câmara mudou pouco no perfil demográfico, por que temos a sensação de que o Congresso virou outro? A resposta parece estar na mudança do equilíbrio de forças. Pela primeira vez desde a nossa redemocratização, o famoso Centrão diminuiu de tamanho. Esse grupo de parlamentares pragmáticos e mais conectados aos interesses dos territórios que representam do que a um debate ideológico-programático perdeu espaço para uma direita mais radicalizada. Considerado o verdadeiro fiel da balança da governabilidade, o Centrão, agora reduzido, tende a dificultar a formação de uma base de apoio no novo governo Lula e a aumentar o custo político das relações entre Executivo e Legislativo.
O principal sinal dessa mudança está no desempenho do PL, que passou de 97 para 121 deputados, se tornando a maior bancada partidária na Câmara desde 1990, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP). Parte desta expansão começou antes da eleição,ainda no momento da janela partidária, quando o PL saltou de 87 para 98 deputados, com transferências majoritariamente vindas do União Brasil e do PSD, dois dos principais partidos do Centrão. Ao todo, 20 parlamentares trocaram de legenda para disputar a eleição pelo partido, e 11 deles foram eleitos.
O dado sugere uma movimentação pragmática: reunindo a maior verba de campanha e com alta demonstração de força nos últimos pleitos, o PL foi visto por esses deputados como o partido com maior viabilidade eleitoral. Para a maioria deles, a aposta se confirmou. Com R$881 milhões do Fundo Eleitoral de 2026, o maior valor entre os 30 partidos, o PL recebeu 67% mais que o União (R$ 526 milhões) e mais que o dobro do PSD (R$421 milhões).
A assimetria também aparece entre os candidatos: um levantamento do Congresso em Foco mostra que os eleitos arrecadaram R$ 1,17 bilhão e os não eleitos, R$ 2,22 bilhões — só que esses últimos eram 13 vezes mais numerosos. Na média, cada eleito arrecadou cerca de sete vezes mais que um derrotado, quase R$ 2 milhões de diferença por candidato. É um ciclo que se retroalimenta: a força nas urnas garante verba, e a verba financia campanhas mais competitivas, aumentando a força nas urnas.
Outra parte desta expansão pode ser explicada pelas mudanças nas campanhas, cada vez mais dependentes do desempenho digital. Nestas eleições, nove dos dez deputados federais mais votados têm menos de 40 anos e são verdadeiros fenômenos nas redes sociais. No PL, Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) tiveram sozinhos mais de 3 milhões de votos cada. O primeiro ultrapassa os 20 milhões de seguidores no Instagram, enquanto o segundo supera os seis milhões. Sozinho, Nikolas teve uma votação que assegurou 13 cadeiras para a legenda. Esse fenômeno não se restringe à direita. Nos partidos de esquerda, Ana Elisa (PT-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP) foram as mulheres mais votadas de seus Estados, renovando a forma como esse campo se comunica no universo digital.
As duas mudanças se reforçam. Campanhas que premiaram o engajamento digital favorecem candidatos capazes de mobilizar milhões de seguidores em torno de pautas de forte carga ideológica. Ao mesmo tempo, um Congresso com polos maiores e um centro menor tem menos espaço para o diálogo e a negociação pragmática que historicamente destravava votações. O efeito provável é uma legislatura de negociações ainda mais difíceis, em que os debates tendem a se voltar a temas que despertam paixões ideológicas e rendem engajamento.
Nesse cenário, dois perfis devem se dar bem no Congresso nos próximos anos. O primeiro é daqueles que souberem aproveitar o potencial das redes sociais e transformar o debate digital em resultado legislativo, replicando fórmulas de sucesso como a que levou à aprovação do fim da escala 6x1 neste ano — uma combinação entre mobilização nas redes e uma complexa articulação política envolvendo governo, Câmara e Senado.
O segundo é daqueles que conseguem costurar pontes inesperadas, conectando nomes que estão em espectros opostos do debate político em consensos compartilhados. Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) é um exemplo dessa atuação. Como relator do Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten), aprovado em dezembro de 2024, conseguiu viabilizar uma proposta com apoio do PT e de partidos de centro e centro-direita, criando o fundo de garantia para projetos de energia de baixo carbono.
O segundo turno presidencial, no último domingo, deu a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o quarto mandato no Palácio do Planalto, mas a vitória não resolve, por si só, a relação entre Executivo e Legislativo. O presidente governará com uma Câmara mais à direita, na qual o PL tem 121 cadeiras e a federação PT/PCdoB/PV, 88, e com um Senado em que o PL tem a maior bancada. Sem maioria própria e com um Centrão menor, a governabilidade dependerá de negociações caso a caso. O desafio da próxima legislatura é transformar essa nova correlação de forças em poder efetivo, o que passa pela disputa das presidências das Casas e das comissões, pela distribuição das relatorias, pela definição das prioridades da agenda e pela negociação dos recursos do orçamento. Em 2027, os rostos serão em grande parte os mesmos. O jogo político, não.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.
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