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A voz das urnas e um olhar para o futuro

Reeleição histórica de Lula não elimina a polarização política nem as dificuldades de governabilidade. Direita fortalecida, Centrão decisivo e necessidade de renovação partidária marcam o cenário até 2030.

Marcus Pestana

Marcus Pestana

31/10/2026 8:00

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Fechadas as urnas, proclamado o resultado, é hora de encarar a agenda brasileira para os próximos quatro anos. O importante é a democracia brasileira ter se mostrado revigorada ao realizar a 10ª eleição livre e democrática da Nova República. Os desafios não são poucos.

Quais são os recados deixados pelas urnas? Qual são os impactos e os cenários futuros?

Como ficou a sociedade, que é a única personagem permanente, já que partidos políticos e líderes passam? A sociedade sobrevive anos, décadas, séculos. Processa mudanças, renova energias, supera crises e dificuldades. A sociedade brasileira saí das eleições com a calcificação da polarização – termo criado pelo professor Felipe Nunes – reafirmada e fortalecida. A fratura do tecido social ficou exposta num resultado apertado, fruto mais de rejeições do que de identidades. Os fatos ocorridos, nos dias posteriores ao resultado, renovaram a percepção radicalizada de parte importante da opinião pública, fortaleceram teorias da conspiração, nublaram o triunfo do vitorioso e trouxeram novamente o STF para o centro dos holofotes.

Como ficam Lula, o PT e a esquerda? Foi uma virada espetacular, inédita e improvável, a partir de forte mobilização digital e de rua no segundo turno. Maquiavel dizia que o "bom Príncipe" deveria ter sorte e virtude. É inegável que Lula é possuidor das duas características. Passará inegavelmente para a história como o maior político da Nova República. Uma estatura que o coloca ao lado de Vargas, JK e FHC. Mas ele é o único quatro vezes eleito presidente da República. É o fim de um ciclo geracional. Uma nova era será aberta em 2030. E o PT e a esquerda terão que se reinventar no pós-Lula.

O PT e a esquerda elegeram apenas quatro governadores, todos no Nordeste. Ficaram mais ou menos do mesmo tamanho no Senado e na Câmara. PDT e Cidadania caminharam para o desfecho de suas trajetórias ao não alcançar a cláusula de desempenho. O PSB saiu menor. O PSOL consolidou-se como alternativa crítica à esquerda do PT. A vitória heroica de Lula não deve obscurecer a necessidade de o PT e a esquerda repensarem seu futuro, dando voz à nova geração que chegou. Rafael Fonteles e Camilo Santana parecem representar um PT mais moderno e arejado.

Eleições de 2026 redesenham a política brasileira até 2030.

Eleições de 2026 redesenham a política brasileira até 2030.Fernando Frazão/Agência Brasil

A direita venceu os principais governos estaduais, fez maioria no Senado e expressiva bancada na Câmara dos Deputados. Foi portadora de verdadeiros fenômenos eleitorais e digitais como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, André Fernandes e Julia Zanata, entre outros. Venceu surpreendentemente, com Flávio Bolsonaro, o primeiro turno nas eleições presidenciais. Tudo indica que a campanha tenha subido no salto alto ao achar que a parada já estava ganha.

Erros foram cometidos nos debates e no pós-campanha. Com a fuga de Flávio para o exterior, a família Bolsonaro dever perder peso relativo no espectro da direita, apesar de ter elegido Michele e Carlos, senadores, e Jair Renan, deputado federal.

Uma nova e forte direita deverá surgir sob a liderança de Tarcísio de Freitas, governadores conservadores e expoentes parlamentares como Rogério Marinho e Tereza Cristina. Mais uma vez, os jovens campeões de voto jogarão papel essencial nesta construção.

O Centrão, que não cultiva projeto presidencial de poder, continuará desempenhando seu papel de pêndulo da governabilidade. Os partidos deverão compor o ministério e a relação com Lula continuará entre "tapas e beijos". Davi Alcolumbre e Hugo Mota terão espaço decisivo neste enredo.

Já o Centro Democrático encolheu e se assustou, assim como o Centrão, com o desempenho das celebridades digitais, que roubaram preciosas cadeiras no Parlamento. PSD, MDB e PSDB têm que repensar seus caminhos, reconstruir seu futuro. Quem sabe com uma fusão partidária que os fortaleça. Novos atores como Raquel Lyra, Helder Barbalho, JHC, Eduardo Leite, Daniel Vilela poderão produzir renovação de ares e reconstruir, quem sabe, um projeto de poder em 2030.

Lula terá grandes limitadores em seu quarto mandato: minoria no Congresso; estrangulamento fiscal; crise institucional renovada envolvendo sociedade, Congresso e STF; e, um cenário internacional desafiador. Cabe a ele, do alto de seus 81 anos e de sua experiência vitoriosa, exercer ao máximo suas virtudes e não abusar da sorte. Não seria mal se em seu descanso da campanha ele lesse "O Príncipe" e a "Arte da Guerra".


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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