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3/12/2020 | Atualizado 10/10/2021 às 16:29

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Makota Celinha, candomblecista e militante do movimento negro, nos preparativos para as cerimônias religiosas. [fotografo] Mariana Maiara [/fotografo]

Makota Celinha, candomblecista e militante do movimento negro, nos preparativos para as cerimônias religiosas. [fotografo] Mariana Maiara [/fotografo]
No momento em que escrevo, a atual administração da Fundação Cultural Palmares encabeçada por Sérgio Camargo retira oficialmente da Fundação nomes de personalidades negras como Conceição Evaristo, Vovô do Ilê e Lea Garcia. Há uma disputa narrativa em curso e por isso, não se calar, no meu caso fotografar, se faz urgente. Na tradição africana o Sankofa, pássaro que volta a cabeça à cauda, simboliza o retorno ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro e assim foi minha ida ao Quilombo de Palmares. Cheguei à Alagoas para o 20 de novembro em 2018 com a câmera à tiracolo e um universo de imagens na cabeça. Eu, uma mulher negra de axé, ali com meus 26 anos, via no caminho entre o aeroporto e o hotel, que fica na orla de Maceió, diferentes e impactantes realidades de vida que qualquer fotógrafo pensaria em voltar para fotografar. Eu apenas registrei mentalmente e, instantaneamente, aquelas fotografias e recordei o motivo de minha ida: Dia da Consciência Negra. Viajar para documentar fotograficamente o 20 de novembro me fez questionar se tudo não passava de um sonho distante. Aquela luta representada por Zumbi, Aqualtune e outros, tinha permitido que no século 21 eu tivesse quebrado barreiras que seriam intransponíveis há pouco tempo. Sei que faço parte de uma exceção que confirma a regra. A pobreza que vi era o resultado do plano de Estado de manter o povo preto à margem. > Mulheres negras e poder: um novo ensaio sobre as vitórias Aquelas imagens que vi pela janela do carro não eram meu objeto. Como objetificar a mim mesma? Eu não poderia reproduzir o mesmo olhar branco e elitista que explora a miséria e a violência ao povo preto. Eu estava ali, dentro da complexidade que é lidar com os contrastes, mas certa de que ao produzir registros fotográficos, deveria fazê-lo a partir de um olhar afrocentrado. Explico: a diferenciação entre a mera captura e a construção de uma linguagem fotográfica pelo fotógrafo está em como se constrói a imagem, ou seja, como os espaços são preenchidos com formas e cores, qual será o enquadramento e quem será enquadrado, e o principal, qual unidade e sentido está sendo produzido. Assim, embora a câmera seja o instrumento de captura, as fotografias são feitas através do olhar, ou seja, há uma escolha em retratar o que se vê a partir das experiências de vida.  Ao fazer essas escolhas o fotógrafo cria uma linguagem que possui inúmeros códigos e essa linguagem fotográfica só é decodificada porque a sociedade atribuí sentido à composição dos elementos. [caption id="attachment_470722" align="alignnone" width="1250"] Quilombo de Palmares abrigou mais de 20 mil pessoas entre negros, indígenas e brancos. Foto: Mariana Maiara.[/caption] O ato de fotografar produz uma memória coletiva, social e individual e o questionamento sobre o que somos, o que testemunhamos e quem esteve presente são indicativos de que a fotografia é um instrumento de comunicação e como diria Januário Garcia: um veículo de transformação social. Eu estava naquele espaço sagrado para construir memória e dar continuidade ao que Januário Garcia, meu mestre e um dos maiores fotógrafos negros desse país, havia iniciado a mais de 40 anos. Registrar momentos a partir do meu olhar, da minha experiência e crenças, baseado em arcabouços que me atravessavam como negra e mulher. Isso significava criar uma narrativa visual de modo a valorizar a imagem de um povo que historicamente sofreu tentativas de invisibilização e foi estereotipado. Seria jogar luz sobre as imagens que furtaram de minha mãe, avó e tantas mulheres negras, nossas ancestrais, que não (ou pouco) puderam usufruir e construir como memória. Em uma história que nos furtou da construção de autoimagem, pisar com os pés descalços na terra de Zumbi e Dandara me fez ter a certeza de que eu nasci para fotografar e que  era parte de um sonho que se iniciou não em mim, mas em mulheres negras como eu e homens negros como Januário que resistiram por séculos para que você, nós, estivéssemos aqui fazendo/escrevendo  história. Escrevo com a luz. Construo subjetividades. Conto histórias em imagens, para que não nos imponham mais uma narrativa que não nos contempla. O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected]. > Leia mais textos da coluna Olhares Negros.
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Fundação Palmares fotografia quilombo Sérgio Camargo Olhares Negros Mariana Maiara Palmares

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