Entrar

    Cadastro

    Notícias

    Colunas

    Artigos

    Informativo

    Estados

    Apoiadores

    Radar

    Eleições 2026

    Quem Somos

    Fale Conosco

Entrar

Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosEleições 2026RadarPrêmio
  1. Home >
  2. Artigos >
  3. STF e o maior escândalo institucional da história | Congresso em Foco

Publicidade

Publicidade

Receba notícias do Congresso em Foco:

E-mail Whatsapp Telegram Google News

Supremo

STF e o maior escândalo institucional da história

A atual crise de confiança talvez seja a melhor janela de oportunidade para questionar que Supremo queremos construir para o próximo século e quem queremos que esteja sentado nessas onze cadeiras.

Larissa Alfino

Larissa Alfino

Natasha Pegoraro

Natasha Pegoraro

23/9/2026 16:00

A-A+
COMPARTILHE ESTE ARTIGO

Há momentos em que uma instituição é obrigada a olhar para si mesma. As crises de confiança e os episódios que colocam em xeque a credibilidade de uma Corte tão central à democracia brasileira fazem parte desse debate. Mas há uma pergunta anterior: o que acontece quando uma instituição responsável por interpretar a Constituição e decidir sobre questões que atravessam toda a sociedade deixa de se parecer com a sociedade que representa?

O Supremo Tribunal Federal existe há mais de um século. Nesse período, apenas três mulheres chegaram à Corte: Ellen Gracie, em 2000; Cármen Lúcia, em 2006; e Rosa Weber, em 2011. Desde então, nenhuma outra mulher foi nomeada. Com a aposentadoria de Rosa Weber, Cármen Lúcia tornou-se a única mulher entre os 11 ministros do STF. As três chegaram ao Supremo depois de trajetórias consolidadas no Direito e ocuparam posições de enorme responsabilidade. Ellen Gracie foi a primeira mulher a presidir a Corte. Cármen Lúcia presidiu o Tribunal Superior Eleitoral e o próprio STF. Rosa Weber, magistrada de carreira, também chegou à presidência do Tribunal.

Três mulheres em mais de um século. Nenhuma mulher negra jamais ocupou uma dessas cadeiras. Isso também é um escândalo institucional.

Para uma mulher ocupar um espaço historicamente masculino, a régua frequentemente parece ser outra.

Para uma mulher ocupar um espaço historicamente masculino, a régua frequentemente parece ser outra.Gabriela Biló/Folhapress

Os dados mais recentes do Conselho Nacional de Justiça ajudam a dimensionar a desigualdade: mulheres são 41,1% dos juízes, 26,7% dos desembargadores e apenas 18,1% dos ministros dos Tribunais Superiores. Quanto mais se sobe na estrutura de poder, menor se torna a presença feminina. Não é apenas uma fotografia da composição atual. É o resultado de uma história em que os espaços de autoridade foram construídos e ocupados predominantemente por homens. Durante séculos, foram eles que definiram regras, estabeleceram redes, ocuparam posições de liderança e determinaram, muitas vezes, quais trajetórias seriam reconhecidas como legítimas.

O poder não se distribui apenas por cargos. Ele também se reproduz por expectativas, códigos de pertencimento e critérios de reconhecimento. Por isso, a questão não é apenas quem consegue chegar ao topo, mas quais caminhos são considerados naturais para chegar até lá. Para uma mulher ocupar um espaço historicamente masculino, a régua frequentemente parece ser outra. Não basta ser competente: é preciso provar a competência. Não basta ter trajetória: é preciso justificá-la. Não basta ocupar o cargo: é preciso demonstrar, repetidamente, que se merece estar ali.

É por isso que as três mulheres que passaram pelo Supremo importam. Não porque mulheres decidam necessariamente melhor, nem porque compartilhem uma única maneira de exercer a magistratura. Elas importam porque suas trajetórias desmontam uma ideia ainda persistente: a de que autoridade, liderança e excelência seriam atributos naturalmente associados aos homens. O que foi historicamente excepcional não foi a capacidade das mulheres de ocupar esses espaços. Foi a oportunidade de alcançá-los.

É nesse ponto que o debate sobre a confiança no Supremo encontra uma discussão maior sobre a própria instituição. Se estamos falando de legitimidade, de códigos de poder e da relação entre a Corte e a sociedade, também precisamos olhar para quem compõe essa instituição. Diversidade, por si só, não garante decisões melhores. Mas muda as experiências presentes na sala, as perguntas que podem ser feitas e aquilo que deixa de parecer natural. Não porque mulheres pensem de uma determinada maneira, mas porque nenhum grupo deveria ser tomado como padrão natural para exercer a autoridade de todos.

Imagine, então, o próximo século do Supremo. Uma Corte em que mulheres sejam parte expressiva de sua composição. Não apenas quando o tema for violência, maternidade ou direitos das mulheres, mas também nas decisões sobre economia, democracia, tecnologia, liberdade, segurança e todos os demais assuntos que definem o país. Uma Corte em que uma ministra não precise ser pioneira, símbolo ou exceção. Em que sua trajetória não seja submetida a uma prova permanente de excepcionalidade. Em que ela possa exercer autoridade sem carregar sozinha a responsabilidade de representar todas as mulheres que ainda não chegaram.

Porque representação importa não apenas por quem ocupa uma cadeira, mas pelo que sua presença torna possível discutir, questionar e transformar. Talvez o verdadeiro exercício de imaginação não seja pensar, no futuro, em mais uma mulher chegando ao Supremo. Seja imaginar um Supremo que já não precise tratar a presença de mulheres como um acontecimento extraordinário. E, nesse cenário, a pergunta deixa de ser "quem será a quarta ministra?" e passa a ser outra: o que ainda precisaremos mudar para que ela não seja a última?


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

Siga-nos noGoogle News
Compartilhar

Tags

representatividade feminina mulheres na política Supremo Tribuna Federal STF

Temas

Direito das Mulheres
ARTIGOS MAIS LIDOS
Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosFale Conosco

CONGRESSO EM FOCO NAS REDES