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ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA
Congresso em Foco
12/5/2026 7:02
A Lei Áurea percorreu o Congresso em poucos dias até ser sancionada pela princesa Isabel, em 13 de maio de 1888. A rapidez da votação final, porém, encobre uma história parlamentar muito mais longa. Antes dos dois artigos que extinguiram a escravidão no Brasil, o tema passou pela Constituinte de 1823, por projetos contra o tráfico de africanos escravizados, por comissões sobre o chamado "elemento servil", por leis de emancipação gradual e por propostas derrotadas sob pressão dos interesses da lavoura.
O projeto definitivo da abolição foi enviado ao Parlamento numa terça-feira, aprovado pela Câmara na quinta, pelo Senado no domingo e sancionado no mesmo dia. A velocidade da etapa final contrasta com uma travessia de mais de seis décadas.
Um dos primeiros marcos desse percurso veio em 1823, quando José Bonifácio de Andrada e Silva formulou uma representação em defesa do fim gradual da escravidão. O texto não se converteu em lei. A Assembleia Constituinte foi dissolvida por dom Pedro I, e a Constituição de 1824 não enfrentou diretamente o problema.
Dali até 1888, a discussão atravessou diferentes fases: o combate ao tráfico transatlântico, a tentativa de limitar abusos do cativeiro, a disputa sobre a liberdade dos filhos de mulheres escravizadas, os projetos sobre o "elemento servil" e, por fim, o embate entre abolição gradual, indenização aos senhores e liberdade imediata. Esse percurso desmonta a ideia de que a Lei Áurea nasceu de um ato isolado. A assinatura de 13 de maio encerrou juridicamente a escravidão, mas foi precedida por décadas de disputa política, econômica e social.
O tráfico foi o primeiro alvo
A primeira frente de combate parlamentar não mirou diretamente a escravidão dentro do país, mas a entrada de novos africanos escravizados. Em 1826, o deputado Clemente Pereira apresentou projeto contra o comércio de escravizados. Em 1831, uma lei declarou livres os africanos trazidos ilegalmente ao Brasil e previu punição aos importadores.
A norma de 1831 se tornaria símbolo de uma legislação formalmente antitráfico, mas pouco eficaz na prática. O tráfico continuou por anos. A repressão mais efetiva só veio em 1850, com a Lei Eusébio de Queirós, cuja ementa, registrada pela Câmara, estabelecia medidas para reprimir o tráfico de africanos no Império.
A lei de 1850 não aboliu a escravidão, mas atingiu uma de suas bases: a reposição externa da mão de obra cativa. Com o tráfico fechado, o sistema escravista passou a depender cada vez mais da reprodução interna. A partir daí, o centro do debate parlamentar passou a ser o nascimento de crianças já submetidas ao cativeiro.
Do ventre livre ao "elemento servil"
Em 1865, o Visconde de Jequitinhonha, senador pela Bahia, apresentou projeto que antecipava pontos da futura Lei do Ventre Livre. Em 1870, a Assembleia Geral criou uma comissão para estudar a questão servil. No ano seguinte, o Parlamento aprovou a Lei nº 2.040, de 28 de setembro de 1871, que declarou livres os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir daquela data.
A liberdade, no entanto, veio cercada de tutela. O senhor da mãe poderia entregar a criança ao Estado aos 8 anos e receber indenização, ou explorar seus serviços até os 21 anos. A lei rompia com a hereditariedade automática da escravidão, mas preservava a lógica de compensação ao proprietário.
A resistência foi organizada. Documentos do Senado mostram que entidades de fazendeiros, entre elas o Clube da Lavoura, enviaram representações contra o projeto, reunindo cerca de 2 mil assinaturas. A crítica recorrente era econômica: a emancipação, diziam os opositores, poderia desorganizar o trabalho, atingir a produção e ameaçar a estabilidade do Império.
No Senado, o Barão das Três Barras tentou se afastar da defesa moral da escravidão, mas sustentou a importância econômica da lavoura. "Não se pense que defendo a legitimidade da escravidão", afirmou. Em seguida, apresentou os lavradores como base fiscal do Estado: "Os lavradores são os únicos que trabalham para encher os cofres públicos."
O senador Joaquim Antão, de Minas Gerais, recorreu a uma imagem forte para criticar a pressa emancipacionista. Comparou o movimento a uma locomotiva que, sem cautela, poderia sair dos trilhos e lançar "ao abismo todos os passageiros". A metáfora traduzia um dos temores centrais dos proprietários: o de que a libertação escapasse ao controle da elite política e dos senhores de escravizados.
Década de 1880 acirra disputa
Nos anos 1880, a pressão abolicionista ganhou força e o debate parlamentar se tornou mais agudo. Em 1884, o Projeto Dantas, apresentado por Rodolfo Dantas e relatado por Rui Barbosa, buscou avançar na emancipação. O ponto mais sensível, segundo registros históricos do Senado, era a ausência de indenização ampla aos proprietários.
A proposta enfrentou forte reação e acabou derrotada. Depois dela, uma alternativa mais conservadora ganhou espaço. O Projeto Saraiva substituiu o Dantas e introduziu uma compensação ao senhor, paga pelo próprio liberto sexagenário por meio de prestação de serviços.
Essa lógica chegou à Lei dos Sexagenários, de 1885. A norma libertava pessoas escravizadas com 60 anos ou mais, mas as obrigava a trabalhar para os antigos senhores por até três anos "a título de indenização pela sua alforria".
A sequência revela o padrão do Parlamento imperial. A escravidão era gradualmente limitada, mas quase sempre com freios: tutela, prazos, indenização, serviço obrigatório, controle de domicílio e repressão a libertos sem ocupação. A abolição avançava, mas acompanhada de mecanismos destinados a proteger a lavoura e reduzir perdas dos proprietários.
A ruptura de 1888
A ofensiva final começou em 3 de maio de 1888, quando a princesa Isabel abriu o ano parlamentar afirmando que a extinção do "elemento servil" era uma aspiração nacional. Em 8 de maio, o ministro da Agricultura, Rodrigo Augusto da Silva, apresentou a proposta de extinção da escravidão.
O deputado pernambucano Joaquim Nabuco, um dos principais nomes da luta abolicionista no país, pediu a dispensa de formalidades para acelerar a votação. Segundo registro da Câmara, ele defendia que a proposta fosse votada com a urgência da "maior das necessidades públicas".
A Câmara aprovou o projeto em 10 de maio. O artigo 1º, que declarava extinta a escravidão no Brasil, passou contra votos de parlamentares como Barão de Araçagy, Bulhões de Carvalho, Castrioto, Pedro Luiz, Bezamat, Alfredo Chaves, Lacerda Werneck, Andrade Figueira e Cunha Leitão. O Senado aprovou a proposta no dia 13 de maio, e Isabel sancionou a lei no mesmo dia.
O texto final foi curto. A Lei nº 3.353 declarou extinta a escravidão no Brasil e revogou disposições em contrário. Não previu transição, indenização aos proprietários nem política de integração para os libertos.
A lei passou; a disputa continuou
A aprovação da Lei Áurea não foi unânime. Houve votos contrários na Câmara e no Senado. Na reta final, a resistência já não se apresentava apenas como defesa aberta do cativeiro. Ela vinha embalada em argumentos sobre propriedade, segurança jurídica, lavoura, produção e risco econômico.
O Barão de Cotegipe, uma das principais vozes escravistas no Senado, advertiu que a abolição imediata provocaria crise. "A crise será medonha", disse. Também falou em "perturbação enorme" no país. Paulino de Souza, senador pelo Rio de Janeiro, associou o trabalho escravizado à organização econômica nacional e chamou o Vale do Paraíba de "oficina da riqueza nacional".
O Congresso foi, portanto, palco decisivo da abolição, mas não de uma marcha linear. O Parlamento combateu o tráfico tardiamente, aprovou o ventre livre com tutela, libertou sexagenários com serviço obrigatório e só rompeu definitivamente em 1888, quando a escravidão já estava cercada pela pressão social, pelas fugas, pelos clubes abolicionistas, pela imprensa e pela crise do próprio sistema escravista.
A Lei Áurea foi a ruptura jurídica. A longa rota até ela mostra outra coisa: a liberdade venceu no Parlamento depois de décadas de concessões aos interesses dos senhores.
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