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NEGROS NO CONGRESSO
Congresso em Foco
14/8/2026 | Atualizado às 16:14
A deputada Carol Dartora (PT-PR), primeira mulher negra do Paraná eleita para a Câmara, aposta nas eleições de 2026 para ampliar uma representação que considera ainda insuficiente no Congresso Nacional. Para ela, aumentar a bancada negra não é apenas uma questão simbólica, mas de participação política e acesso aos espaços de decisão.
"Não existe democracia enquanto essa sub-representação não seja vencida", afirmou Dartora em entrevista exclusiva ao Congresso em Foco. "A gente não está falando só de representatividade, a gente está falando de participação política e de transformação institucional."
Dartora considera que o país já vive um processo de mudança. Eleita com 130.654 votos em 2022, a petista também foi a primeira vereadora negra de Curitiba. Na atual legislatura, acompanhou a institucionalização da bancada negra da Câmara, criada em novembro de 2023 e com representação no Colégio de Líderes.
"Eu costumo dizer que a gente está num momento de virada histórica", afirmou a deputada, candidata à reeleição em outubro. "Somos nós quebrando barreiras históricas dessa sub-representação. Meu Estado nunca tinha tido uma representação com a minha cara. Estamos transformando a história, recontando a história, entrando nesses espaços pela primeira vez e abrindo caminhos para que outros possam vir."
A deputada cita como resultado concreto dessa organização a nova legislação de cotas no serviço público federal, da qual foi relatora. Segundo ela, a articulação da bancada negra foi fundamental para ampliar de 20% para 30% o percentual reservado.
Dartora também lembra da atuação da deputada Benedita da Silva (PT-RJ) no Supremo Tribunal Federal para garantir distribuição proporcional de recursos eleitorais às candidaturas negras.
"Não se faz uma campanha sem dinheiro. Ter acesso ao Fundo Especial de Campanha é muito importante. E essa ampliação desse acesso se deu pela atividade direta de uma parlamentar negra", disse. Em 2026, ao menos 30% dos recursos dos fundos Partidário e Eleitoral destinados às campanhas deverão financiar candidaturas negras.
Fraudes e disputa por espaço
Dartora afirma, porém, que os partidos ainda resistem às cotas e relata casos de candidatos que se autodeclaram negros para acessar recursos destinados às políticas de reparação. Ela destaca a iniciativa do PT de criar internamente bancas de heteroidentificação para combater fraudes.
"Quando se instituiu as cotas no fundo eleitoral, no Fundo Especial de Campanha e as cotas partidárias, a gente começou a ver fraudes. Pessoas se dizendo negras para acessar essa política de reparação", afirmou.
A deputada também participa do Quilombo nos Parlamentos, iniciativa da Coalizão Negra por Direitos que reúne candidaturas comprometidas com uma agenda antirracista. Em 2022, 26 candidatos apoiados pela mobilização foram eleitos — oito para a Câmara e 18 para assembleias legislativas. Para 2026, a iniciativa reúne mais de 150 candidaturas.
"A nossa meta é a reeleição de todos os que já estão e a eleição de todos que fazem parte do rol de parlamentares do Quilombo nos Parlamentos", afirmou.
Para Dartora, no entanto, eleger mais pessoas negras é apenas parte do desafio. A presença precisa chegar também aos espaços em que as decisões são tomadas. "Os parlamentares homens nem falam com a gente. As coisas se decidem entre eles", declarou.
Segundo a deputada, há decisões importantes sobre o funcionamento da Câmara tomadas "entre homens tomando uísque na casa de algum senador". "Nós, mulheres, especialmente as mulheres negras, a gente fica fora dessas decisões."
Dartora também chama atenção para a baixa presença de negros na Mesa Diretora da Câmara. "Não basta a gente entrar. Eu cheguei, fui eleita, sou parlamentar, mas a própria atividade parlamentar é desafiadora porque a gente continua tendo que efetivar essa participação."
"O racismo não dá trégua"
A deputada afirma que as barreiras também se manifestam no tratamento cotidiano dentro do Congresso. Ela relata já ter sido questionada por ocupar um espaço destinado a autoridades. "Tenho que lidar com falas de: 'Será que você pode sair desse lugar porque esse lugar é das autoridades? E aí eu tenho que me reafirmar como autoridade: 'Não, eu estou aqui porque eu sou deputada."
"Mesmo galgando um espaço de autoridade, o racismo não dá folga, ele não dá trégua", afirmou.
"Identitarismo de homens brancos"
Questionada sobre críticas às chamadas pautas identitárias, inclusive dentro da esquerda, Dartora afirmou que o debate racial não pode ser tratado como uma questão minoritária. "Não tem como dizer que não tem identitarismo mais pesado que o dos homens brancos. Eles ocupam praticamente todos os espaços, ocupam os cargos de liderança."
Para ela, falar de identidade negra significa discutir desigualdades de acesso a habitação, educação, saúde e infraestrutura. "É uma crueldade a gente minorizar esse debate. E é crueldade chamar esse debate de identitário olhando para a identidade que temos."
Dartora afirma que a resistência às pautas raciais também existe dentro dos partidos de esquerda. "Quando uma pessoa negra ocupa um espaço, ela traz com ela vozes que foram silenciadas historicamente. Quando esse espaço é o da política, a gente consegue criar política para aqueles que nunca foram vistos."
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