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MEMÓRIA POLÍTICA

34 anos depois, o destino dos personagens do impeachment de Collor

Sessão reuniu futuros ministros, governadores, dirigentes partidários e um presidente do STF

Congresso em Foco

28/9/2026 7:00

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A Câmara que decidiu o destino de Fernando Collor em 29 de setembro de 1992 reuniu uma geração de políticos que continuaria no centro da política brasileira pelas três décadas seguintes. Naquele plenário estavam dois futuros presidentes da República, ministros, governadores, candidatos ao Planalto, dirigentes partidários e um futuro presidente do STF. Alguns permaneceram na vida pública. Outros tiveram mandatos cassados, enfrentaram processos judiciais ou acabaram presos.

A própria trajetória de Collor ilustra essas reviravoltas. Primeiro presidente eleito pelo voto direto após a ditadura militar, ele deixou o Planalto, voltou às urnas, passou 16 anos no Senado e, mais de três décadas depois do impeachment, foi preso por corrupção.

A sessão terminou com 441 votos favoráveis à abertura do processo, 38 contrários, uma abstenção e 23 ausências. O deputado Paulo Romano (PFL-MG) deu o 336º voto favorável, atingindo o número necessário para autorizar o julgamento no Senado. O plenário comemorou o resultado e cantou o Hino Nacional.

Cassado em 1992, Collor está em prisão domiciliar desde 2025, após ser condenado no STF por corrupção em caso relacionado à Petrobras.

Cassado em 1992, Collor está em prisão domiciliar desde 2025, após ser condenado no STF por corrupção em caso relacionado à Petrobras.Arte Congresso em Foco

Collor: do Planalto à prisão domiciliar

Fernando Collor renunciou à Presidência em 29 de dezembro de 1992, quando seu julgamento por crime de responsabilidade já havia começado no Senado. A renúncia não interrompeu o processo. No dia seguinte, os senadores o condenaram à inabilitação para o exercício de função pública por oito anos, por 76 votos a dois.

Cumprida a sanção, Collor retornou à política e foi eleito senador por Alagoas em 2006. Permaneceu no cargo até 2023.

Naquele ano, em um processo sem relação com os fatos que motivaram o impeachment, o STF o condenou a oito anos e dez meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, em um caso envolvendo a BR Distribuidora.

O cumprimento da pena começou em abril de 2025. Inicialmente levado a um presídio de Maceió, Collor obteve autorização para cumprir a condenação em prisão domiciliar por razões humanitárias.

Itamar: do papel de vice ao Plano Real

Itamar Franco assumiu interinamente a Presidência em 2 de outubro de 1992, após a instauração do processo no Senado e o afastamento de Collor. Com a renúncia do titular, tornou-se presidente em definitivo.

Seu governo seria marcado pela implantação do Plano Real, em 1994, quando Fernando Henrique Cardoso ocupava o Ministério da Fazenda. Depois de deixar o Planalto, Itamar governou Minas Gerais e retornou ao Senado. Morreu em 2011.

Ulysses: uma das últimas grandes batalhas

Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, participou das articulações políticas que acompanharam a crise de Collor.

Menos de duas semanas depois da votação, em 12 de outubro de 1992, morreu em um acidente de helicóptero no litoral do Rio de Janeiro. O impeachment foi o último grande episódio de sua trajetória política.

Ibsen: do comando da Câmara à cassação

Presidente da Câmara, Ibsen Pinheiro recebeu a denúncia apresentada por Barbosa Lima Sobrinho, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e Marcello Lavenère, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Coube a ele conduzir a tramitação que resultou na votação de 29 de setembro.

Dois anos depois, Ibsen perdeu o próprio mandato. Foi cassado em maio de 1994, após ser investigado no escândalo dos anões do Orçamento. Posteriormente, foi absolvido pela Justiça das acusações criminais. Voltou à Câmara em 2007 e morreu em 2020.

Jobim: do relatório ao Supremo

Nelson Jobim (PMDB-RS) foi o relator da comissão especial que examinou a denúncia contra Collor. Seu parecer favorável à autorização para abertura do processo foi aprovado em 24 de setembro de 1992.

Depois, Jobim ocupou o Ministério da Justiça, tornou-se ministro e presidente do STF e comandou o Ministério da Defesa. Sua trajetória o levou da Câmara a postos de direção nos três Poderes da República.

Dirceu: da criação da CPI ao mensalão e à prisão

José Dirceu estava no primeiro mandato de deputado federal quando, ao lado de Eduardo Suplicy (PT-SP), tomou a iniciativa de apresentar o requerimento que deu origem à CPI do PC Farias. A comissão parlamentar mista de inquérito investigou as denúncias de Pedro Collor contra Paulo César Farias, tesoureiro da campanha presidencial de 1989.

O requerimento formal de criação da CPI, de nº 52/1992, foi registrado no Congresso Nacional sob a autoria do senador Humberto Lucena e outros parlamentares. Dirceu também integrou a comissão especial da Câmara que examinou o pedido de impeachment.

Nos anos seguintes, presidiu o PT, coordenou campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e assumiu a Casa Civil em 2003. Deixou o governo em 2005, em meio à crise do mensalão, e teve o mandato de deputado cassado naquele ano.

Em 2012, foi condenado pelo STF no processo do mensalão. A pena definitiva por corrupção ativa foi de sete anos e onze meses de prisão, cujo cumprimento começou em novembro de 2013. Em 2016, o Supremo declarou extinta sua punibilidade nesse processo, em razão de indulto.

Dirceu voltou a ser preso e foi condenado em processos da Operação Lava Jato. Em 2024, porém, o ministro Gilmar Mendes anulou as condenações relacionadas à operação, ao estender ao ex-ministro o entendimento do STF sobre a parcialidade do então juiz Sergio Moro. A decisão restabeleceu seus direitos políticos. É novamente candidato a deputado federal.

Jefferson: da defesa de Collor à prisão

Roberto Jefferson estava entre os deputados que se opuseram ao impeachment de Collor. Treze anos depois, protagonizaria outra crise política ao denunciar o esquema que ficou conhecido como mensalão, durante o primeiro governo Lula.

As denúncias tiveram ampla repercussão, mas não impediram a cassação de seu próprio mandato, em 2005. Jefferson também foi condenado no processo do mensalão e cumpriu pena.

Anos depois, voltou ao centro de investigações criminais por declarações e ataques às instituições. Em outubro de 2022, disparou contra policiais federais que foram à sua residência cumprir uma ordem de prisão, ferindo dois agentes.

Em dezembro de 2024, o STF o condenou a nove anos, um mês e cinco dias de prisão por crimes que incluíram calúnia e incitação à prática de crimes contra o Estado Democrático de Direito. Em fevereiro de 2026, o Supremo determinou o início do cumprimento definitivo da pena, mantida a prisão domiciliar por razões de saúde, com tornozeleira eletrônica e restrições de comunicação e visitas.

Bolsonaro: do voto pelo impeachment à Presidência e à prisão

Jair Bolsonaro (PDC-RJ) estava no segundo ano de seu primeiro mandato como deputado federal quando a Câmara votou o impeachment de Fernando Collor. Sem participação de destaque nas articulações ou nos debates, limitou-se a declarar seu voto favorável à abertura do processo. Na ocasião, afirmou representar também a vontade dos militares.

Bolsonaro permaneceria na Câmara por sete mandatos consecutivos, até vencer a eleição presidencial de 2018. Governou o Brasil entre 2019 e 2022 e perdeu a disputa pela reeleição para Lula.

Mais de três décadas depois de votar pelo impeachment de Collor, Bolsonaro foi condenado pelo STF, em setembro de 2025, a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Preso em novembro de 2025, cumpre a pena em prisão domiciliar humanitária, mantida por decisão do Supremo em julho de 2026.

Serra: da liderança do PSDB às disputas presidenciais

José Serra era líder do PSDB na Câmara durante o impeachment. Depois, foi ministro do Planejamento e da Saúde, prefeito da capital paulista, governador de São Paulo e senador.

Disputou a Presidência da República em 2002, contra Lula, e em 2010, contra Dilma Rousseff. Sua trajetória o levou do plenário que autorizou o impeachment a duas campanhas presidenciais.

Alckmin: da Câmara à Vice-Presidência

Geraldo Alckmin também era deputado federal em 1992. Posteriormente, governou São Paulo por diferentes períodos e disputou a Presidência da República em 2006 e 2018.

Depois de deixar o PSDB, filiou-se ao PSB e foi eleito vice-presidente na chapa de Lula em 2022. É um dos integrantes daquela legislatura que chegaram ao Palácio do Planalto.

Caiado: do voto contrário ao governo de Goiás

Ronaldo Caiado foi um dos 38 deputados que votaram contra a abertura do processo contra Collor. Depois, acumulou mandatos na Câmara, tornou-se senador e foi eleito governador de Goiás.

Em 2026, deixou o União Brasil e se filiou ao PSD, partido pelo qual passou a disputar a Presidência da República.

Wagner: do impeachment ao Senado

Jaques Wagner, então deputado pelo PT da Bahia, discursou na sessão de 29 de setembro em defesa da abertura do processo.

Nos anos seguintes, foi ministro de Lula, governou a Bahia por dois mandatos e chegou ao Senado. Também comandou a Casa Civil e o Ministério da Defesa durante o governo Dilma Rousseff.

Das ruas para o Congresso

Estudante universitário, Lindbergh Farias não ocupava uma cadeira na Câmara em 1992. Ganhou projeção nacional como presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), durante as manifestações dos caras-pintadas.

Posteriormente, foi deputado federal, prefeito de Nova Iguaçu, senador pelo Rio de Janeiro e retornou à Câmara. Sua trajetória conecta a mobilização estudantil contra Collor à política institucional das décadas seguintes.

Pedro, PC Farias e Eriberto: os personagens fora do Congresso

Três personagens sem mandato parlamentar tiveram participação decisiva na crise.

Pedro Collor rompeu com o irmão e apresentou as denúncias que impulsionaram as investigações sobre Paulo César Farias, tesoureiro da campanha presidencial de 1989. Morreu em 1994.

PC Farias, tesoureiro da campanha presidencial de Collor e personagem central da CPI que levou ao impeachment, foi encontrado morto ao lado da namorada, Suzana Marcolino, em junho de 1996, seis meses depois de obter liberdade condicional. Inicialmente tratado como homicídio seguido de suicídio, o caso teve uma reviravolta em 2013, quando o Tribunal do Júri reconheceu que ambos haviam sido assassinados. Os quatro ex-seguranças acusados foram absolvidos, e o crime permanece sem autoria esclarecida.

Motorista de Ana Acioli, secretária particular de Fernando Collor, Eriberto França revelou como recursos ligados a PC Farias eram utilizados para pagar despesas pessoais do presidente e de sua família. Seu depoimento à CPI, em 1992, ajudou a esclarecer o esquema financeiro investigado pelo Congresso.

Depois do impeachment, enfrentou dificuldades financeiras, chegou a vender toalhas nas ruas de Brasília e trabalhou em órgãos públicos. Recusou convites para ingressar na política. Hoje, aposentado, vive discretamente em Brasília. Recusou convites para disputar as eleições.

O destino desses personagens mostra que a sessão de setembro de 1992 foi também um ponto de encontro de trajetórias que marcariam a política brasileira nas décadas seguintes. O Congresso que autorizou o impeachment reunia nomes que voltariam a protagonizar governos, eleições, investigações e julgamentos — e que, em alguns casos, enfrentariam o afastamento do poder e a prisão.

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