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Filhos da política e das redes: quem são os jovens eleitos na Câmara

Herdeiros políticos, influenciadores e lideranças estudantis estão entre os 29 deputados com até 30 anos. Grupo inclui o mais jovem da história e dois recordistas de votos.

Congresso em Foco

10/10/2026 7:00

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A nova geração que chega à Câmara dos Deputados em 2027 reúne os dois candidatos mais votados da história para o cargo e o parlamentar mais jovem já eleito para a Casa. Entre os 29 deputados federais com até 30 anos, há influenciadores que conquistaram milhões de votos, herdeiros de famílias tradicionais e lideranças formadas em movimentos estudantis e na política municipal. Desses, 20 vão estrear no Congresso. Oito foram reeleitos.

Aos 30 anos, Nikolas Ferreira (PL-MG) foi reeleito com 3.119.318 votos. Lucas Pavanato (PL-SP), de 28, recebeu outros 3.038.438. Os dois superaram o recorde anterior de Eduardo Bolsonaro, que conquistara 1,84 milhão de votos em 2018. Na outra ponta está Alvinho Lira (PP-AL), filho do ex-presidente da Câmara Arthur Lira, eleito aos 20 anos após uma mudança na legislação aprovada em 2025.

Levantamento do Congresso em Foco, com base no cadastro de candidaturas e nos resultados eleitorais do TSE, identificou 29 deputados federais eleitos com até 30 anos, considerada a idade em 4 de outubro, data do primeiro turno. São 5,7% das 513 cadeiras da Câmara. Desse grupo, 23 ainda não haviam completado 30 anos e seis tinham exatamente essa idade.

Mais do que o tamanho, chama atenção a diversidade de trajetórias. As redes sociais impulsionaram algumas das maiores votações, mas famílias políticas, movimentos sociais e mandatos municipais continuam sendo caminhos importantes de acesso ao Congresso.

No canto esquerda, Ana Elisa e Alvaro Lira, os dois deputados mais jovens da nova legilsatura. No canto direito, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, os deputados mais votados da história.

No canto esquerda, Ana Elisa e Alvaro Lira, os dois deputados mais jovens da nova legilsatura. No canto direito, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, os deputados mais votados da história.Reprodução

Das redes sociais aos recordes de votação

Nikolas Ferreira chega ao segundo mandato federal com mais que o dobro dos votos obtidos em 2022, quando recebeu 1,49 milhão. Formado em Direito, começou a carreira eleitoral como vereador de Belo Horizonte, em 2020, e ganhou projeção nacional com vídeos conservadores e críticas ao PT, ao governo Lula e ao Supremo Tribunal Federal.

Na Câmara, presidiu a Comissão de Educação e se consolidou como uma das principais vozes da oposição. Sua popularidade digital também ajudou a projetar aliados, entre eles Lucas Pavanato, dono da segunda maior votação da história para deputado federal.

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Nikolas e Pavanato garantiram a eleição de outros 15 deputados do PL

Pavanato iniciou a militância no Movimento Brasil Livre (MBL), participou das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff e trabalhou no gabinete do então vereador Fernando Holiday. Em 2022, disputou uma vaga na Assembleia Legislativa paulista pelo Novo, mas ficou na suplência.

Dois anos depois, já no PL, tornou-se o vereador mais votado de São Paulo, com cerca de 161 mil votos. Agora, ultrapassou 3 milhões e ficou atrás apenas de Nikolas na votação nacional.

No Ceará, André Fernandes (PL), de 28 anos, também consolidou uma trajetória impulsionada pela comunicação digital. Ex-deputado estadual, chegou à Câmara em 2023, disputou o segundo turno da eleição para prefeito de Fortaleza em 2024 e foi reeleito deputado federal com 684.372 votos, a maior votação do estado.

Da internet às ocupações estudantis

A influência das redes não se limita à direita. Em Minas Gerais, Ana Elisa (PT), de 21 anos, estreou nas urnas com 524.219 votos, a segunda maior votação do estado, atrás de Nikolas Ferreira.

Natural de Divinópolis e estudante de Direito, ganhou audiência com vídeos sobre racismo, feminismo, direitos sociais e política. Filiada ao PT em 2026, tornou-se a mulher mais jovem eleita para a Câmara neste ano. Filha de uma professora sindicalista, passou a colaborar com a estratégia digital da campanha de Lula no segundo turno e defende mudanças na maneira como a esquerda se comunica com os jovens.

A militância política também abriu caminho para jovens parlamentares de diferentes campos ideológicos. Aos 30 anos, Kim Kataguiri (Missão-SP) chega ao terceiro mandato consecutivo na Câmara. Um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), ganhou projeção durante os protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff e foi eleito deputado federal pela primeira vez em 2018, aos 22 anos.

Ana Júlia (PT-PR), de 26 anos, tornou-se conhecida nacionalmente em 2016, quando participou das ocupações de escolas públicas no Paraná. Ainda adolescente, discursou na Assembleia Legislativa em defesa das mobilizações, em uma fala que repercutiu pelo país. Eleita deputada estadual em 2022, conquistou agora uma cadeira federal com 184.691 votos.

Guilherme Cortez (Psol-SP), de 28 anos, também começou no movimento estudantil antes de chegar à Assembleia Legislativa paulista, em 2023. Com 275.450 votos, garantiu seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados.

Alvinho Lira, o mais jovem da história

Nenhum dos 29 eleitos, porém, chama tanta atenção pela idade quanto Alvinho Lira. Aos 20 anos, o filho de Arthur Lira recebeu 172.628 votos e foi o deputado federal mais votado de Alagoas.

Seu avô, Benedito de Lira, também foi deputado, senador e prefeito. O pai presidiu a Câmara entre 2021 e 2025 e foi eleito senador neste ano. Alvinho chega ao Congresso como representante da terceira geração de uma família influente na política alagoana.

Sua eleição estabeleceu um recorde. Até então, o deputado federal mais jovem da história era Hugo Motta (Republicanos-PB), atual presidente da Câmara, eleito pela primeira vez aos 21 anos, em 2010.

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A Constituição continua exigindo idade mínima de 21 anos para deputado federal. O que mudou foi o momento de comprovar esse requisito.

Sancionada em outubro de 2025, a Lei 15.230 passou a considerar, para deputados e senadores, a chamada posse presumida: um período de até 90 dias após a eleição da Mesa Diretora da respectiva Casa Legislativa. Na época, críticos da mudança legislativa afirmaram que a nova regra visava beneficiar o filho do ex-presidente da Câmara.

Alvinho nasceu em 17 de março de 2006 e completará 21 anos em março de 2027, depois da posse dos deputados, marcada para 1º de fevereiro. Pela nova regra, poderá assumir o mandato sem que a idade mínima prevista na Constituição tenha sido reduzida.

Herdeiros políticos e vereadores

Alvinho não é o único jovem que chega à Câmara com um sobrenome conhecido. Lula da Fonte (PP-PE), de 25 anos, foi reeleito para seu segundo mandato federal. É filho de Eduardo da Fonte, deputado que disputou o Senado neste ano.

Também em Pernambuco, Pedro Campos (PSB), de 30 anos, conquistou a reeleição. Filho do ex-governador Eduardo Campos e irmão do prefeito do Recife, João Campos, pertence à família do ex-governador Miguel Arraes.

Na Bahia, Carlos Muniz (PSDB), de 25 anos, foi eleito deputado federal pela primeira vez. Seu pai, de mesmo nome, preside a Câmara Municipal de Salvador. Amanda Gentil (PP-MA), de 27 anos, filha do ex-prefeito de Caxias Fábio Gentil, garantiu o segundo mandato.

O grupo inclui ainda Jair Renan Bolsonaro (PL-SC), de 28 anos, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, eleito para a Câmara.

A política municipal também abriu espaço para jovens sem a mesma tradição familiar. Em Salvador, Sandro Filho (PP-BA), de 21 anos, saiu do Subúrbio Ferroviário da capital para a Câmara dos Deputados. Morador de Coutos, ganhou visibilidade como vereador com vídeos de fiscalização dos serviços públicos. Recebeu 167.394 votos e será o deputado federal baiano mais jovem da próxima legislatura.

Em Curitiba, Guilherme Kilter (Novo-PR), de 24 anos, também trocou a Câmara Municipal pelo Congresso. Influenciador conservador, destacou-se nas redes com críticas ao Judiciário e posições sobre educação e segurança pública. Foi eleito com 269.832 votos.

O peso das famílias e das redes

Um estudo do Instituto Democracia em Xeque ajuda a dimensionar as mudanças nas trajetórias dos jovens políticos. Em seu recorte de eleitos para a Câmara, que abrange 21 parlamentares e adota critérios etários diferentes dos utilizados pelo Congresso em Foco, 12 foram classificados como orgânicos, com carreiras construídas em movimentos organizados ou nas redes, e nove como hereditários, por sua ligação com famílias políticas.

É a primeira vez, na série iniciada em 2014 pelo instituto, que as trajetórias orgânicas predominam entre os jovens eleitos para a Câmara. Naquele ano, 95% dos integrantes do grupo analisado tinham vínculos familiares políticos.

O resultado não significa o desaparecimento das dinastias eleitorais. Elas continuam especialmente presentes no Nordeste, enquanto as redes sociais se consolidam como um caminho alternativo para conquistar projeção e votos.

A nova geração, portanto, está longe de formar uma bancada homogênea. Reúne parlamentares do PT ao PL, passando por Psol, Novo, PP, PSB e outros partidos. Entre recordistas de votos, antigos líderes estudantis e herdeiros políticos, a eleição de 2026 mostra que as formas tradicionais de chegar ao Congresso continuam relevantes, mas dividem cada vez mais espaço com candidaturas construídas nas plataformas digitais.

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