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Eleições

A virada de Lula começou onde fantasmas de Flávio perderam controle

Ecos da campanha de Jair em 2022 marcaram a reta final de Flávio, enquanto Lula reorganizou política, comunicação e mobilização digital; saiba quem está por trás do fenômeno.

Congresso em Foco

26/10/2026 | Atualizado às 19:45

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Quatro anos depois de Jair Bolsonaro chegar à reta final contra Lula em uma tentativa falha de administrar os estragos políticos provocados por aliados como Roberto Jefferson e Carla Zambelli, Flávio Bolsonaro (PL) também assistiu a personagens e episódios paralelos invadirem a narrativa de sua campanha no momento decisivo com Nikolas Ferreira (PL-MG), Daniella Marques e Pablo Marçal.

Do outro lado, aconteceu o inverso. Lula saiu do primeiro turno atrás e decidiu que não bastava fazer mais do mesmo. A campanha que disputou a primeira etapa foi remodelada. Camilo Santana (PT-CE) e Rafael Fonteles avançaram sobre o núcleo de decisões, enquanto André Janones (Rede-MG) transformou o "Exército do Lula" em uma gigantesca estrutura de distribuição digital.

Lula perdeu o primeiro turno e mexeu na campanha. Flávio venceu o primeiro turno, preservou boa parte de sua estratégia e terminou a disputa tomado por ruídos que cresceram ao seu redor sem que percebesse. À sua maneira, cada campanha experimentou uma reviravolta guiada por três personagens centrais.

A virada de Lula começou onde fantasmas de Flávio perderam controle.

A virada de Lula começou onde fantasmas de Flávio perderam controle.Arte Congresso em Foco

Fantasmas

Em 2022, a uma semana do segundo turno, Roberto Jefferson, aliado de Bolsonaro, recebeu policiais federais a tiros de fuzil e granadas quando agentes foram cumprir uma ordem de prisão. Dois policiais ficaram feridos. O episódio caiu como uma bomba na campanha de Jair Bolsonaro.

Politicamente falando, Nikolas trouxe incômodo semelhante ao partido nas semanas finais. Se Roberto Jefferson se tornou um personagem maior do que deveria em 2022, o deputado federal cresceu tanto que poderia ser confundido com o candidato.

Após um primeiro turno confortável, Flávio tinha dois objetivos de campanha: ganhar força no Nordeste, fortaleza eleitoral de Lula. A cinco dias da votação, Nikolas lançou aquele que ele próprio anunciou como o vídeo "mais importante" de sua vida.

O roteiro parecia perfeito para as redes. Nordestinos apareciam diante das câmeras relatando dificuldades financeiras, problemas de saneamento, insegurança e frustrações com promessas atribuídas a Lula. Ao final, a mensagem era curta: "Chega". A gravação havia sido feita em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, justamente um dos poucos municípios baianos onde Flávio Bolsonaro havia vencido no primeiro turno.

A reação, porém, esbarrou no esteriótipo, moradores contestaram a maneira como a realidade local havia sido retratada, imagens dos bastidores alimentaram questionamentos sobre a produção e a campanha de Lula respondeu com vídeo próprio.

Se Nikolas ensaia Roberto Jefferson, Daniella Marques também se mostrou um tiro pela culatra. Seis dias depois do confronto envolvendo o ex-deputado e na véspera do segundo turno de 2022, outra cena tomou conta das redes e do noticiário: a então deputada Carla Zambelli perseguiu um homem pelas ruas portando uma arma.

Quatro anos depois, Daniela não protagonizou um episódio comparável ao de Zambelli, mas produziu outro tipo de ruído em um tema especialmente sensível. Coordenadora econômica da campanha, ela defendeu uma regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que conseguissem emprego formal ou abrissem um negócio e afirmou que as pessoas "não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família".

A discussão ganhou ainda outro componente por Daniela ser associada à defesa de uma agenda econômica liberal e ter elogiado o estilo do presidente argentino Javier Milei. Na reta final, a campanha precisou reforçar publicamente que Flávio pretendia preservar e fortalecer programas como Bolsa Família e BPC.

Já Pablo Marçal garantiu sua contribuição na campanha ao se aproximar figurativamente de Daniel Silveira. Ex-policial militar e então deputado federal, Silveira tornou-se um dos símbolos da ala mais confrontadora da base de Jair Bolsonaro. Em fevereiro de 2021, foi preso depois de publicar um vídeo com ataques e ameaças contra ministros do STF.

Influenciador com enorme capacidade de gerar audiência, Marçal gostava de definir sua função por meio de uma metáfora. Disse que Flávio precisava de um "escudo" e apresentou-se como alguém disposto a ocupar esse espaço. Embora a campanha o apresentasse como mero apoiador, Marçal participava de discussões estratégicas e ajudava na produção de conteúdo.

O empresário chegou a colaborar com o desenho do chamado "Ministério da Prosperidade", um discurso sobre incentivar o sucesso que não parece ter tido apelo popular. Ele entrou como estrategista e terminou fora do núcleo que preparou Flávio para o último debate.

De Nikolas a Janones, os personagens da virada de Lula sobre Flávio.

De Nikolas a Janones, os personagens da virada de Lula sobre Flávio.Arte Congresso em Foco

Relembrando ainda mais a campanha de 2022, a dois dias do pleito, Flávio se mostrou filho de Jair Messias Bolsonaro na essência, com declarações polêmicas e fáceis de contestar. Campanhas presidenciais passam meses tentando controlar cada frase do candidato, mas se perdem no tête-à-tête.

Ao discutir salário mínimo, impostos e a proposta de tarifa zero no transporte público, Flávio afirmou que Lula "dá com uma mão e tira com os nove dedos". Era uma provocação dirigida ao adversário. Virou outra coisa.

Lula perdeu um dedo da mão esquerda em um acidente de trabalho como metalúrgico aos 17 anos. A crítica política ganhou outro peso e passou a refletir, por um detalhe, a realidade de milhões de brasileiros em uma das pautas que concentraram as discussões: o trabalho.

Fôlego

Se a reta final de Flávio Bolsonaro pode ser contada pelos ruídos envolvendo Nikolas Ferreira, Pablo Marçal e pelo próprio episódio dos "nove dedos", a história de Lula entre os dois turnos seguiu outra dinâmica. O petista chegou à fase decisiva depois de perder o primeiro turno e resolveu mexer numa campanha que já vinha sendo alvo de críticas internas.

A reorganização procurava responder a problemas diferentes: articulação política, comunicação e mobilização digital. É nesse contexto que Camilo Santana, Rafael Fonteles e André Janones ganham importância para entender o segundo turno petista.

Senador e ex-ministro da Educação, Camilo Santana passou a integrar a coordenação-geral depois do primeiro turno. A reorganização também colocou outros nomes do Nordeste em posições importantes, num momento em que Lula precisava reorganizar alianças, aproximar lideranças e ampliar a mobilização regional.

Camilo trouxe experiência eleitoral no Ceará e capacidade de interlocução com governadores, prefeitos, parlamentares e lideranças políticas para a disputa presidencial. Sua função era essencialmente política: ajudar a transformar apoios formais em campanha efetiva.

Já Rafael Fonteles ganhou espaço no núcleo que discutia a estratégia comunicacional. Nos bastidores, o governador reeleito do Piauí passou a articular a produção de conteúdos com potencial de circulação nas redes. Fonteles representava uma geração mais nova de dirigentes petistas e possuía relação direta com o ambiente digital.

A campanha havia entendido que não poderia simplesmente repetir a primeira fase esperando resultado diferente. Era preciso acelerar. E, enquanto Fonteles ajudava a pensar o que comunicar, outro personagem passou a trabalhar principalmente em como fazer essa mensagem chegar a milhões de pessoas.

De Nikolas a Janones, os personagens da virada de Lula sobre Flávio.

De Nikolas a Janones, os personagens da virada de Lula sobre Flávio.Arte Congresso em Foco

André Janones representa provavelmente a mudança mais visível da operação digital petista no segundo turno. O deputado já possuía experiência com comunicação agressiva nas redes e havia participado da campanha de Lula em 2022. Em 2026, porém, sua atuação ganhou outra dimensão com o chamado "Exército do Lula", organizado principalmente pelo WhatsApp.

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André Janones, o herói improvável da vitória de Lula

Simples e eficaz, a aposta do deputado nas redes sociais funcionou. As "missões" se tornaram compartilhamentos, hashtags e novos soldados. Na sexta-feira (23), o canal no WhatsApp já reunia 10 milhões de pessoas com um propósito eleitoral.

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