A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a terceira fase da Operação Compliance Zero, detalha os motivos que levaram à prisão do banqueiro Daniel Bueno Vorcaro, controlador do Banco Master, e de outros investigados ligados ao caso. Estas foram as primeiras prisões determinadas por Mendonça desde que assumiu a relatoria da operação, em fevereiro.
Segundo a Polícia Federal, há indícios de que o grupo operava uma organização criminosa estruturada para fraudes financeiras bilionárias, além de práticas de corrupção, lavagem de dinheiro, ameaça e obstrução de Justiça.
Veja a íntegra da decisão do ministro.
A seguir, os principais elementos apontados na decisão que levaram à nova ordem de prisão do banqueiro e de seu cunhado, o empresário e pastor Fabiano Campos Zettel.
1. Um esquema financeiro bilionário
A investigação aponta que Vorcaro estruturou um modelo de negócios baseado na captação agressiva de recursos por meio de títulos bancários com rentabilidade acima da média do mercado, o que permitiu ao Banco Master atrair grandes volumes de investimentos.
Segundo a Polícia Federal, parte desses recursos teria sido direcionada para:
- operações financeiras de alto risco
- ativos de baixa liquidez
- fundos ligados ao próprio conglomerado econômico
2. A crise do Banco Master
O caso ganhou grande repercussão no mercado financeiro após o Banco Central decretar a liquidação do Banco Master, medida adotada diante de dúvidas sobre a sustentabilidade das operações da instituição.
A crise também se agravou após a revelação de transações bilionárias envolvendo o Banco de Brasília (BRB), que ampliaram a exposição do sistema financeiro ao risco associado às operações do banco.
O episódio desencadeou uma das maiores crises recentes do setor financeiro brasileiro.
3. Nova prisão após libertação em 2025
Vorcaro já havia sido preso em novembro de 2025, na primeira fase da Operação Compliance Zero. Ele permaneceu 11 dias detido antes de ser libertado por decisão judicial.
Para André Mendonça, porém, a investigação indica que as práticas investigadas não cessaram após a soltura do banqueiro. Segundo a decisão, foram identificadas novas movimentações financeiras suspeitas e tentativas de ocultação de patrimônio.
Esse risco de reiteração delitiva foi um dos fatores centrais para a nova prisão preventiva.
4. Irregularidades continuaram ao longo de operação
A suspeita é que o modelo tenha sido sustentado por gestão fraudulenta, manipulação de mercado e mecanismos para ocultar a real situação financeira da instituição.
A decisão do ministro André Mendonça afirma que há indícios de que as práticas investigadas teriam continuado mesmo após a primeira prisão de Daniel Vorcaro, em novembro de 2025. Segundo a Polícia Federal, foram identificadas movimentações financeiras e tentativas de reorganização patrimonial do grupo após a soltura do banqueiro, o que indicaria risco de continuidade das atividades criminosas e de ocultação de patrimônio.
O documento menciona ainda que o esquema investigado envolve valores bilionários e levou à determinação de bloqueio e sequestro de bens de até R$ 22 bilhões.
5. Suspeita de ocultação de patrimônio
A decisão também menciona indícios de dilapidação e ocultação de ativos ligados ao grupo investigado.
Em fases anteriores da operação, a Justiça determinou o bloqueio e sequestro de bens que podem chegar a R$ 22 bilhões, medida destinada a impedir que recursos ligados ao esquema fossem transferidos ou escondidos.
Para o ministro, a liberdade dos investigados poderia facilitar novas tentativas de movimentação ou ocultação de patrimônio.
6. Ameaças e intimidação de críticos
Outro ponto considerado grave envolve suspeitas de intimidação de adversários e críticos do banco, incluindo jornalistas.
Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro discutiu a possibilidade de agredir um jornalista e simular um assalto após reportagens críticas.
Outro episódio citado envolve mensagens relacionadas a um ex-funcionário do grupo.
Nas conversas por um aplicativo, um dos alvos da operação desta quarta-feira afirma a Vorcaro que está monitorando o homem e levantando informações sobre pessoas ligadas a ele. Em determinado momento, Vorcaro responde:
"O bom é dar um sacode no chef de cozinha primeiro. O outro já vai assustar."
A Polícia Federal interpreta a frase como sugestão de agressão ou intimidação física para pressionar outras pessoas.
A decisão também menciona uma troca de mensagens em que Vorcaro se refere a uma empregada doméstica chamada Monique, afirmando que ela o estaria ameaçando.
Na conversa, ele reage com linguagem agressiva:
"Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda".
Embora o documento não descreva uma ação concreta contra a mulher, o trecho é citado pela investigação como exemplo da postura intimidatória adotada pelo investigado em relação a pessoas consideradas adversárias.
A investigação também menciona um grupo conhecido como "A Turma", que teria sido mobilizado para:
- monitorar adversários
- levantar informações sobre críticos
- realizar ações de pressão e intimidação
7. O núcleo de espionagem
Entre os presos está Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido nas investigações como "Sicário".
Segundo a Polícia Federal, ele coordenava um núcleo responsável por:
- monitorar jornalistas e adversários empresariais
- coletar informações sigilosas
- acessar ilegalmente sistemas restritos de órgãos públicos
A decisão menciona consultas indevidas a bases de dados da Polícia Federal e do Ministério Público, entre outras instituições.
8. O operador financeiro do esquema
Outro preso foi Fabiano Campos Zettel, pastor e empresário casado com a irmã de Vorcaro.
Segundo a investigação, ele atuava como operador financeiro do grupo, responsável por estruturar pagamentos e movimentações de dinheiro.
Entre as atividades atribuídas a Zettel estão:
- organização de fluxos financeiros do esquema
- elaboração de contratos usados para justificar transferências
- intermediação de pagamentos ligados ao grupo
A investigação também menciona a elaboração de um contrato considerado fictício com um servidor do Banco Central, usado para justificar repasses de recursos.
9. Informações privilegiadas no BC
O servidor do Banco Central Belline Santana é suspeito de ter prestado consultoria informal ao grupo ligado a Daniel Vorcaro, orientando estratégias em processos administrativos que envolviam o Banco Master. Segundo a investigação, isso poderia ter permitido acesso antecipado a informações da autarquia. Ele foi chefe do Departamento de Supervisão Bancária da instituição.
Já Paulo Sérgio Neves de Souza, que foi diretor de Fiscalização do Banco Central na gestão de Roberto Campos Neto, é apontado como pessoa ligada ao círculo de confiança de Daniel Vorcaro, atuando em tratativas e intermediações relacionadas às atividades do grupo.
Os dois servidores já estavam afastados de suas funções enquanto o Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, comanda uma investigação interna para apurar possíveis omissões no caso do Banco Master. Souza e Santana agora foram afastados judicialmente de seus cargos.
9. Servidores e aliados sob medidas restritivas
Nem todos os investigados tiveram prisão decretada.
O ministro determinou medidas cautelares contra quatro pessoas, incluindo monitoramento por tornozeleira eletrônica, restrição de deslocamento e proibição de contato com os demais investigados.
Entre eles estão Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza.
Quem foi preso e quem recebeu medidas cautelares
A decisão do STF determinou:
Prisões preventivas
Daniel Bueno Vorcaro — Dono do Banco Master, é apontado pela PF como líder da organização criminosa investigada, suspeito de estruturar o esquema de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro, manipulação de mercado e de ordenar ações de intimidação contra críticos.
Fabiano Campos Zettel — Pastor e empresário, cunhado de Vorcaro, é suspeito de atuar como operador financeiro do grupo, intermediando pagamentos, estruturando contratos para justificar transferências e financiando atividades da organização.
Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão — Identificado como "Felipe Mourão" ou "Sicário", é apontado como responsável pelo núcleo de vigilância e intimidação, encarregado de monitorar adversários, acessar bases de dados sigilosas e levantar informações sobre jornalistas e críticos do banco.
Marilson Roseno da Silva — Investigado por atuar no núcleo operacional da organização, auxiliando na execução de atividades e na logística das ações coordenadas pelo grupo.
Medidas cautelares
Belline Santana — Servidor do Banco Central suspeito de prestar consultoria informal ao grupo sobre processos administrativos do Banco Master; foi submetido a tornozeleira eletrônica, suspensão do cargo público, proibição de contato com investigados e restrição de deslocamento.
Paulo Sérgio Neves de Souza — Investigado por possível participação em tratativas e apoio ao esquema; recebeu restrições de contato com investigados e limitações de deslocamento.
Leonardo Augusto Furtado Palhares — Suspeito de ligação com as operações investigadas; está sujeito a monitoramento por tornozeleira eletrônica, proibição de deixar a comarca e entrega do passaporte.
Ana Cláudia Queiroz de Paiva — Investigada por participação em atividades relacionadas ao grupo; recebeu tornozeleira eletrônica, restrição de deslocamento e proibição de contato com os demais investigados.
O que investiga a Operação Compliance Zero
A Operação Compliance Zero investiga um esquema de fraudes financeiras que pode envolver bilhões de reais, com suspeitas de:
- gestão fraudulenta de instituição financeira
- lavagem de dinheiro
- manipulação de mercado
- corrupção
- ameaça e obstrução de Justiça
A decisão também autorizou 15 mandados de busca e apreensão e a manutenção do bloqueio de bens que pode chegar a R$ 22 bilhões. Até a publicação desta reportagem, as defesas dos investigados não haviam se manifestado sobre as acusações.