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Gênero

Quando a sociedade percebe a violência contra a mulher, já não é possível ignorá-la

Pesquisa e dados oficiais apontam na mesma direção: a violência contra as mulheres aumentou e exige políticas públicas mais eficazes, especialmente na esfera estadual.

Arilton Freres

Arilton Freres

28/7/2026 17:00

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Durante muito tempo, a violência contra as mulheres foi tratada como um problema restrito ao ambiente doméstico, cercado pelo silêncio, pela impunidade e por uma cultura que frequentemente responsabilizava as próprias vítimas. Felizmente, essa realidade começou a mudar. Hoje, o tema ocupa espaço permanente no debate público, mobiliza políticas públicas e desperta maior conscientização social. No entanto, os dados mostram que essa mudança de percepção ainda não foi suficiente para conter a escalada da violência.

Os resultados da terceira rodada da pesquisa nacional da Indexa Pesquisas, realizada entre 16 e 19 de julho deste ano, revelam um dado contundente: 67% dos brasileiros acreditam que a violência contra as mulheres aumentou nos últimos doze meses. Mais expressivo ainda é o fato de que 55% afirmam que esse aumento foi significativo. Apenas 2% consideram que a violência diminuiu.

Dois dias após a divulgação da pesquisa, o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, levantamento da ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), confirmou, com números oficiais, aquilo que já estava presente na percepção da população. Os registros de feminicídio cresceram 4% em 2025, alcançando 1.571 vítimas. Foram contabilizadas ainda 286 mil agressões por violência doméstica, quase 789 mil ameaças, mais de 123 mil casos de perseguição, mais de 60 mil registros de violência psicológica e mais de 84 mil vítimas de estupro e estupro de vulnerável. São estatísticas que evidenciam um fenômeno estrutural e persistente.

Quando pesquisas de opinião e indicadores oficiais apontam para a mesma direção, estamos diante de algo particularmente relevante do ponto de vista sociológico. A sociedade não apenas toma conhecimento do problema, mas passa a reconhecê-lo como parte da realidade cotidiana. Em outras palavras, a violência contra as mulheres deixou de ser invisível.

Esse alinhamento entre percepção social e estatísticas merece atenção. Muitas vezes, pesquisas de opinião captam sentimentos difusos ou impressões influenciadas pelo noticiário. Neste caso, porém, a percepção coletiva encontra respaldo nos dados produzidos pelos órgãos de segurança pública. Isso fortalece a compreensão de que o problema ultrapassa casos isolados e representa uma das principais questões sociais do país.

Outro resultado da pesquisa da Indexa também chama atenção. Para 72% dos entrevistados, declarações públicas que desrespeitam ou ofendem as mulheres contribuem para o aumento da violência de gênero. Esse dado demonstra que os brasileiros reconhecem que a violência não começa necessariamente com uma agressão física. Ela pode ter origem em discursos que normalizam o machismo, relativizam o desrespeito ou legitimam relações de poder baseadas na intimidação e no controle.

A violência de gênero possui caráter cumulativo. Antes do feminicídio, geralmente existe um histórico de ameaças, humilhações, perseguições, violência psicológica e agressões físicas. O próprio Anuário evidencia essa progressão. Em 2025, foram registradas aproximadamente 502 ameaças para cada feminicídio ocorrido. O assassinato representa o desfecho extremo de um ciclo de violência que, em muitos casos, poderia ter sido interrompido.

Crescimento dos casos de feminicídio e da violência de gênero impõe aos candidatos o compromisso de fortalecer a prevenção, a proteção e a responsabilização dos agressores.

Crescimento dos casos de feminicídio e da violência de gênero impõe aos candidatos o compromisso de fortalecer a prevenção, a proteção e a responsabilização dos agressores.Magnific

Os números também revelam um aspecto importante. O crescimento de registros de crimes como perseguição e violência psicológica pode refletir não apenas a persistência da violência, mas também uma redução da subnotificação. A maior divulgação dos canais de denúncia, o fortalecimento das redes de proteção e a conscientização das mulheres contribuem para que mais vítimas procurem ajuda. Trata-se de um avanço institucional importante, ainda que insuficiente diante da magnitude do problema.

Entretanto, permanece um desafio que nenhuma legislação resolve sozinha. O Brasil avançou com a Lei Maria da Penha, com a tipificação do feminicídio e com a ampliação das medidas protetivas. Mesmo assim, os dados mostram que 70 mulheres foram assassinadas em 2025 apesar de possuírem medidas protetivas em vigor, enquanto os registros de descumprimento dessas medidas cresceram 16,7%. Isso demonstra que a proteção legal precisa ser acompanhada de fiscalização, rapidez na atuação do Estado e fortalecimento das redes de acolhimento.

Mais do que um problema de segurança pública, a violência contra as mulheres é um desafio cultural. Ela está relacionada à forma como homens e mulheres são socializados, aos padrões de masculinidade construídos historicamente e às desigualdades de poder ainda presentes nas relações sociais.

Os dados da Indexa mostram que a sociedade brasileira já reconhece essa realidade. O Anuário demonstra que ela continua produzindo vítimas diariamente. Entre a percepção e a estatística existe um consenso preocupante: a violência contra as mulheres aumentou e exige respostas cada vez mais efetivas.

Esse consenso precisa, obrigatoriamente, ocupar o centro do debate eleitoral deste ano. A violência contra as mulheres não pode ser tratada como um tema secundário ou lembrada apenas em datas simbólicas. Os candidatos à Presidência da República têm o dever de apresentar propostas para fortalecer as políticas nacionais de proteção às mulheres, ampliar investimentos e integrar ações entre União, estados e municípios. Mas essa responsabilidade recai, principalmente, sobre os candidatos aos governos estaduais.

A Constituição atribui aos estados a responsabilidade pela segurança pública. São os governadores que comandam as polícias Civil e Militar, estruturam as delegacias especializadas, fortalecem as patrulhas de proteção à mulher, garantem o funcionamento das casas de acolhimento e executam boa parte das políticas de prevenção e combate à violência de gênero. Portanto, é deles que a sociedade deve cobrar compromissos concretos, metas e resultados.

Transformar essa consciência coletiva em políticas públicas permanentes, educação para a igualdade de gênero, fortalecimento das instituições e responsabilização dos agressores talvez seja o maior desafio da nossa geração. Afinal, uma sociedade que reconhece o problema já deu o primeiro passo. Agora, cabe aos futuros governantes demonstrar que também compreenderam a gravidade dessa realidade e estão dispostos a enfrentá-la com seriedade, planejamento e prioridade.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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