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A violência deixa marcas que seguem no corpo e na mente da vítima, enquanto instituições ainda hesitam em responsabilizar homens poderosos.

Adriana Vasconcelos

Adriana Vasconcelos

9/2/2026 14:00

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Uma jovem de 18 anos viveu um dia horror no dia 14 de janeiro passado, ao acompanhar os pais em uma viagem para o litoral de Santa Catarina. Os três estavam hospedados na casa de um amigo localizada na Praia do Estaleiro, em Balneário Camboriú. O anfitrião, se aproveitando da confiança que a família depositava nele, convidou a moça para acompanhá-lo num banho de mar, durante o qual ela teria sido tocada de forma inapropriada e indesejada.

Para se aproximar da moça, o até então "amigo" de seus pais teria alegado estar com frio e apontado para um casal próximo: "Deve ser por isso que eles estão abraçados". Em seguida, ele a teria virado de costas e pressionado seu corpo contra o dele, enquanto afirmava que a achava "muito bonita" e tocava suas nádegas.

A jovem imediatamente tentou se desvencilhar do assédio e, antes de conseguir se soltar, ainda ouviu um "conselho" em tom de ameaça: "Você é muito sincera, deveria ser menos sincera com as pessoas. Isso pode te prejudicar".

Quantas de nós já ouvimos algo parecido? Quantas já sentiram, em segundos, o corpo entrar em alerta — e a mente tentar calcular o risco de reagir?

Este caso ganhou os holofotes nacionais não apenas pela violência em si, tão comum e até hoje subnotificada, mas por quem foi apontado como acusado de importunação sexual: o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Marcos Buzzi.

A despeito da tentativa de intimidação, a jovem contou o ocorrido aos pais e prestou depoimento formal. Procurou a Polícia Civil e também levou o relato ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), acompanhada da mãe — uma advogada conhecida, respeitada e com trânsito no meio jurídico.

O assédio atravessa espaços públicos, privados e institucionais, e só a rede de apoio e a mobilização coletiva quebram o isolamento que sustenta a impunidade.

O assédio atravessa espaços públicos, privados e institucionais, e só a rede de apoio e a mobilização coletiva quebram o isolamento que sustenta a impunidade.Freepik

Coragem e suporte que a maioria das mulheres não tem quando precisa enfrentar homens poderosos — especialmente quando eles são autoridades. Essa assimetria aparece até nos gestos institucionais mais básicos: no STJ, oito dos 29 ministros votantes foram contra a abertura da sindicância contra o colega, a despeito da gravidade da denúncia.

O processo corre em segredo. Nos bastidores, comenta-se a possibilidade de uma punição administrativa: a aposentadoria compulsória, sem perda de proventos. Já a apuração criminal, remetida ao Supremo Tribunal Federal (STF), pode resultar em condenação por importunação sexual, com pena de um a cinco anos e perda da aposentadoria.

Em sessão secreta no STJ, o ministro negou as acusações. No dia seguinte, foi internado e apresentou atestado médico ao tribunal. A jovem, por sua vez, vem sendo acompanhada por médicos desde o dia do episódio, com relatos de impacto emocional — como dificuldade para dormir. Algo que costuma ser ignorado: o assédio não termina quando a cena acaba.

No Brasil, denúncias de importunação sexual se acumulam diariamente, e nem sempre recebem atenção compatível ao dano que representa para vítima. Em média, 54 novos casos são registrados por dia, de acordo com dados do CNJ.

E não é só na rua que costumam acontecer. Durante a pandemia de Covid-19, pesquisa do Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que, para muitas mulheres, o lugar que deveria ser abrigo também é risco: uma parcela expressiva das vítimas relatou que a violência ocorreu dentro de casa.

Temo, de verdade, que não exista um lugar totalmente seguro para nós. Mas existe algo que pode — e precisa — crescer: a nossa mobilização e rede de apoio às vítimas.

Se você sofreu assédio, não se culpe. Conte para alguém em quem confia. Se puder, registre. Procure apoio psicológico e jurídico. E, se uma mulher ao seu lado revelar uma violência, faça o mais importante: acredite, acolha e acompanhe. A impunidade se alimenta do isolamento.

E cantemos juntas com Sued Nunes, na sua inspiradora canção: "Povoada! Quem falou que eu ando só? Nessa terra, nesse chão de meu Deus, sou uma mas não sou só".


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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