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Adriana Vasconcelos
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O impacto da hipervigilância das cidades na realidade das brasileiras
Violência contra a mulher
18/2/2026 10:02
Já escrevi aqui, no meu primeiro artigo do ano, sobre a importância de as mulheres aprenderem a dizer não ao que as desagrada ou as deixa desconfortáveis. Mas volto ao assunto diante das trágicas consequências que essa negativa feminina pode provocar numa sociedade patriarcal, que se recusa a aceitar o direito de uma mulher decidir a própria vida e ainda joga sobre seus ombros a responsabilidade por crimes dos quais ela é a principal vítima.
É o que nos leva a refletir sobre o desfecho de um crime bárbaro registrado na semana passada, em Itumbiara. O então secretário de governo do município goiano, Thales Naves Alves Machado, decidiu atirar nos dois filhos, Miguel, de 12 anos, e Benício, de 8, e se matar logo em seguida. Em carta de despedida, atribuiu o gesto criminoso à crise que enfrentava no casamento e a uma suposta traição da mulher, Sarah Tinoco Araújo, que estava fora da cidade no momento do crime.
Além de enfrentar "a maior dor que uma mãe pode suportar", de acordo com o primeiro desabafo público que Sarah fez, ela ainda teve de deixar escoltada o enterro de um dos filhos. Desde a divulgação da tragédia, vinha sendo hostilizada e responsabilizada — inclusive por outras mulheres — pela morte dos próprios filhos, o que desvia o foco do verdadeiro agressor dos meninos: o próprio pai, incapaz de lidar com o possível fim do casamento.
O crime cometido por Thales, aliás, está prestes a ser incluído no texto da Lei Maria da Penha — por meio de um projeto de lei (projeto de lei 3880/2024), de autoria da deputada federal Laura Carneiro (PSD-RJ). A ideia é colocar a "Violência Vicária", pela qual agressores tentam causar sofrimento às suas vítimas atingindo pessoas próximas a elas, como os filhos, entre as definições de violência doméstica e familiar contra a mulher.
Essa costuma ser uma fórmula recorrente de muitos homens, especialmente quando se sentem contrariados ou fora do controle da vida de suas companheiras. Sarah saiu viva da situação, mas com o coração despedaçado. Admitiu que carregará, pelo resto da vida, o peso de suas escolhas e das consequências que elas trouxeram. E, usando o resto da força que lhe restou na alma, reiterou que "nada pode justificar a tragédia" que a abateu: "Meus filhos eram inocentes. Não mereciam esse destino".
No dia seguinte à morte de Benício — que passou por cirurgia após ser baleado pelo pai — outra tragédia em Itumbiara expunha mais uma ex-mulher assassinada pelo ex-marido inconformado, que ainda agrediu a filha da vítima com uma coronhada, antes de tirar também a própria vida. O que comprova que a violência contra as mulheres é diária, rotineira e não pode ser naturalizada nem justificada pelos nãos que elas proferem.
No Rio de Janeiro, no início do mês, a negativa da jovem Alana Anísio Rosa, de 20 anos, a um pedido de namoro motivou Luiz Felipe Sampaio, de 22, a desferir 15 facadas contra a moça, que segue internada em estado grave. Ela só está viva porque a mãe chegou em meio ao ataque e tirou o agressor de cima da filha.
Tragédias que, de certa forma, ajudam também a compreender o medo de muitas mulheres de dizer não em determinadas circunstâncias. Mas é possível também observar uma mudança de postura do Judiciário diante do aumento contínuo de registros de violência contra as mulheres.
O fato é que, na semana passada, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu por unanimidade afastar do cargo o ministro Marco Buzzi, após uma segunda vítima denunciá-lo também por importunação sexual — um recado de que essas negativas femininas, tão frequentemente ignoradas, precisam ser ouvidas também nos espaços de poder.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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