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Lydia Medeiros
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Eleições
31/3/2026 10:57
A disputa entre Eduardo Leite e Ronaldo Caiado pela indicação do PSD para a disputa presidencial foi um inédito ensaio de embate ideológico no partido de Gilberto Kassab. O confronto, porém, foi eliminado na raiz pelo pragmatismo que caracteriza o grupo que comanda o partido, formado por experientes políticos de direita que podem tender ao centro quando convém. Prevaleceu a ideia de que Caiado, um representante oligárquico da direita tradicional — sua família domina a política de Goiás há quase dois séculos —, seria não apenas mais próximo do eleitor que o PSD pretende representar, como o mais adequado para tentar tirar Flávio Bolsonaro do segundo turno das eleições.
Com o anúncio da candidatura de Caiado ao Planalto, fica adiada para 2030 a discussão de uma nova arquitetura para o centro político, força inexpressiva desde a falência do PSDB. Na semana passada, Leite recebeu o apoio de ex-tucanos importantes, como Pérsio Arida e Armínio Fraga, vozes com apelo junto a uma fatia importante do empresariado que rejeita a ideia da polarização Lula-Flávio Bolsonaro. Parte da elite apostou em Lula contra Jair Bolsonaro em 2022, com o discurso da defesa da democracia, mas parece decepcionada com o governo petista.
Há tempos Ronaldo Caiado tenta chegar ao Planalto, como ele mesmo admitiu em seu primeiro discurso como pré-candidato. Lembrou lições recebidas pelo pai na juventude, aconselhando-o a escalar os degraus da política e aprender a governar antes de querer sentar na cadeira presidencial — uma flecha na direção de Flávio Bolsonaro, cuja principal credencial é ser filho do ex-presidente.
Caiado ignorou o sermão paterno e apresentou-se nas eleições de 1989. Fundador da União Democrática Ruralista, entidade criada às vésperas da Constituinte para combater a reforma agrária, fez uma campanha ruidosa em defesa da propriedade privada, montado em um cavalo branco. Terminou em 10º lugar, com 488.893 votos, 0,72% do eleitorado, no primeiro turno das eleições vencidas por Fernando Collor.
Passaram-se quase três décadas e, em 2016, depois do impeachment de Dilma Rousseff, grupos de militares da reserva resolveram tentar influenciar as eleições presidenciais seguintes. O nome de Caiado frequentou as discussões como o de um possível candidato conservador, que teria um discurso duro para a área da segurança pública em 2018. Setores do DEM (hoje União Brasil) se entusiasmaram. Jair Bolsonaro, no entanto, já havia caído na estrada muito antes e, na avaliação desses grupos, mostrava-se eleitoralmente mais viável. Procuravam um antiLula; convergiram para o ex-capitão.
Caiado começou a campanha mostrando-se como um político experiente em contraste com Flávio Bolsonaro, o óbvio adversário do primeiro turno. Procurou afastar o rótulo de radical, defendeu a ciência e a democracia e listou algumas realizações que julga exitosas nos seus sete anos no governo de Goiás, sobretudo na área de segurança pública, maior preocupação da sociedade em 2026. Um discurso direcionado ao eleitor de centro.
Ao prometer anistia ampla e irrestrita aos condenados de 8 de janeiro, inclusive ao ex-presidente, como primeiro ato de um eventual governo, Caiado tira de Flávio Bolsonaro uma de suas principais bandeiras e tenta isolar o campo petista nesse debate. No entanto, assume riscos em relação a esse eleitorado de centro. Parece apostar na mudança de humor dos eleitores em relação à questão, já captada por pesquisas. A maioria ainda é contra a medida, mas a discussão perdeu o tom emocional. E a crise no Supremo depois do caso do Banco Master, com envolvimento de ministros, põe em xeque a autoridade da Corte, até há pouco aplaudida pela defesa da democracia.
Enquanto tentava ser o escolhido pelo PSD, Eduardo Leite afirmou que a opção do PSD definiria a identidade do partido para os próximos anos. A presença de Caiado indica o rumo e fortalece a direita no jogo eleitoral. Artífice da candidatura, Gilberto Kassab não esconde suas previsões para o segundo turno: Caiado e Flávio estarão juntos contra Lula.
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