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Adriana Vasconcelos
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"Manas em Combate": uma nova rede de apoio às vítimas de violência
Adriana Vasconcelos
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Igualdade de gênero
6/4/2026 12:00
O domingo de Páscoa amanheceu com um nó na minha garganta. Lembrei do meu pai, que partiu há quase três anos, e dos desafios que tenho enfrentado para lidar com o avanço da demência da minha mãe desde que ele se foi. A primeira reflexão que me vem é sobre o peso que o tempo nos impõe: a fragilidade que costuma chegar com a idade e as despedidas inevitáveis, única certeza da condição humana.
Mas, como o tempo não para — e já foi cantado em versos pelo genial Cazuza —, ele também é capaz de cicatrizar feridas e celebrar novas chegadas, como a dos meus dois netinhos, que abriram diante de mim um universo inédito de sentimentos e alegrias. São lições da vida às quais recorro para enfrentar a nossa luta feminina e as batalhas diárias travadas para que possamos ser quem quisermos, sem perder a esperança em dias melhores.
É por isso que a conquista da médica pediatra Cláudia Lima Gusmão Cacho merece ser celebrada. Na semana passada, ela entrou para a história como a primeira mulher promovida a general do Exército brasileiro. Foram necessários quase 400 anos para que essa cena se tornasse possível em uma instituição que só passou a admitir mulheres em seus quadros no início da década de 1990.
Definitivamente, nossas conquistas não chegam com rapidez. Mas chegam. E, por isso, precisam ser vistas sob a perspectiva histórica da nossa caminhada, marcada por uma cultura profundamente enraizada em uma sociedade que sempre reservou às mulheres o papel de coadjuvantes. Basta lembrar que, no Brasil, as meninas só foram autorizadas a ingressar nos colégios e estudar além da escola primária em 1827. Isso significa menos de 200 anos — metade do tempo que o Exército levou para ter uma mulher general.
De lá para cá, enfrentamos muitas outras batalhas para existir plenamente como cidadãs. Só em 1879 nos foi permitido o acesso ao ensino superior. O direito ao voto veio apenas há 94 anos. Em 1962, as mulheres casadas passaram a poder trabalhar sem autorização expressa dos maridos. E somente a Constituição Cidadã de 1988 nos assegurou, no artigo 5º, inciso I, que "homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações", encerrando, ao menos no plano legal, uma longa tradição de submissão, como a consagrada no Código Civil de 1916.
Hoje, tudo isso pode até parecer difícil de imaginar. Mas é justamente essa memória que nos dá a dimensão do quanto avançamos — e também ajuda a explicar por que ainda vemos tantas mulheres sendo as primeiras em espaços historicamente ocupados apenas por homens. É preciso dizer com clareza: abrir a porta para as próximas gerações não significa encerrar a luta.
Foi isso que destacou outra pioneira, a presidente do Superior Tribunal Militar, Maria Elizabeth Rocha, em palestra recente no Instituto dos Advogados de São Paulo. Ela reconheceu a dificuldade de ser mulher em uma sociedade patriarcal e as discriminações que continua enfrentando mesmo depois de alcançar um posto inédito na Justiça Militar. Ainda assim, recusou o papel de vítima e preferiu ressaltar o lugar estratégico que hoje ocupa para que outras mulheres possam vir depois dela.
É assim que o futuro se constrói: com sementes plantadas por mulheres que ousaram chegar primeiro. São conquistas como essas que nos permitem seguir em frente com a confiança de que não estamos sós — e com a disposição renovada para continuar lutando pelas próximas vitórias.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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