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Pedro Rodrigues
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Energia
9/7/2026 11:00
O maior IPO da história aconteceu no mês passado. A SpaceX estreou na Nasdaq avaliada em mais de US$ 2 trilhões, arrastando consigo a xAI e a promessa de que a IA redesenhará a economia global. Por trás da euforia, porém, há um detalhe pouco glamouroso que decidirá quem vence essa corrida — e não é software. É eletricidade.
A revolução da IA é o primeiro momento da história em que o mundo dos bits encontra o mundo dos elétrons. Todo modelo treinado, toda resposta gerada, todo data center em operação dependem, na base, de energia firme, barata e abundante. O algoritmo é a face visível, o elétron é a fundação invisível dessa equação.
Os números não deixam dúvida. Segundo a IEA, os data centers consumiram cerca de 415 TWh em 2024 — 1,5% da eletricidade mundial — e crescem 12% ao ano, quatro vezes mais rápido que a demanda total. Até 2030, esse consumo deve mais que dobrar, para 945 TWh: mais do que o Japão inteiro consome hoje. E a curva não para em 1.200 TWh projetados para 2035.
O motor dessa fome são os chips. Em seis anos os processadores da Nvidia evoluíram do Volta ao Blackwell e passaram a consumir nove vezes mais energia. Ao mesmo tempo, passaram a "cuspir" dez mil vezes mais dados.
É aqui que entram os data centers hyperscale. O data center convencional — dos que o Brasil já tem às centenas — opera entre 10 e 25 MW e hospeda nuvem, streaming e os serviços digitais do cotidiano. O hyperscale voltado à IA é outra espécie. Essa infraestrutura parte de um consumo de 100 MW, um volume de energia capaz de abastecer 100 mil residências. Não é um galpão de servidores maior — é uma planta industrial de energia disfarçada de tecnologia, capaz de redefinir o sistema elétrico onde se instala.
E é exatamente aqui que o Brasil ainda não chegou. Somos líderes da América Latina em data centers, com quase metade da capacidade em operação e mais de 70% da em construção na região. Mas essa base é feita de colocation e nuvem, puxada pela digitalização — não pela IA. O hyperscale de fato ainda é promessa: projetos de 200 MW em Santana de Parnaíba, 800 MW em Sumaré, até 1 GW no Porto do Açu foram anunciados, mas nenhum campus dessa escala opera no país.
E convém desconfiar dos rótulos: o "100% renovável" que muitos desses projetos exibem é atributo de contrato, não de tomada. O elétron não tem cor e, uma vez na rede, o hyperscale puxa a mesma energia que todo o resto.
O que nos coloca no jogo é a oferta. Matriz quase 90% limpa, potencial renovável gigantesco, manancial de água e território de sobra — o ativo que os hyperscalers perseguem, famintos por energia e por metas de descarbonização. Pela oferta, pouquíssimos países competem com o Brasil. Mas oferta abundante não é o mesmo que energia barata. E aqui está o gargalo. Por aqui, a eletricidade é cara. Cara a ponto de o Google ter levado ao Uruguai — e não ao Brasil — um data center de US$ 850 milhões, atraído por energia mais barata e tributação menor.
É esse o recado que vem de fora. Só neste ano, as big techs investirão mais de US$ 600 bilhões, e escolhem onde se instalar por uma pergunta simples: onde a energia é limpa, abundante, barata ao mesmo tempo e existe segurança jurídica e estabilidade regulatória? O Brasil responde às duas primeiras com folga. Falta a terceira e a quarta — e é justamente elas que decidem. Temos os elétrons mais verdes do continente. Falta torná-los também os mais competitivos — antes que a revolução que poderiam alimentar aconteça em outro lugar. Mas tudo isso, sem segurança jurídica e estabilidade regulatória não vai atrair os melhores investidores.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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