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Pedro Rodrigues
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Energia
27/8/2026 11:00
Prezado Presidente eleito,
Escrevo antes de saber o seu nome, o que me poupa a suspeita de estar bajulando. Nada aqui muda com o resultado da urna. Considere esta carta menos um programa de governo e mais aquele bilhete de boas-vindas.
Nos primeiros dias, alguém colocará sobre a sua mesa uma pasta com um carimbo de urgente. Nessa pasta parecerá que mora o problema energético brasileiro, sempre precisando ser resolvido de última hora. O fato é que o seu desafio e foco devem estar em outro lugar, planejando o futuro e não apagando incêndios do passado.
O senhor herda a matriz mais limpa entre as grandes economias. O mundo levou trinta anos e gastou uma fortuna tentando chegar aonde nós já acordamos. Passamos esse tempo pedindo desculpas pelo que temos e copiando metas de países que ainda queimam majoritariamente carvão para tomar banho quente. Nossa transição energética já foi feita. Podemos parar de tratá-la como dever de casa atrasado.
O nosso problema é outro, e é maior, apesar de podermos nos orgulhar de sermos os mais limpos, também somos um dos menores. Energia é vida e o brasileiro consome cerca de um quinto da energia de um americano. O aumento do consumo de energia é ar-condicionado na escola pública, geladeira cheia, fábrica empregando. Nunca houve na história país que saiu da pobreza consumindo pouca energia. Com esse diagnóstico, podemos dizer que o nosso desafio é o inverso da maioria dos outros países. Por aqui a prioridade não deve ser simplesmente limpar ainda mais a matriz, mas multiplicar o consumo sem sujá-la. Um problema melhor que o dos outros, e bem mais difícil de caber num palanque.
E a boa notícia, que talvez ninguém lhe conte na transição, é que o mundo está olhando e buscando exatamente o que nós temos. No ano passado, os investimentos globais em data centers foram maiores do que todo investimento em nova oferta de petróleo. O novo petróleo não sai do chão: entra pela tomada. E quem tiver energia limpa, firme e barata hospedará a inteligência do mundo. Isso é quase uma descrição do Brasil.
Quase. Porque temos o hábito peculiar de chegar cedo à festa e ficar na calçada, esperando autorizações e licenças. Jogamos fora um em cada cinco elétrons renováveis que produzimos, enquanto a fila de quem quer se conectar dá voltas no quarteirão. E, quando o investidor chega, oferecemos um cronograma em vez de uma resposta: houve poço na foz do Amazonas cujo pedido de licença nasceu em 2014 e só foi respondido em 2025. Onze anos não é decisão rigorosa: é não-decisão. E o investidor não briga com o nosso calendário — muda de país.
Nesse ponto, meu único pedido é modesto, quase administrativo: trate as agências reguladoras como órgãos de Estado, e não de governo. Diretoria completa, mandato respeitado, gente técnica e orçamento que não seja confiscado no meio do ano. A diferença entre a Noruega e a Venezuela nunca foi geológica. Ambas tinham petróleo; só uma tinha instituições.
E não aceite a pergunta que vão lhe fazer mil vezes: se o senhor é do petróleo ou das renováveis. A nossa riqueza é não precisar escolher — temos petróleo, gás, água, vento, sol, biomassa e urânio. Quem transforma a matriz em disputa de torcida acaba pagando duas vezes, pela usina que construiu e pelo apagão que não evitou.
Não lhe peço energia barata, Presidente — prometer preço é o que se faz em campanha. Peço regras que durem mais que um mandato. Foi assim em 1997, quando um governo com todos os motivos para manter o monopólio resolveu abri-lo. Não prometeu nada, mudou as regras e as deixou de pé. É por isso que hoje somos exportadores de petróleo.
Faça o mesmo, e daqui a quatro anos alguém escreverá um bilhete parecido com este para o seu sucessor. Com uma diferença: a parte sobre apagar incêndios não precisará mais estar nele.
Boa sorte e bom trabalho!
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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