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ELEIÇÕES 2026
Congresso em Foco
5/2/2026 | Atualizado às 12:30
O cálculo eleitoral de governadores em fim de mandato para 2026 ganhou um elemento decisivo: a relação com seus vices. Em ao menos três estados — Rondônia, Tocantins e Maranhão — conflitos abertos entre titulares e vice-governadores levaram os chefes do Executivo a descartar, ao menos por ora, a disputa pelo Senado para não entregar o comando do governo a adversários políticos diretos no momento mais sensível do calendário eleitoral.
Pela legislação eleitoral, governadores que desejam concorrer a outro cargo em outubro de 2026 precisam renunciar até 6 de abril daquele ano, seis meses antes do pleito. A saída antecipada transfere automaticamente o poder ao vice, que passa a comandar a máquina administrativa no período mais estratégico da corrida eleitoral.
Em estados onde a relação é harmoniosa, a transição é tratada como parte natural do processo político. Em outros, porém, o risco de fortalecer um rival direto tem pesado mais do que a perspectiva de uma vaga no Senado. Em pelo menos dez unidades da federação, vice-governadores são hoje os principais nomes da sucessão, com o aval explícito dos titulares. É o caso, entre outros, do Rio Grande do Sul, do Distrito Federal, do Pará e da Paraíba.
Rondônia: ruptura e medo de "entregar o governo ao inimigo"
O caso de Rondônia ilustra o oposto desse cenário. O governador Marcos Rocha, que trocou o União Brasil pelo PSD na semana passada, rompeu de forma definitiva com o vice Sérgio Gonçalves (União) após uma sequência de conflitos iniciados em 2025.
Rocha acusou o vice de articular nos bastidores contra seu mandato durante uma viagem internacional, quando ficou mais de 20 dias fora do país, retido em Israel em razão da guerra com o Hamas. O episódio marcou a ruptura definitiva da relação. Vieram, na sequência, retaliações administrativas, como a exoneração de Gonçalves da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, disputas judiciais sobre prerrogativas do cargo e ataques públicos.
O governador chegou a chamar o vice de "traidor" e foi explícito ao justificar sua decisão de não disputar o Senado, mesmo liderando pesquisas no estado. A avaliação de Rocha é que entregar o comando do Palácio Rio Madeira ao ex-aliado daria a ele uma vantagem política decisiva para a eleição ao governo.
Diante disso, o governador optou por permanecer no cargo até o fim do mandato e passou a articular a sucessão em torno de outro nome, abrindo mão de uma vaga considerada praticamente garantida no Senado.
Tocantins: retaliações e disputa pela máquina
No Tocantins, o conflito entre o governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) e o vice Laurez Moreira (PSD) ganhou contornos ainda mais agudos após o afastamento temporário do chefe do Executivo pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no âmbito da Operação Fames-19, que investiga desvios na compra de cestas básicas durante a pandemia. Wanderlei ficou fora do cargo entre setembro e dezembro de 2025.
Durante os meses em que comandou o estado interinamente, Laurez promoveu exonerações em massa no primeiro escalão e passou a imprimir uma marca própria de gestão. Com o retorno de Wanderlei ao cargo, a relação se deteriorou de vez.
O governador passou a rever atos da gestão interina e adotou medidas vistas como retaliação política: corte do cartão corporativo do vice, retirada de seu gabinete do Palácio Araguaia e criação de uma comissão para revisar decretos e contratos assinados no período em que Laurez esteve no comando. O vice foi desalojado da sede do governo e transferido para um prédio comercial.
"Quem tem que estar dentro do Palácio é o governador", disse Wanderlei. Alegando ter sido surpreendido com a mudança, Laurez respondeu que o Tocantins "vive à mercê de vaidades que ultrapassam os limites do rigor institucional".
Nesse contexto, embora Wanderlei seja cotado para disputar o Senado, a avaliação no Palácio é que uma renúncia até abril de 2026 significaria devolver o controle do estado a um adversário direto, que também pretende disputar o governo. O rompimento tornou a transição politicamente inviável.
Maranhão: sucessão travada para não fortalecer o vice
No Maranhão, a disputa entre o governador Carlos Brandão (sem partido) e o vice Felipe Camarão (PT) também levou o titular a descartar a candidatura ao Senado e anunciar que permanecerá no cargo até o fim do mandato.
O conflito tem raízes em acordos políticos firmados em 2022, quando Brandão se comprometeu a deixar o governo em 2026 para que Camarão assumisse e disputasse a reeleição. O arranjo contava com o aval do PT, do ex-governador e hoje ministro do STF Flávio Dino e do presidente Lula.
Três anos depois, Brandão mudou de estratégia. Decidiu lançar o sobrinho, Orleans Brandão, secretário de Assuntos Municipalistas, como candidato à sucessão e passou a resistir à ideia de renunciar. O vice acusa o governador de descumprir acordos; Brandão afirma que permanecerá no cargo para "salvar o grupo" e evitar a fragmentação da base.
Ao não renunciar até abril, Brandão impede que Camarão ganhe visibilidade e controle da máquina estadual no ano eleitoral, o que enfraquece o projeto do PT no estado e levou o presidente Lula a tentar mediar um acordo entre as alas.
Brandão foi vice de Dino em seus dois mandatos como governador e chegou à titularidade com o apoio do atual ministro do STF. Eles, no entanto, romperam politicamente em 2024, após 14 anos de aliança.
O peso da caneta
Nos três estados, o cálculo político é o mesmo: a renúncia até 6 de abril de 2026 não é apenas um ato formal, mas uma transferência efetiva de poder no momento mais decisivo da disputa eleitoral.
Controlar orçamento, agenda institucional, nomeações e visibilidade pública no ano da eleição pode ser determinante para o resultado das urnas. Para governadores em conflito aberto com seus vices, entregar o cargo significa fortalecer um adversário direto. O comando da máquina administrativa costuma render dividendos eleitorais.
Em 2022, 18 dos 20 governadores que concorreram à reeleição conseguiram renovar o mandato. As exceções foram São Paulo e Santa Catarina, onde Rodrigo Garcia (PSDB) e Carlos Moisés (Republicanos), respectivamente, sequer chegaram ao segundo turno.
Entre os eleitos, três haviam sido vice-governadores e assumiram o cargo antes de disputar a eleição: Carlos Brandão (MA), Wanderlei Barbosa (TO) e Cláudio Castro (RJ), este último vice de Wilson Witzel.
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