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CRIME ORGANIZADO
Congresso em Foco
21/5/2026 | Atualizado às 9:27
A prisão da influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra, nesta quinta-feira (21), é um dos desdobramentos da Operação Vérnix, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil para investigar um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A apuração mira uma transportadora de cargas sediada em Presidente Venceslau, no interior paulista, apontada como fachada para movimentar recursos atribuídos à cúpula da facção.
Deolane não é apontada, nas investigações, como integrante da cúpula do PCC. A suspeita é que contas ligadas a ela tenham recebido valores provenientes do esquema financeiro investigado. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões em bens e valores em nome da influenciadora, montante que, segundo os investigadores, teria origem não comprovada.
A defesa nega irregularidades. Em nota, Daniele Bezerra, irmã de Deolane e também advogada, afirmou que a prisão "nasce cercada de ilações, narrativas e perseguições que já se repetem há tempos". Ela disse ainda que é "grave" condenar uma pessoa perante a opinião pública antes da apresentação de provas.
Como a investigação começou
A investigação teve origem em 2019, depois que a Polícia Penal apreendeu bilhetes e manuscritos com dois presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material mencionava ordens internas da facção, contatos com integrantes de alta hierarquia do PCC e referências a ações violentas contra servidores públicos.
Um trecho chamou a atenção dos investigadores: a menção a uma "mulher da transportadora", que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pela organização criminosa. A partir dessa pista, foi aberta uma nova frente para apurar a relação entre uma empresa de transporte de cargas e a estrutura financeira da facção.
O papel da transportadora
Segundo a investigação, a empresa Lado a Lado Transportes, também chamada Lopes Lemos Transportes, funcionava como fachada para lavagem de dinheiro. A Operação Lado a Lado, deflagrada em 2021, identificou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico e uso da transportadora como braço financeiro do grupo.
Na operação, a polícia apreendeu o celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador central do esquema. De acordo com os investigadores, ele comprava caminhões, fazia pagamentos, movimentava recursos da cúpula do PCC e administrava patrimônio ligado a Marcola e ao irmão dele, Alejandro Camacho.
Onde Deolane aparece
O nome de Deolane passou a aparecer a partir da análise do celular apreendido com Ciro Cesar Lemos. Segundo a investigação, foram encontradas imagens de depósitos que favoreciam contas da influenciadora e de Everton de Souza, conhecido como Player, apontado como operador financeiro da organização.
A polícia sustenta que valores provenientes da transportadora eram destinados a Marcola, Alejandro e familiares por meio de contas ligadas a Everton e a Deolane. Os investigadores também afirmam que a influenciadora mantinha vínculos pessoais e de negócios com um dos gestores fantasmas da transportadora.
Depósitos fracionados
Um dos principais elementos citados pela investigação é a movimentação de R$ 1.067.505 recebidos por Deolane entre 2018 e 2021 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil. Para os investigadores, esse padrão pode indicar "smurfing", técnica usada para dificultar o rastreamento da origem do dinheiro.
Segundo a apuração, Everton de Souza indicava a conta de Deolane para "fechamentos" mensais. A suspeita é que parte dos depósitos em espécie tenha saído do caixa do PCC e passado pela estrutura da transportadora.
Empresas e falta de justificativa
A polícia também identificou quase 50 depósitos feitos a duas empresas de Deolane, no valor total de R$ 716 mil. Os valores teriam partido de uma empresa apresentada como banco de crédito, cujo responsável, segundo a investigação, é um homem da Bahia com renda aproximada de um salário mínimo por mês.
Os investigadores afirmam que não encontraram, nas contas de Deolane e de suas empresas, pagamentos compatíveis com os supostos créditos nem prestação de serviço jurídico que justificasse os repasses. Para a polícia, isso reforça a hipótese de ocultação ou dissimulação de recursos de origem ilícita.
Por que a Justiça mandou prender
Ao autorizar as prisões preventivas, a Justiça de São Paulo apontou indícios de autoria e materialidade dos crimes investigados. A decisão também considerou risco de destruição de provas, ocultação de patrimônio, interferência na investigação e fuga de investigados.
A Justiça entendeu ainda que medidas cautelares alternativas seriam insuficientes diante da sofisticação do suposto esquema. O fato de alguns alvos estarem no exterior também pesou na decisão.
Quem mais foi alvo
A Operação Vérnix teve seis mandados de prisão preventiva. Além de Deolane, foram alvos Marcola; Alejandro Camacho, irmão dele; Everton de Souza, apontado como operador financeiro; Paloma Sanches Herbas Camacho; e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho.
Marcola e Alejandro já estão presos na Penitenciária Federal de Brasília e devem ser comunicados da nova ordem de prisão. A Justiça também determinou buscas e apreensões, bloqueio de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões e bloqueios financeiros de R$ 357,5 milhões em nome dos investigados.
O que diz a defesa
Em nota, Daniele Bezerra afirmou que a prisão de Deolane estaria sendo usada para transformar "suposições em verdades" e "manchetes em condenações". Segundo ela, "acusar é fácil" e "difícil é provar".
"No Brasil, infelizmente, muitas vezes primeiro se expõe, se destrói a imagem e se condena perante a opinião pública... para só depois buscar provas que sustentem aquilo que foi dito. E isso é grave", afirmou.
Daniele também disse que "não se pode admitir que a Justiça seja usada como espetáculo" e que "prisão não pode ser instrumento de pressão, marketing ou vingança social".
Prisão anterior
Esta não é a primeira vez que Deolane é presa. Em setembro de 2024, ela foi alvo de uma operação em Pernambuco que investigava lavagem de dinheiro e jogos ilegais. O caso atual, porém, é distinto: a nova prisão foi determinada em investigação conduzida em São Paulo sobre suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao PCC.
Os investigados são considerados inocentes até decisão judicial definitiva. A Operação Vérnix ainda está em fase de apuração e as suspeitas deverão ser analisadas pelo Judiciário ao longo do processo.
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