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ENTREVISTA EXCLUSIVA
Congresso em Foco
20/6/2026 7:02
O que faz um presidente dar certo? Para Dorothea Werneck, não basta ganhar eleição, ter inteligência ou saber discursar. É preciso combinar conhecimento técnico, capacidade de negociação e força para executar. Foi com essa régua que a ex-ministra avaliou, em entrevista ao Congresso em Foco, dois dos quatro presidentes com quem trabalhou de perto: Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.
Na comparação, Dorothea não recorre a meias palavras. Collor, diz ela, tinha preparo suficiente para entender os desafios econômicos e uma capacidade de execução incomum. Mas fracassou no terceiro pilar: a habilidade política. "Zero", resume.
FHC, por outro lado, aparece como um presidente de grande densidade intelectual, capacidade de negociação e prestígio internacional. Mas, segundo ela, não tinha o mesmo perfil executivo. "Não era um executivo", afirma.
A avaliação integra a entrevista em que Dorothea revisita bastidores de quatro governos — Sarney, Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso — e trata de decisões que atravessaram a redemocratização, a abertura econômica, o impeachment de Collor e a consolidação do Plano Real. O assunto também é tratado em seu livro de memórias, Aprendendo e vivendo: uma biografia contada por histórias e versos, lançado em Brasília na última quarta-feira (17).
O tripé da liderança
Dorothea diz que costuma avaliar lideranças públicas a partir de três critérios: competência técnica, habilidade política e capacidade executiva.
A primeira envolve conhecimento suficiente para compreender o tema. A segunda, segundo ela, não se confunde com política partidária, mas com capacidade de negociar, convencer e construir acordos. A terceira é a disposição para fazer acontecer.
No caso de Collor, Dorothea reconhece limitações, mas afirma que ele compreendia a agenda econômica. "Não era um cara de grandes competências técnicas, mas entendia o que precisava fazer e o que precisava apoiar em outros", diz.
Collor: execução sem articulação
A surpresa, de acordo com a ex-ministra, era a capacidade executiva do ex-presidente. Ela trabalhou no governo Collor como secretária nacional de Economia, no Ministério da Economia comandado por Marcílio Marques Moreira, e lembra de um presidente que dava orientações, estabelecia prazos e cobrava resultados.
"Era uma máquina. Ele dava todas as orientações, estabelecia prazo, cobrava: ficou pronto por que não?", afirma.
Na área econômica, segundo ela, Collor reunia equipes, envolvia os responsáveis pela execução e mantinha cobrança objetiva. Mas essa força não bastou para sustentar o governo.
"Habilidade política, zero", diz. "Não conseguiu negociar nem dentro da família dele. Foi o caminho para o impeachment", diz, em alusão às denúncias que derrubaram Fernando Collor, feitas pelo próprio irmão Pedro.
FHC: brilho técnico, mas pouca execução
Ao falar de Fernando Henrique Cardoso, Dorothea muda o tom. Para ela, FHC tinha competência técnica "dez". Sociólogo, professor e intelectual reconhecido, reunia conhecimento, experiência acadêmica e capacidade de compreender grandes temas nacionais.
A ex-ministra também atribui a FHC alta habilidade política e lembra que ele precisou negociar apoios partidários e enfrentar a parte mais dura da construção de maioria no Congresso.
O ponto fraco, na visão dela, era a execução. Dorothea afirma que FHC não tinha perfil de administrador de comando firme. "Não era um executivo. Nota 4", diz.
Segundo ela, o presidente tendia a ouvir muitas opiniões em sequência e, com frequência, adotar a posição da última pessoa com quem conversava.
Plano Real e imagem internacional
Apesar da crítica à capacidade executiva, Dorothea atribui a FHC papel central na consolidação do Plano Real. Para ela, quando o então presidente abraçou o plano, lançado por ele ainda como ministro da Fazenda de Itamar Franco, ajudou a viabilizar uma das maiores transformações da história recente do país.
"A parte dele de habilidade política, na hora que ele abraçou o Plano Real, foi a maior coisa que aconteceu nesse país", afirma.
A ex-ministra também destaca a imagem internacional projetada por Fernando Henrique. Segundo Dorothea, FHC impressionava em viagens e entrevistas por falar diferentes idiomas e representar o Brasil com desenvoltura.
"A imagem do Brasil, refletida no exterior a partir da imagem do presidente, nota 10", afirma.
Para ela, esse prestígio ajudou o país na transição da hiperinflação para a estabilidade econômica.
Demissão pela imprensa
Em seu livro de memórias, a ex-ministra relembra uma passagem emocionante de sua vida com FHC. Um dia depois de tomar conhecimento pela imprensa de que seria demitida do Ministério da Indústria e Comércio, uma magoada Dorothea recebeu o então presidente em sua casa. Revelando dúvida quanto à decisão tomada, de substituí-la pelo então deputado Francisco Dornelles, para ganhar apoio do partido dele, na época o PPB, Fernando Henrique pediu desculpas à auxiliar.
Os dois se emocinaram durante o encontro. O episódio também é descrito por FHC em seu livro de memórias. Anos depois, o ex-presidente reconheceria que a demissão da ministra foi um erro de sua gestão.
Presidentes por dentro
A comparação mostra a forma como Dorothea enxerga o poder. Para ela, liderança pública exige equilíbrio entre saber, negociar e executar. Quando uma dessas dimensões falta, o governo se desequilibra.
Collor sabia cobrar e fazer andar, mas não soube construir sustentação política. FHC tinha brilho técnico, habilidade de negociação e respeitabilidade externa, mas não era movido pela mesma energia executiva. Para Dorothea, essa é uma das lições centrais da administração pública: ocupar o poder só faz sentido quando há capacidade real de entregar resultado.
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