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Marcelo Ramos: Trabalhadores por app não querem governo na regulação

Vice-presidente da Amobitec afirmou que atores da esquerda devem parar de "escolher o sonho" da classe, que busca autonomia nas plataformas.

1/4/2026
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O ex-deputado Marcelo Ramos, hoje da vice-presidente de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), acusou o governo de tentar "escolher o sonho" da classe do trabalho intermediado por aplicativos. Nas redes sociais, Ramos afirmou que setores da esquerda brasileira e do governo ainda não compreenderam as mudanças provocadas pelas novas tecnologias na relação entre trabalho, renda e projeto de vida.

Na avaliação do vice-presidente, o debate atual sobre a regulamentação do trabalho por aplicativos, em tramitação na Câmara dos Deputados, é contaminado por uma visão antiga do mercado de trabalho e por uma tentativa de o governo interferir em uma negociação na qual, segundo Marcelo Ramos, não foi chamado e não é bem-vindo.

"Os atores da esquerda brasileira precisam abandonar a péssima mania de querer escolher o sonho dos outros e entender que o mundo mudou e que tecnologias disruptivas mudaram a relação entre o homem e o trabalho. Muitos trabalhadores brasileiros hoje não querem um trabalho de carteira assinada, querem um trabalho que garanta autonomia, liberdade, flexibilidade."

Segundo sustenta no vídeo, a maioria dos trabalhadores brasileiros que atuam em plataformas digitais não busca necessariamente um emprego com carteira assinada. O vice-presidente reiterou que o principal valor buscado por esse grupo é a possibilidade de administrar o próprio tempo e ampliar a renda com mais liberdade.

"Esses trabalhadores acreditam que empreender ou ter um trabalho autônomo pode garantir uma renda maior do que o trabalho formal, trazendo junto um sonho de prosperidade e tempo de qualidade com a família, para o lazer, para o estudo. Se eles acreditam nisso, se eles sonham com isso, certos ou errados, quem somos nós para querer sonhar os sonhos deles?", declarou.

Para o ex-deputado, o erro de parte da esquerda é partir da premissa de que já sabe o que é melhor para o trabalhador, sem ouvir o que o próprio trabalhador deseja. Marcelo Ramos defendeu que a controvérsia regulatória, presente no projeto de lei complementar 152/2025, expressa uma disputa entre uma visão mais tradicional do emprego e uma realidade nova, moldada por tecnologia, flexibilidade e autonomia.

Quem chamou o governo?

De acordo com o vice-presidente, entregadores e motoristas já têm se mobilizado por conta própria para pressionar as plataformas por melhores condições de trabalho há algum tempo. Ramos afirmou que esse processo de organização demonstra que os próprios trabalhadores têm capacidade de se articular sem convocar o governo para intervir.

"Os entregadores já estão há algum tempo muito mobilizados, inclusive com paralisações, para pressionar as plataformas a melhorarem as suas condições de trabalho. Eles não chamaram o governo, eles não querem o governo, a maioria deles é hostil e faz oposição ao governo e o governo insiste em se meter na negociação deles."

Marcelo Ramos contrapõe o comportamento atual de setores da esquerda à tradição histórica do movimento sindical e das lutas trabalhistas. Segundo o vice-presidente, havia um tempo em que a esquerda defendia justamente que os trabalhadores se organizassem e enfrentassem seus patrões sem mediação governamental direta.

"Eu sou de um tempo em que a esquerda lutava para que os trabalhadores se organizassem e pressionassem os seus patrões. Sou de um tempo em que sindicatos e associações não chamavam e nem permitiam que governos participassem de negociações", relembrou.

De olho nas urnas

Ramos questionou a racionalidade eleitoral da entrada do governo no tema. O ex-deputado sugeriu que a decisão de se envolver nesse debate em ano eleitoral pode gerar mais desgaste do que ganho político. "Agora, setores empurram o nosso governo a se meter num debate em que ele não é chamado e não é bem-vindo", criticou.

O vice-presidente disse tentar entender a "conta eleitoral" das decisões. Segundo Ramos, é verdade que o governo tem papel na regulamentação, mas disse não entender o porquê da decisão de enfrentar esse desgaste vem apenas agora, perto da disputa eleitoral.

"Teve três anos e não regulamentou, vai regulamentar agora, às vésperas da eleição, com todo o desgaste que esse debate gera?", argumentou. "O que me parece é que o governo está sendo empurrado para agradar um pequeno setor de entregadores de São Paulo ligado ao Psol e para irritar a maioria dos entregadores, motoristas e 55 milhões de consumidores das plataformas."

Para o vice-presidente, ainda falta levar em consideração o temor do usuário quanto ao encarecimento do serviço. Esses consumidores, segundo Marcelo Ramos, estão "morrendo de medo do aumento do preço do serviço".

"Quero lembrar uma pesquisa do Datapovo, publicada pela Folha de S.Paulo, que diz que o maior sonho dos moradores da periferia hoje não é uma carteira assinada ou uma aprovação em concurso público. O maior sonho dos moradores da periferia é ter o seu próprio negócio. Ou a esquerda e o governo entende isso e passa a dialogar com esse novo mundo, ou perderá de vez a capacidade de ser ouvido pelas próximas gerações."
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