Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
José Dirceu
José Dirceu
José Dirceu
José Dirceu
José Dirceu
Geopolítica
4/3/2026 15:00
Diz uma máxima da política doméstica dos EUA que uma das estratégias mais eficientes para um presidente norte-americano unir o seu país e recuperar sua força interna é atacar uma outra nação, de preferência sem autorização do Congresso nem justificativa clara para fazê-lo. Junte-se a isso interesses diretos em petróleo, a tentativa de salvar sua política econômica e a possibilidade de unir narrativa ideológica com demonstração de força para intimidar outros países, ricos ou periféricos, e trabalhar por uma nova ordem global que desmonta o multilateralismo e impera a força imperial – militar e econômica.
A ofensiva de Donald Trump e de Israel contra o Irã opera expressamente sob essa logica. Ele vinha do revés sofrido contra a milícia anti-imigrantes do ICE e a derrota imposta pela Suprema Corte ao declarar a ilegalidade da política tarifária trumpista. Enfrenta também crise econômica e divisão internas diante de um presidente que acredita que seus pendores imperiais possam ser exercidos fora dos limites da lei.
O que se assiste hoje é mais grave do que tudo o que se assistiu nos últimos anos na política norte-americana. É uma concepção de poder que desconhece limites institucionais e constitucionais quando se trata de afirmar a supremacia dos EUA. O multilateralismo, para Trump, é obstáculo a ser eliminado. A negociação é um instrumento tático de fachada. A força bruta é sua única linguagem legítima. Sob Trump, os EUA consolidaram uma política externa marcada pelo decisionismo, pela ruptura de acordos, pela banalização das sanções e pela ameaça permanente de ação militar. O que se vê agora é a continuidade de seu método, ou seja, ele usa negociações como instrumento de pressão, cria ambientes de aparente distensão para que, simultaneamente, possa preparar movimentos de coerção.
O trumpismo, como já sustentei anteriormente em artigo publicado no site da Fundação Perseu Abramo, expressa a tentativa de recompor a hegemonia norte-americana por meio da intimidação e seguida da força. Diante de um mundo multipolar e de um declínio relativo de poder econômico, tecnológico e político, setores da elite dos EUA optaram por radicalizar a coerção. Sanções, bloqueios, ameaças militares e operações extraterritoriais tornaram-se instrumentos ordinários. A diplomacia é mantida, muitas vezes, como encenação.
Os ataques ao Irã marcam mais do que um capítulo adicional na história conturbada do Oriente Médio, pois sinaliza uma inflexão perigosa na ordem internacional, na qual a diplomacia cede lugar à ação unilateral, a negociação se converte em instrumento cênico e a força opera como método preferencial de política externa. O que está em jogo é a própria sobrevivência das regras que, com todas as suas limitações, organizaram o sistema internacional nas últimas décadas.
No caso iraniano, esse padrão se mostra ainda mais nítido. Negociações que aparentavam buscar distensão foram utilizadas como tempo estratégico para reorganização militar e preparação de ofensivas. O uso da conversa como cortina de fumaça não apenas mina a confiança entre Estados, mas compromete a própria possibilidade de solução negociada de controvérsias futuras.
Um inimigo à altura?
Há ainda um erro recorrente na leitura ocidental sobre o Irã: subestimar sua capacidade de resposta. O país demonstrou possuir meios ofensivos relevantes, capacidade de coordenação regional e instrumentos assimétricos que alteram o cálculo estratégico de qualquer adversário. Em outras palavras, a covardia de EUA e de Israel parece enfrentar um inimigo forte. É uma constatação geopolítica. A ideia de que ataques pontuais resolveriam o problema ou levariam a um rápido colapso interno ignora a complexidade do equilíbrio de forças no Oriente Médio.
O resultado imediato é a ampliação do risco sistêmico. O Irã ocupa posição central no Golfo Pérsico e influencia diretamente a segurança do Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial. Uma escalada prolongada pode desencadear choque energético global, pressionar preços, alimentar inflação e afetar cadeias produtivas. Em um cenário já marcado por tensões geopolíticas e fragilidade econômica, a instabilidade adicional funciona como combustível para crises sucessivas.
Israel, por sua vez, radicaliza essa estratégia ao normalizar operações extraterritoriais, assassinatos seletivos e ataques preventivos sob o argumento da segurança nacional. O governo israelense opera sob a lógica da dissuasão permanente convertida em intervenção contínua. A doutrina de segurança transformou-se em autorização tácita para ações preventivas que ultrapassam fronteiras. A exibição de força, apresentada como demonstração de superioridade, alimenta um ciclo que reduz as possibilidades de mediação internacional. A segurança de longo prazo não se constrói pela multiplicação de frentes militares.
Não se trata de ignorar as contradições internas do regime iraniano. Sobre isso, aliás, parece ilusório, entre inclusive entre aqueles que protestaram contra o regime islâmico no Irã, acreditar que a troca (ou mesmo a morte) de Ali Khamenei poderia resultar em um regime anti-islâmico e antiimperialista, ou liberal e alinhado ao Ocidente. Essa é uma impossibilidade histórica. Qualquer democrata, inclusive democratas que só enxergam a democracia segundo o modelo ocidental, defende a liberdade de um povo de reivindicar mudanças econômicas e políticas, incluindo respeito às mulheres, fim das leis homofóbicas, entre outras. Mas não é disto que se trata. Concordando com muitos analistas críticos, a tendência é que, uma vez derrotada a República Islâmica iraniana, o que virá será uma ditadura a serviço dos EUA e de Israel.
É o caso de lembrar o fracasso norte-americano no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria. O Afeganistão terminou com o retorno do Talibã ao poder após duas décadas de ocupação. O Iraque, invadido sob o falso pretexto de armas de destruição em massa, converteu-se em um Estado majoritariamente xiita, mergulhado por anos em guerra sectária e profundamente instável. A Líbia, após a derrubada de Muammar Kadafi, fragmentou-se em milícias rivais e guerra civil permanente. A Síria foi devastada por um conflito no qual prosperaram grupos herdeiros da Al-Qaeda e do Estado Islâmico. Em todos esses casos, a promessa de "libertação" produziu caos, radicalização e Estados fragilizados.
A lição da história é inquestionável: intervenções externas destinadas a "reconfigurar regimes" não produziram democracias estáveis, mas sim fragmentação, extremismo e guerras prolongadas. Imaginar que no Irã o desfecho seria diferente é ignorar essa experiência histórica recente.
Mas Trump claramente mira as relações do Irã com as forças de um mundo multipolar – China e Rússia, em especial. É um pano de fundo tão complexo quanto os conflitos do Oriente Médio. Essa fórmula de minar as relações entre países antagônicos e grandes potências foi testada na Venezuela, com a captura de Nicolás Maduro, hoje preso nos EUA. Ali não houve mudança de regime, mas o esforço de Trump é por um governo de alinhamento a ele e distanciamento de China e Rússia.
Soberania e o direito internacional em jogo
É o momento de afirmar um princípio elementar: a soberania e o direito internacional não podem ser descartados conforme a conveniência das potências militares, sob pena de naturalizarmos ataque preventivos e legitimar um precedente que poderá ser invocado em qualquer região do mundo. Foi o que se viu na Venezuela, é o que poderá se ver em Cuba, por exemplo. Ou na Europa. Invadir um país para sequestrar um líder de Estado ou para mata-lo é uma violação às normas básicas da moral, dos princípios da Carta das Nações Unidas e do direito internacional.
O mundo de Trump é a crença de que o líder pode agir acima de mediações institucionais e compromissos multilaterais, o que produz efeitos corrosivos também no plano doméstico. A exibição de força externa muitas vezes funciona como compensação para fragilidades internas, polarização política e perda de consenso social. Mas o custo internacional dessa estratégia é alto e inclui erosão de confiança, fortalecimento de alianças defensivas alternativas e aceleração da transição para uma ordem menos previsível.
Para o Brasil, as consequências são concretas. A volatilidade no preço do petróleo impacta combustíveis, inflação e política monetária. Afeta o crescimento e impõe desafios adicionais à gestão econômica. Estados produtores sentem tanto a valorização do barril quanto os efeitos macroeconômicos de um ambiente internacional instável. Em um mundo interdependente, não há neutralidade econômica diante de crises geopolíticas. O Brasil tem compromisso constitucional com a não-intervenção, a autodeterminação dos povos e a solução pacífica de conflitos. Esse é um eixo estruturante de nossa política externa. Em tempos de banalização da força, reafirmar o multilateralismo significa a defesa racional de nossos interesses estratégicos.
A escalada contra o Irã revela uma transição histórica marcada pela substituição de regras por poder bruto. Todos perdem: o Oriente Médio, submetido a ciclos intermináveis de tensão; a economia mundial, sujeita a choques recorrentes; e as democracias, fragilizadas por um ambiente global cada vez mais hostil às normas.
A crítica às ações de Trump e do governo israelense, portanto, não é defesa de regimes autoritários. É defesa do direito internacional, da soberania e da estabilidade global. O desafio das forças democráticas é impedir que a exceção se torne norma. Porque, se aceitarmos que a guerra preventiva e a manipulação diplomática sejam instrumentos legítimos de política internacional, estaremos renunciando ao único horizonte capaz de conter a espiral de conflitos: a primazia das regras sobre a força.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
Temas