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O licenciamento ambiental e a derrota do Brasil

Derrubada de vetos amplia risco de obras sem controle e pressiona políticas climáticas.

José Dirceu

José Dirceu

9/12/2025 13:03

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Ao derrubar 52 dos 63 vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à lei que flexibiliza o licenciamento ambiental no Brasil, a maioria do Congresso Nacional mostrou mais uma vez de que lado está: o lado oposto ao que pensam os brasileiros em sua maioria, o lado da desestruturação do arcabouço construído ao longo dos últimos 40 anos, da corrida por empreendimentos sem controle e de um modelo de desenvolvimento predatório, já superado em muitos países mas que setores poderosos tentam ressuscitar. Em nome desses interesses e do jogo político pequeno à custa do país, deputados e senadores abriram a porteira para a demolição do regramento ambiental brasileiro.

Não aprenderam a lição extraída da aprovação da PEC da Impunidade, como podemos chamar a recente proposta de emenda constitucional que dispõe sobre prerrogativas parlamentares, construída para blindar congressistas, interditar a possibilidade de o povo fiscalizar seus mandatos e incluir novas exigências para o Supremo Tribunal Federal processar criminalmente parlamentares envolvidos em crimes. Sua aprovação em setembro, pela Câmara dos Deputados, levou milhares de brasileiros às ruas, especialmente a juventude, e um forte desgaste do Legislativo. Enquanto se volta contra o meio ambiente e a favor da própria blindagem, o Congresso resistiu o quanto pôde, e ainda resiste, a projetos do governo Lula que protegem a economia popular, como demonstram os exemplos da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, o fim da escala 6x1 e a cobrança de mais imposto dos bilionários, dos bancos e das bets.

A derrubada dos vetos significa a institucionalização de um licenciamento de baixo controle justamente para obras de alto impacto, com prazos artificiais e decisões deslocadas das áreas técnicas para os interesses locais. Fragiliza a atuação do Estado e abre mais espaço para interesses privados se oporem sobre o interesse nacional, os biomas, os povos indígenas e a soberania do país. Há vários dispositivos problemáticos. Um deles é a dispensa de licença para atividades em imóveis rurais com pendência na homologação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), antigo interesse da bancada ruralista. O governo vetou e o Congresso o restabeleceu. Outro exemplo é a Licença por Adesão e Compromisso (LAC), autorização emitida pelo próprio empreendedor, que o governo buscou fazer com que só fosse válida para projetos de baixo impacto, mas o Congresso voltou a permitir os de médio impacto. Há também a possibilidade de estados e municípios definirem critérios locais de licenciamento, contrariando regulamentações federais. Como lembrou o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, abre-se caminho para uma "guerra de flexibilizações" de leis ambientais entre estados e municípios dispostos a atrair empreendimentos. "Um determinado governador pode falar: 'venha para cá, que aqui te dou a licença no mesmo dia. Com isso, pode haver migrações de atividade industrial ou econômica de um lugar para o outro, pela facilidade de se obter uma licença", disse Agostinho, em didática entrevista ao jornal O Globo.

Ou seja, se um grileiro declarar um Cadastro Ambiental Rural em terra pública, pode fazer qualquer coisa, e não precisa esperar a validação por órgãos ambientais. Pareceres do Ibama, do ICMBio e da Funai se tornaram facultativos. Estados e municípios podem fazer suas normas ambientais ignorando leis federais.

Derrubada de vetos ameaça arcabouço ambiental construído em 40 anos

Derrubada de vetos ameaça arcabouço ambiental construído em 40 anosFreepik

Licenças precárias, ao contrário do que se pode imaginar, são imensamente prejudiciais aos empresários que desejam investir em médios e grandes empreendimentos, e ao agronegócio em geral. Primeiro, porque cresce o risco de insegurança jurídica: licenças precárias podem receber facilmente contestações na Justiça e atrapalhar as obras. Segundo, porque a legislação, da forma como ficou, pode afetar enormemente o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Mercados internacionais, da Europa à China, estão cada vez mais exigentes, ao limitar, por exemplo, a venda de produtos ligados ao desmatamento, a maior fonte de emissões de carbono do Brasil. Prejudica-se a economia brasileira e as ações que o governo vem promovendo para atingir a meta de desmatamento zero em 2030 e fazer a parte do País para mitigar o aquecimento global.

O que espanta, embora não surpreenda, é que tais decisões tenham ocorrido logo após a COP30, em Belém, e num contexto de efervescência dos debates sobre desmatamento, mudanças do clima, avanço dos crimes ambientais na Amazônia e eventos climáticos extremos. Mas o negacionismo de muitos serve a bastante coisa, menos ao que se diz oficialmente, ou seja, ser solução para destravar obras, sob o argumento de que precisamos de uma regulação mais moderna e simplificada. O governo Lula e o PT têm legitimidade como poucos para refutar essa falácia: se reconhece a necessidade o Brasil aproveitar oportunidades e avançar em obras de infraestrutura. Ninguém deseja – nem governo, nem o setor produtivo nem ambientalistas - deseja que projetos estratégicos sejam atrapalhados por demora excessiva ou burocracia. Mas há muita desinformação aí. Primeiro porque agilizar não pode ser sinônimo de vale-tudo. Segundo porque boa parte dos atrasos da liberação de licenças se deve a falhas de projetos e estudos. Terceiro porque faz parecer que são três coisas inconciliáveis – empreendimentos, regulação simplificada e proteção de biomas. A legislação não destrava obras, e sim a capacidade de controle da sociedade e dos órgãos ambientais, mesmo em empreendimentos de altíssimo impacto ambiental.

No jogo da desinformação setores da mídia brasileira têm responsabilidade também. Como lembrou a ombudsman da Folha de S.Paulo, Alexandra de Moraes, a partir de inúmeras queixas dos leitores do jornal, a cobertura jornalística tem sido, em grande medida, contaminada pelo cacoete de resumir essas votações relevantes a uma "derrota do governo" ou "derrota de Lula". São clichês jornalísticos que revelam a má vontade de setores da mídia com o governo e escondem o que é essencial: a derrota em questão não se concentra no governo, no presidente ou no PT, mas ao País. Não é um equívoco trivial. No caso das discussões tributárias entre ricos e pobres, quem tem sido derrotado são os trabalhadores. No caso da PEC da Impunidade, é a democracia e seus mecanismos de controle social sobre os representantes dos eleitores. E assim por diante.

Ao fazer suas escolhas, congressistas pagarão caro nas urnas no ano que vem. Dão exemplos sucessivos do quanto precisamos mudar o Congresso e a correlação de forças políticas e partidárias ali. Radicalmente. Afinal, é o Congresso que sustenta as reformas, avança ou contém iniciativas inaceitáveis como a PEC da Impunidade, namora com a anistia a golpistas e intimida os demais Poderes, como o Executivo e o STF, além de resistir a medidas de interesse do Brasil que o governo Lula tomou para proteger a economia, em gestos dissonantes em relação aos interesses do país.

Tenho insistido que o Brasil precisa de uma revolução política e social e é nosso dever colocar em debate as escolhas necessárias, e a reflexão sobre caminhos e modelos distintos que estão em jogo e são de interesse direto dos mais pobres e das classes médias. Nossas elites renunciaram ao Brasil e se agarraram aos privilégios que impuseram ao País e, por essa razão, costumam recusar toda e qualquer política de distribuição de renda, riqueza e patrimônio – e a maioria do Congresso atual tem sido, infelizmente, um dique de proteção a esses privilégios e a essa oposição à parcela da população que mais precisa da política e do Estado.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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